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segunda-feira, 18 de novembro de 2019

A Bactéria das Histórias


mediação da leitura para a infância como uma actividade de contágio
(reflexão em quatro movimentos com origem no livro)

Raquel Patriarca

a missão

Primeiro Movimento: Sobre a Missão
Venho hoje falar-vos dessa maravilhosa actividade que é a mediação da leitura. Claro que, dito assim, “eu sou mediadora da leitura de livros”, não soa a uma profissão muito desafiante. Mesmo dizendo “adoro aquilo que faço, até tenho jeito e sei o que estou a fazer”, a mediação da leitura é, ainda, uma actividade de… bem, de totós.
Aposto que nenhuma criança sonha ser um mediador da leitura quando crescer. Nessa matéria, os bibliotecários continuam a perder para os bombeiros, os palhaços e, claro, os astronautas. O que esta malta ainda não sabe é que viver dentro dos livros é uma forma quase tão eficaz de andar sempre na lua como ser astronauta.
Entendo a missão de mediador da leitura, e não uso a palavra ‘missão’ ao acaso, como um conjunto integrado de acções, uma espécie de processo que compreende várias etapas e que, no final, tem como objectivo o transporte de uma história ou de um livro entre as estantes da biblioteca e a alma de alguém.
Claro, como toda a arte que se preze, estas coisas dos livros e da leitura são muitas vezes empurradas para o campo do inútil e isso, além de triste, é grave. Porque a acepção de ‘utilidade’ que se gasta hoje em dia traz sempre por arrasto três critérios que viciam o juízo: o da visibilidade – que atribui valor apenas àquilo que é visível, e quanto mais visível melhor –; o do imediatismo – que entende como útil somente aquilo que demonstra utilidade agora –; e o da rentabilidade – que só vê utilidade naquilo que é rentável, de preferência rentável de forma bem visível, e agora.
Estou a perder, pelo menos, três minutos dos vinte que me deram a falar nisto porque me parece importante, e útil, termos presente que a esmagadora maioria do trabalho que fazemos é invisível e inquantificável, os frutos só se colhem passado muito tempo e as, mais das vezes, longe da nossa vista.
É por ser uma ‘missão’ que estes critérios não se aplicam à mediação da leitura. Como qualquer ‘missão’, é um labor em que muitas vezes parece que entregamos mais do que trazemos. Mas só parece. Nós sabemos que não é assim, porque percebemos o momento “sensitivo e consciente” em que tocamos alguém com uma história ou um poema. Porque o conhecimento do passado e a experiência de incontáveis bibliotecários, desde a Biblioteca de Alexandria até à Biblioteca Municipal da Maia, nos diz que assim é. Porque acreditamos na “fé poética”.
O problema é que vivemos num mundo em que os profissionais bem-sucedidos se medem pelos mesmos três critérios do visível, do imediato e do rentável. O mesmo mundo que nos trata com o paternalismo próprio que se guarda aos que não ‘vivem no mundo real’. Mas esse problema é deles e não nosso. Porque nós acreditamos no valor intrínseco daquilo que fazemos.
Na verdade, de totós só temos a aparência. O que conta é o que trazemos de pensamento livre e sábio, e de espírito missionário e guerreiro.
Quando ouço aquela pergunta típica do “para que serve?” Para que serve a leitura? Para que serve a arte? Para que serve a poesia? Para que serve a filosofia? Bem, para fazer perguntas melhores, é a resposta que me ocorre logo. Mas a melhor resposta, a que trago sempre comigo e que nunca me falha, é a do filósofo Núccio Ordine, que diz, simplesmente: A arte, a literatura, a filosofia não servem. As actividades da criação e do pensamento não são servis, sabem apenas libertar. Nós não vivemos no mundo real porque escolhemos não o servir. Escolhemos o caminho, bem mais sinuoso, de ajudar a criar um mundo real melhor.
Seja como for, e sabendo à partida que cada um de nós alimentou o sonho secreto de ser astronauta, e que só está aqui hoje porque esse propósito correu mal, o que me proponho a fazer é, em primeiro lugar, provar-vos que a mediação da leitura é uma actividade muitíssimo pertinente, honrada e gratificante, cheia de beleza e significado. E, em segundo, partilhar convosco os dois elementos que penso serem essenciais para um bom cumprimento desta missão.

