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terça-feira, 20 de maio de 2014

leituras e outras conversas: Quero o Meu Chapéu

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Então, fomos no outro dia às compras e trouxemos para casa um dos objectos literários mais bem esgalhados de sempre! 

Chama-se Quero o Meu Chapéu e conta a história de um urso a quem desapareceu um lindo chapéu, vermelho e pontiagudo, que ele tenta encontrar junto dos outros animais da floresta.

Os diálogos falam com as imagens e as figuras ilustram as conversas de uma forma primorosamente bem coordenada, de onde é forçoso realçar o uso magistral das cores que são pouquíssimas e se movem entre os tons de cinzas e de castanhos e o vermelho.

Tudo resulta em trinta e quatro páginas muito bem conseguidas de puro prazer, e uma história para todas as idades que conjuga ternura, suspense e surpresa.
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E depois o Pedrito perguntou:
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Mãe, por acaso não viste o meu livro?
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Não. Porque é que perguntas?
Eu não o vi.
Não vi livros em lado nenhum.
Eu nunca te roubaria um livro.
Não me perguntes mais nada.
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OK. Obrigado pela atenção.
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Bibliografia:
Quero o Meu Chapéu
texto e ilustraçãoJon Klassen | tradução Rui Lopes
Lisboa: Orfeu Negro, 
2014.
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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

leituras e outras conversas: Irmão Lobo



Acabei de ler o livro Irmão Lobo há, pelo menos três meses. Tem estado, desde então, sossegadamente pousado na minha mesa-de-cabeceira. Em parte porque me estava a custar deixá-lo sair para o arrumar numa estante, onde ficaria sempre um pouco mais longe. Em parte porque queria escrever sobre ele e não sabia como.

O livro é muito muito bom. A história que conta prende-nos a atenção e chocalha-nos a consciência. E a forma como é contada carrega um equilíbrio admirável entre aquilo que são as confusões e o ensimesmamento próprios da juventude e a ausência de paternalismo e discurso pedagógico.

Como leitora e parte de uma faixa etária umas décadas à frente, este livro não me é destinado. Ainda assim, acabei por construir uma grande empatia com uma cachopa que é atirada para situações que não controla nem compreende, ou talvez compreenda mas não consegue assimilar completamente, que sofre desilusões e perdas que não sabe como sarar, ao mesmo tempo que se prende à crença de que um dia, crescendo, as coisas possam vir a fazer sentido.

Independentemente das décadas à frente, sinto-me, muitas vezes (muitas muitas vezes) atirada para imbróglios que não controlo nem compreendo, ou talvez compreenda mas não sei gerir. E pergunto, frequentemente, se as coisas alguma vez chegarão a fazer sentido.

Por agora Irmão Lobo continuará a morar na mesa-de-cabeceira. Um dia, eu crescendo, se verá. 
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Bibliografia:
Irmão Lobo 
texto de Carla Maia de Almeida | ilustração de António Jorge Gonçalves.
Carcavelos: Planeta Tangerina, 
2013.

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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

da subtileza

acabo de ler um conto de fadas em que uma menina – tão completamente boazinha que os passarinhos lhe cantam à volta da cabeça, e tão linda que as estrelas do céu lhe brilham nos olhos, e tão prendada que o povo miserável agradece por passar fome, e tão humilde que fica trancada numa torre durante catorze anos… e é que tinham de ser catorze

acabo de ler um conto de fadas em que uma menina que se chama florina, anda à turra e à massa durante oitenta e oito páginas com uma outra menina, sua meia irmã – tão viciosamente má que o diabo tem medo de lhe atravessar o caminho, e tão feia que ninguém consegue olhar para ela, e tão malcheirosa que as plantas e os animais tombam à sua passagem, e tão traiçoeira que mente com quantos dentes tem (e tem poucos) de maneira a fazer trancar a irmã numa torre durante catorze anos… e é que tinham de ser catorze

acabo de ler um conto de fadas em que