a riqueza

Segundo Movimento: Sobre a Riqueza
Lembram-se de vos ter dito que os frutos do trabalho do mediador não se podem quantificar no imediato e dentro dos modelos convencionais? Isto não significa que não haja formas de percebermos como é importante aquilo que fazemos.
Temos, hoje, como inequívoco que há uma relação directa entre os índices de produtividade, riqueza, participação cívica, e paz social de um país, e os seus níveis de literacia.
É precisamente isso que nos diz o Manifesto IFLA / Unesco sobre Bibliotecas Públicas (1994). Que “a liberdade, a prosperidade e o desenvolvimento da sociedade e dos indivíduos são valores humanos fundamentais. Só serão atingidos quando os cidadãos estiverem na posse da informação que lhes permita exercer os seus direitos democráticos e ter um papel activo na sociedade. A participação construtiva e o desenvolvimento da democracia dependem tanto de uma educação satisfatória, como de um acesso livre e sem limites ao conhecimento, ao pensamento, à cultura e à informação”.
Qual é a nossa ‘missão’, afinal? Colocar com muito cuidado as sementes que, um dia e algures longe da nossa vista, farão nascer os frutos da liberdade, da prosperidade e do desenvolvimento.
É só. Coisa pouca.
Estou em crer que, por esta altura, já vocês pensarão que eu sou uma pobre alma, irremediavelmente perdida na ilusão de que é possível salvar o mundo com livros. A verdade é que ainda ninguém me convenceu do contrário.
Salvar o mundo com livros… claro que é possível.
Pois se toda a cultura ocidental radica nas parábolas de um livro, cujo título é, ainda por cima, A Bíblia que significa, literalmente, O Livro. Pois se Cristóvão Colombo atravessou o oceano certo de que encontraria um continente porque, por obra do destino lhe terá  ido parar às mãos o destroço de papel – quem diria que um dos únicos sobreviventes do naufrágio de uma barca junto à Costa de Labrador seria um diário de bordo –, que era, no fundo, um livro. Pois se o nosso conhecimento científico sobre a natureza e a evolução das espécies nasceu das reflexões de um choninhas que, depois de inúmeras viagens e observações entre tartarugas, iguanas e passarinhos, decidiu – querem adivinhar? – escrever um livro.
São incontáveis os exemplos de livros que marcaram o percurso da humanidade. A forma como nos entendemos a nós próprios, a forma como nos relacionamos uns com os outros, a nossa explicação com o mundo estão intrinsecamente ligados aos livros que lemos e que damos a ler.
A Fábulas de Esopo (séc. VII-VI a.C.), A República de Platão (ca. 380 a.C.), Diário da Primeira Viagem de Vasco da Gama à Índia (1497), Os Direitos do Homem de Thomas Paine (1791), O Manifesto Comunista de Marx e Engels (1848), A Cabana do Pai Tomás de Harriet Beecher Stowe (1852), A Origem das Espécies de Charles Darwin (1859), O Diário de Anne Frank (1947), o Segundo Sexo de Simone de Beauvoir (1949), A Difícil Caminhada para a Liberdade de Nelson Mandela (1965)… são apenas alguns dos muitos livros que marcaram o rumo da humanidade.
Os livros são instrumentos de um poder imenso e imprevisível. Não é por acaso que as primeiras iniciativas “culturais” de qualquer ditadura, seja velada ou assumida, é criar uma lista de obras de regime, e outra, de obras a abater.
Na faculdade tive um professor que nos ensinou uma verdade fundadora e que dizia mais ou menos isto: o mundo tem muito mais de bom do que de mau; o problema é que o ‘Bem’ é naturalmente livre e espontâneo, e o ‘Mal’ é naturalmente assertivo e organizado.
Ora nós, meus amigos, somos bibliotecários. Isso quer dizer que não há nada que não sejamos capazes de organizar, contando que tenhamos uma boa base de dados e um sistema de cotas inteligente e dinâmico. Nada nos impede de catalogar todas as boas ideias que encontramos por aí, livres e espontâneas, e de as usarmos para mudar o mundo. Um livro de cada vez.
Quando digo ‘um livro de cada vez’ não estou só a usar uma frase bonita. Estou a estabelecer um percurso estratégico. Estou a dividir uma tarefa imensa e esmagadora –salvar o mundo com livros – em partes pequeninas e acessíveis.
As maiores viagens começam sempre com um pequeno primeiro passo, dizia Bilbo Baggins, e é verdade. A nossa missão cumpre-se um livro de cada vez. A começar, quase sempre da mesma maneira: ‘Era uma vez…’.
Vou directa ao ‘Era uma vez’ porque um leitor deve começar a construir-se muito cedo. Antes mesmo de aprender a ler. E, claro, o pequeno primeiro passo dessa grande viagem não se faz com Os Versículos Satânicos de Salman Rushdie, mas é importante criar na infância um leitor que, quando adulto, seja capaz de ler o dito livro e que, ao mesmo tempo, seja incapaz de o queimar ou de bater no seu autor.
Começamos com A Maior Flor do Mundo para podermos caminhar, seguros, rumo ao Evangelho Segundo Jesus Cristo. Começamos, com vagar e ternura, certos de que, depois dos autores de livros infantis, venham todos os outros autores, e com eles a pluralidade de perspectivas, o pensamento livre, o conhecimento crítico e verdadeiro, e, finalmente, as ferramentas da liberdade, da prosperidade e do desenvolvimento.
Pelo meio, naturalmente, e além de contos, crónicas, poemas e romances, aprendemos a ler problemas de matemática, manifestos políticos, ensaios de filosofia e, mais importante de tudo, cartas de amor.

o conhecimento

Terceiro Movimento: Sobre o Conhecimento
Entramos, agora, no domínio dos dois elementos que penso serem essenciais para levar a cabo uma boa actividade de mediação da leitura.
O primeiro elemento essencial é o conhecimento.
Devemos saber muito sobre livro que vamos trabalhar. Saber sobre o assunto, o conto, a história, os personagens, o tempo, os lugares; e, claro, essa eterna incógnita que é o autor; sem esquecer o livro em si, porque às vezes o livro tem histórias para contar que não só aquela que traz lá dentro.
Digo saber muito, não digo saber tudo, e não é por acaso. Saber muito sobre algo ou sobre muitas coisas é excelente. Saber tudo (ou pensar que se sabe tudo) é, na verdade, uma tragédia que impede a possibilidade de descoberta a que o poeta Diogo Alcoforado chama de ‘revelação’. A crença no ‘saber tudo’ mata a curiosidade do ‘saber mais’, e arruma no sótão a capacidade de encantamento a que a poetisa Sophia de Mello Breyner chamava de ‘espanto da luz’.
O melhor da humanidade (além das crianças, e sobretudo nas crianças) não é aquilo que se sabe, ou o conjunto do conhecimento reunido. O melhor da humanidade é a sua capacidade de aprender. E é com esta maravilha que nós, mediadores da leitura, somos chamados a trabalhar.
E o que é que aprendemos hoje? Que todos queremos secretamente ser astronautas, e que, quando citamos poetas e filósofos, tudo o que dizemos soa melhor. Mais inspirador. E é isso mesmo que estou a fazer. A tentar criar inspiração para saber mais.
Porque para podermos, com competência, levar os outros a aprender, temos de estar dispostos a aprender também. Temos de ser bons intérpretes para ensinarmos a interpretar.
Quando levamos um livro debaixo do braço para uma biblioteca, uma escola ou um banco de jardim onde vamos contar a sua história, esse livro tem de ser já um velho amigo, de lombada partida, esquinas gastas, páginas anotadas, costuras descosidas. 
Se entendemos um livro como um mundo, entendemo-nos a nós como os seus exploradores. Devemos percorrer as suas avenidas largas e, também, as ruas pouco iluminadas; escalar as montanhas e navegar os oceanos; devemos visitar todos os seus habitantes, saber dos sonhos que alimentam, dos sentimentos que escondem e dos feitos que pretendem levar a cabo; devemos perceber quais as escalas do tempo, as importâncias e as banalidades que por lá se perdem; o fio condutor da história de núcleo, que cresce no centro do livro como uma árvore sagrada, e, também, as narrativas paralelas que voam à sua volta como borboletas.
Devemos tomar notas, construir esquemas e desenhar mapas. Devemos ler muito e entender o mais possível, até àquele ponto de leitura de que falava Agostinho da Silva quando dizia “lerás bem quando leres o que não existe entre uma página e outra”.
Só atingindo nós, naquele livro que estamos a trabalhar, o ponto mais completo da leitura crítica, podemos preparar, em completude, o trabalho de mediação para os outros leitores, independentemente do nível de leitura em que se encontrem (pré-leitura, leitura inicial, leitura competente ou autónoma).
Depois de lido o livro ou contada a história, quanto mais subtil o trabalho de exploração, melhor. Sobretudo, nunca dar as respostas às grandes perguntas. Se o percurso de raciocínio mental for dos leitores, terá um valor incomparavelmente maior, porque a ideia ou conclusão a que se chega resulta de uma reflexão concentrada, passando a fazer parte da sua estrutura de pensamento de forma perene. É a ‘revelação’ que provoca o ‘espanto da luz’.
Se, pelo contrário, fizermos nós um solilóquio sobre o tema da história, ou, pior ainda, sobre ‘o que o autor queria dizer’ – que é uma daquelas coisas de que nunca podemos ter a mínima aproximação a uma resposta segura –,  é quase certo que, seja o que for que digamos, vai ser arrumado naquela parte do cérebro onde se encostam os conselhos para lavar os dentes e os pedidos para arrumar os brinquedos: um poço fundo com um ralo largo, que regularmente descarrega para que fique vazio e se possa brincar com o eco que por lá se faz.
E qual é a forma de evitarmos o poço e o ralo do esquecimento? Existem, com certeza, muitas. Diferentes livros pedem diferentes estratégias, da mesma maneira que diferentes públicos exigem diferentes posturas e abordagens.
Individualmente, a criação de um trabalho artístico que lhes permita pensar sobre o conto ou um pequeno detalhe, tentando compreender o trabalho e a escolha que o antecedeu. Ou convidá-los, em grupo, a encenar a história, obrigando-os a mergulhar mais fundo em todos os seus vectores. Ou conversar, simplesmente, com eles. Só assim, com o livro pousado por perto ou com a ajuda de objectos que ajudem à concretização das ideias.
O melhor modelo será sempre aquele com o qual os leitores e o mediador estiverem mais confortáveis, e aquele que conseguir criar uma dinâmica de ‘reflexão – pergunta – resposta – nova reflexão – nova pergunta – nova resposta…’ num formato em que o mediador conduz invisivelmente, entregando aos leitores o papel de reflectir, de formular a pergunta que a reflexão sugere, de procurar uma resposta que lhe há-de servir durante o tempo estritamente necessário a desenvolver uma nova reflexão e, logo a seguir, a colocar uma outra pergunta, melhor e maior.

o contágio

Quarto Movimento: Sobre o Contágio
Estou a chegar ao fim, e só falta tocar no ponto em que tudo volta ao momento de partida e ao título desta conferência que é, precisamente, o contágio.
Parto da premissa que as acções culturais se operam em dois domínios. O primeiro, oficial e institucional, que inclui a criação e o funcionamento das Redes de Leitura Pública e das Redes de Bibliotecas Escolares, o Plano Nacional de Leitura, as relações de Obras de Leitura Obrigatória e Recomendada, as directrizes da IFLA / Unesco, as políticas e projectos nacionais face à literacia, e por aí fora – isto é a acção por Decreto. O segundo domínio, informal e pessoal, inclui aquele momento de silêncio em que somos nós o veículo de transporte de uma história ou de um livro entre as estantes da biblioteca e a alma de alguém – isto é a acção por contágio.
Já lemos o livro várias vezes, já o estudámos e compreendemos bem. Conhecemos o que nos diz e o que nos esconde, as coisas que se revelam livremente e aquelas a que chegamos depois de as interpretarmos. Levamos preparada a sessão, as brincadeiras e o possível rumo das conversas. Estamos, finalmente, na frente dos nossos leitores e, agora, importa apenas uma coisa: criar entre nós, os ouvintes e o livro, um espírito de conforto, de encantamento, de entrega e de prazer. Uma memória categoricamente boa que se reproduzirá depois espontaneamente por outros espaços e tempos, outros livros e leituras. Os livros e as histórias precisam de ser inconscientemente associados a momentos de prazer. Fazemos isto cuidadosa, planeada e maquiavelicamente. Viciamos os leitores antes que eles tomem consciência do que está a acontecer e depois, será tarde demais.
Vive comigo uma frase da poetisa americana Maya Angelou que diz o seguinte: “as pessoas não se lembrarão de ti por aquilo que lhes dizes, recordar-te-ão apenas pela forma como as fazes sentir”.
É isto, no fundo, o contágio que queremos provocar. Usamos a nossa voz e a nossa postura para criar empatia e a entrega à história. E porque se nós formos genuínos no amor que colocamos na leitura, eles serão capazes de o sentir, usamos o amor que nós próprios temos aos livros e o entusiasmo que eles provocam em nós para contagiar os outros.
E usamos a ‘fé poética’. Aquele conceito mágico que gostava de ter sido eu a inventar, mas um senhor chamado Samuel Taylor Coleridge lembrou-se dele em 1817 e, portanto, muito antes de mim.
Falava ele numa espécie de pacto silencioso entre o livro e o leitor. Um pacto silencioso baseado na concepção de personagens, cenários e acções criando-lhes “uma empatia e uma semelhança com a verdade que permitam chegar a esse espaço de sombra entre a realidade e a imaginação, essa suspensão voluntária e momentânea da descrença que se constitui em fé poética”.
A fé poética resume à essência do encantamento aquele nosso momento de leitura e partilha e, por isso, serve perfeitamente para o definir.
É o reino da fantasia a fazer o caminho para chegar à verdade, à liberdade, à prosperidade e ao desenvolvimento. Esse mundo de encantamento é o nosso mundo real. O mundo em que vivemos um livro de cada vez. O mundo em que colocamos bem arrumada a semente de uma boa ideia, esperando que, um dia e longe da nossa vista, os nossos leitores possam assumir a missão de construir um mundo real melhor.
É só. Coisa Pouca.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

receita para construir um livro


entremaioesetembro.doismiledezasseis
fotografias | raquel patriarca | desarrumação | também

a verdadeira biblioteca ou uma história em três metades

















Quantos livros tem um livro 

Primeira Metade: Sobre Começar um Texto 

Quando eu era pequena, tinha muitos sonhos. Agora que sou maior, estou igual. Sonho com os pedaços do mundo que quero conhecer, os abraços que quero apertar, as imagens que quero criar, os livros que hei-de escrever. Estar aqui é um desses sonhos da idade adulta, arrumado na rubrica das coisas admiráveis de que é preciso fazer parte. Quando me imaginava aqui, começava sempre por agradecer às Correntes porque correm e por me levarem na correnteza. Agradecer o estar aqui agora e todas as vezes que estive aí e que, no fim do dia, regressei a casa maior. Não de tamanho, mas maior. Quando me imaginava aqui, depois de agradecer, fazia uma comunicação brilhante. Não me parecia muito difícil. Não sei porquê, nessa altura as ideias eram transparentes e ordenadas, as palavras respondiam à chamada sem atraso e sem engulho. Era preciso citar um autor de referência: Pessoa, Benjamin ou Borges; Camus, Barthes, ou Foucault. Falar de literatura e arte, de coisas verdadeiras e universais. Como se no mundo – ou em mim – não restassem dúvidas da minha sabedoria sobre todas as matérias.

Mas estas coisas só acontecem na minha imaginação. Sonho e nada mais. No momento em que chegou o convite, todo o dia me parecia feito de irrealidade. A cabeça ficou vazia e a página em branco. Afinal, é tudo muito difícil.

Sentei-me para escrever e não chegavam as frases que deviam iluminar-me as ideias. Fui à procura dos cadernos e das notas amarelas com os registos da genialidade alheia, e nada rimava com o tema ou a situação. Em ressonância longínqua das traseiras do cérebro, soava uma espécie de conselho que ouvi quando era pequena: “Sabendo muito do que falas, fala pouco. Sabendo pouco, fala quase nada. Sabendo nada, sorri”.

Segunda Metade: Sobre o Meu Avô

E assim, em vez de Benjiamin, Borges ou Barthes, veio ajudar-me uma espécie de aforismo de Joaquim Patriarca, mestre-escola, guarda-livros, organista na Igreja de S. Pedro, emigrante, retornado, avô. E a conselho dele, porque falamos de livros, vou falar pouco. 

Quando eu era pequena, fascinava-me a capacidade que o meu avô tinha para guardar objectos. Para ele nada existia que fosse imprestável. Mais cedo ou mais tarde, tudo ganhava serventia e, por isso, tudo se guardava em lugar próprio, rigorosamente ordenado. Esta filosofia, vim a percebê-lo mais tarde, levava-me a intuir que, até para mim – criatura algo estouvada, grande consumidora de mercurocromo, tantas vezes nas imediações de coisas indesejáveis como cacos ou nódoas –, até para mim, dizia eu, se guardava um lugar e uma função. E, enquanto não descobria o meu lugar e a minha função, fui absorvida no fascínio de como o meu avô se movia pelo mundo e da serenidade com que coleccionava todo o tipo de objectos.

As folhas soltas de papel e os fios de diferentes materiais, os tocos dos lápis que já mal serviam para escrever, as sementes que havia de pôr na terra, os pequenos pedaços de plástico que, mais tarde e com a ajuda de um canivete, transformava em mistérios de rezar, perfeitamente redondos e recortados: um buraco ao centro para o indicador, dez saliências em forma de pétala, uma para cada ave-maria, a cruz na décima primeira pétala, no lugar do pai-nosso.
Cada gesto do meu avô era feito com esmero e ternura. O vinco nas arestas dos embrulhos de correio e o nó direito que unia, em absoluta perpendicularidade, o cruzamento do cordão, a caligrafia pausada, aprumada, perfeita, a adivinhar que, naquele endereço, tinha de erguer-se um palácio. As canas enterradas na horta a estender fios de sisal que desenhavam uma espécie de guias, por onde se alinhavam os sulcos na terra, as sementes e as plantas.
Fascinavam-me as coisas que ele fazia mas, mais ainda, o vagar sereno que colocava em tudo. Uma alegria simples que enchia de plenitude os gestos mais comuns. Curiosamente desimportado do resultado final, o meu avô parecia absorver-se no encantamento – para nós invisível – de todas as tarefas a que se entregava, como se a função inteira da existência se guardasse naquele momento. Punha, de verdade, quanto era no mínimo que fazia, de maneira que despachar uma encomenda ou plantar morangueiros se transformavam em formas de arte.
Foi nesta altura, enquanto os meus avós se transformavam em memórias nucleares, que aprendi a relacionar-me com os livros. Eu não fui uma daquelas crianças adoráveis que, sentadamente sábias, amam os livros desde que se lembram de respirar. Gostava muito que me contassem histórias, como todas as crianças, mas adorava correr desenfreadamente pelas ruas íngremes que desciam da casa dos meus avós ao fundo da vila. Saltar muros e inventar barcos feitos de casca de árvore que depois fazia navegar nos ribeiros que desciam da serra pela primavera. Subir às tílias descalça, com um saco de pano para apanhar os raminhos de fazer chá, sair nos dias de feira, a cheirar os bolos de leite ainda quentes, e ajudar a avó a escolher os figos mais maduros e as colheres de pau mais redondas e fundas. Havia uma televisão, e não é que não gostasse de a ver, mas o aparelho era muito demorado de arrancar, apanhava a televisão espanhola e não havia desenhos animados, só programas de agricultura e notícias. Naquele tempo, a televisão era mais um entroncho que uma distracção a sério. E havia a escola, claro, e a catequese para onde eu ia sempre muito contente porque, no regresso, a minha avó me dava uma bolacha de chocolate. Era uma obra-prima em forma de estrela, vinha embrulhada em papel de prata colorido, começava a derreter-se mal me tocava nos dedos e inspirava-me um conforto interior que eu me habituei a confundir com o sentimento da fé.
Os livros trouxeram a calma e a profundidade que eu não me dava ao trabalho de procurar em nenhuma outra dimensão na vida a não ser, talvez, na minha família. 

Terceira Metade: Sobre os Livros 

Quando eu era pequena passava muito tempo em casa dos meus avós. Viviam por lá muitos livros, uma condição que eu entendia como decorrência natural de, num tempo antes de mim, o meu avô ter sido guarda-livros. Um guarda-livros era, evidentemente, uma espécie de bibliotecário com um título singelo. Naquele tempo e lugar, tudo era menos pretensioso, sobretudo os nomes das profissões. Foi o meu avô quem ensinou a minha avó a ler e eu, que assistia a toda aquela circunstância de meiguice, mais convencida ficava de que a sua função no mundo era a de guardador de livros. Na dimensão preservável do objecto, como fazia com todas as coisas, e na dimensão partilhável do conteúdo, que lia para si e para nós, ensinava a ler e ajudava a compreender.
Quando eu era pequena o meu avô ensinou-me a encadernar os livros e eu entendi que devia aprender a fazê-lo com a ternura e o esmero que ele trazia sempre nas mãos. Ele levava horas a reforçar as capas e a cobri-las com papéis de cores e texturas diferentes, impecavelmente vincados nas dobras, os títulos nas lombadas claramente desenhados naquela caligrafia brilhante e impossível de copiar. Eu aprendia a vincar as dobras com os dedos pequeninos e mal capazes. Queria muito imitar-lhe a arte mas, com a mesma naturalidade que os gestos do meu avô se inclinavam para a perfeição, os meus obedeciam a um desvio incontrolável para o desastre e, muitas vezes se rasgavam os papéis e se estragavam os títulos com erros de ortografia. O meu avô suspirava, sobrepunha a sua paciência à minha frustração, deitavam-se à lareira os papéis rasgados e os erros de ortografia, e a tarefa começava de novo. Desta vez, melhor.
O meu primeiro livro contava a história da fuga de uma tal Alice através do espelho. Foram precisas várias tentativas até o serviço ficar aceitável e foi maravilhoso ver o meu avô sorrir e dizer que sim com a cabeça enquanto examinava o meu primeiro projecto: um desconchavo de papel manteiga com as dobras quase tão espessas como o próprio livro. Foi um triunfo indizível. E, logo a seguir, chegou uma nova dificuldade.
No momento de colocar o livro na estante, havia um banco para eu subir e ficar da mesma altura do meu avô, e havia uma única regra de arrumação, muito simples que se baseava - em partes iguais – nos conceitos de ordem e de caos, um critério difícil de definir e que ordenava os títulos alfabeticamente segundo o destino geográfico do assunto.
O meu avô levou algum tempo a explicar-me que cada livro é como uma viagem e que cada viagem se faz rumo a um destino diferente. Eu não compreendi e ele foi buscar um volume grosso que trazia na lombada as palavras Crime e Castigo. Explicou que era um livro muito importante para conhecer os conceitos de bem e mal, certo e errado que vivem nas aspirações e atitudes de cada um. Uma viagem que se fazia rumo àquilo que uma pessoa deseja para si e ao percurso que está disposto a fazer para lá chegar. Como eu fiquei muito calada, a segurar nas mãos a minha Alice sem ideia de onde a guardar, o meu avô pegou num outro livro – 20.000 Léguas Submarinas – a aventura de uma viagem pelas profundezas do mar, ou então, uma viagem pelo engenho humano e pela vontade de ultrapassar o medo que é natural sentir-se em relação ao desconhecido.
Eu olhava para as minhas mãos.
Tens de descobrir onde te leva o teu livro, revelou por fim o meu avô.
E eu compreendi que precisava de o ler e, só passados muitos dias, voltei a subir ao banco resolutamente à procura da prateleira marcada com M de Maravilhas.
Fui compreendendo aos poucos o sistema de arrumação de livros que o meu avô praticava, garantindo-me sempre que era assim que se faziam as coisas nas verdadeiras bibliotecas. Acontecia por vezes termos de mudar os livros e as viagens de um lugar para outro. A cabana do Pai Tomás – muito muito bonito – teve morada no E de Escravatura, depois mudou-se para o A de Abolicionismo e acabou, mais tarde, por inaugurar uma nova secção no L para Livros que Salvaram o Mundo.
Quando eu era pequena aprendi com o meu avô a ternura de todas as coisas. Aprendi que é possível ser feliz em sossego. Que os livros devem ser lidos antes de arrumados, que cada livro propõe uma viagem e que cada leitura pode criar novos rumos a um caminho já percorrido. Aprendi a ser guardadora de livros.
Mais tarde, muito mais tarde, depois de graduada, pós-graduada e especializada, recebi um papel carimbado que me fez bibliotecária, que é só um nome diferente para uma prática muito antiga. Estudei catalogação e indexação, as listas ordenadas de termos e as tabelas de autoridade, os sistemas de triagem das espécies bibliográficas e os códigos alfanuméricos das cotas e descobri que, afinal, já não existem verdadeiras bibliotecas, como aquelas de que falava o meu avô. Descobri que nas bibliotecas onde hoje se guardam os livros não é possível compreender-se o mapa das viagens da humanidade. Da humanidade que escreve e da humanidade que lê.
Mas em casa, guardo uma verdadeira biblioteca, com estantes e prateleiras em que se faz um esforço genuíno de procura da verdade. Ainda lá está o volume mal encadernado da pequena Alice que agora repousa no I onde se alinham as viagens Interiores.
Foi com esse o livro que tudo começou. Quantos livros se guardam lá dentro? Suponho que terei de o ler outra vez. Por agora, não sei. E como não sei, devo apenas sorrir.


texto | raquel patriarca | fotografia | rui sousa 
vinteesete.fevereiro.doismiledezasseis

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

a vida não é só livros... há também as bibliotecas #5

2006: Minsk, Bielorrússia
Biblioteca Nacional da Bielorrússia



A Biblioteca Nacional da Bielorrússia foi fundada em 1922 dedicada, sobretudo, à guarda de documentos de autores bielorrussos. Foi, em tempos, a 3ª maior biblioteca da União Soviética, mantendo-se ainda como o mais importante polo de informação e cultura na Bielorrússia. A sua colecção inclui cerca de 8 milhões de documentos em vários formatos, que conta, desde 1993, com um fundo de documentação electrónica.
Conhecida não só pelos serviços que presta, a Biblioteca Nacional da Bielorrússia é uma das mais visitadas atracções turísticas em Minsk. Está instalada, desde 2006, num novo edifício nas margens do rio Svislochi. É uma estrutura com 72 m de altura e 22 andares, no topo dos quais existe um terraço de onde se vê toda a cidade. Oferece postos de trabalho para 2.000 leitores e uma sala de conferências com lotação de 500 lugares. A sua característica mais notável é ter a forma de um rombicuboctaedro, um sólido geométrico de Arquimédes que se obtém a partir da expansão do cubo e cuja mais antiga representação foi desenhada por Leonardo Da Vinci. 
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imagens aqui e aqui

segunda-feira, 9 de março de 2015

a vida não é só livros... há também as bibliotecas #4

1564: Veneza, Itália
Biblioteca Marciana



A Biblioteca Nacional de S. Marcos, também conhecida como Biblioteca Marciana, funciona num edifício renascentista da Praça de S. Marcos. Tem a fachada voltada para o Palácio do Doge. Os tectos foram decorados pelos grandes artistas  da época e a iluminação era feita por trinta e oito lanternas de pé alto, dispostas como mesas numa sala de aula, sobre uma das maiores e melhores colecções de textos clássicos do mundo.
A biblioteca colecção começou a ser reunida em 1468 com a oferta, feita pelo Cardeal Bessarion, de um acervo de duzentos e cinquenta manuscritos e setecentos e cinquenta códices. A construção do edifício em si teve início quase um século depois, em 1537 e foi inaugurado em 1564. Em 1603 foi promulgada uma lei que obrigava que uma cópia de cada livro impresso em Veneza fosse entregue nesta biblioteca, segundo o princípio que hoje conhecemos como depósito legal.
Hoje, a biblioteca de S. Marcos tem mais de um milhão de livros, mais de treze mil manuscritos, mais de dois mil e oitocentos incunábulos e mais de vinte e quatro mil obras datadas do século XVI.
[ ... Suspiro longo...] 

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 imagens daqui e daqui

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

a vida não é só livros... há também as bibliotecas #3

1990: La Gloria, Colômbia
Biblioburro
 


As bibliotecas são normalmente entendidas entre dois conceitos, o do espaço arquitectónico e o da colecção que nele se guarda. E depois, há um terceiro conceito de biblioteca, preso ao mundo do sonho e do saber que se guarda nos livros e que deve ser de todos. O Biblioburro entra nesse conceito. É uma biblioteca itinerante que distribui livros nas costas de dois burros, o Alfa e o Beto. O projecto nasceu na região de La Gloria, na Colômbia, e foi idealizado, desenvolvido e executado por um senhor maravilhoso chamado Luis Soriano.
Encantado pelos livros e pelas histórias desde muito pequeno, Luis formou-se em literatura espanhola à distância, com a ajuda de um professor que visitava, duas vezes por mês, a aldeia onde vivia. Já adulto e professor numa escola primária, decidiu levar os livros e as histórias que o tinham arrancado ao isolamento, a outras crianças isoladas.
Foi assim que nasceu, nos anos 90, o Biblioburro, com uma colecção de 70 livros, todos infantis. Hoje, Luis é acarinhado em toda a região e conhecido como El Professor. Leva contos e livros de aventuras, enciclopédias, novelas, livros de medicina e agricultura e até um dicionário de espanhol da Real Academia Espanhola. A sua chegada é uma festa e demora-se sempre a ler histórias. Consta que de vez em quando é assaltado por guerrilheiros quando atravessa as montanhas e, como não tem mais nada de valor, levam-lhe novelas românticas e romances de aventuras.
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imagens daqui e daqui
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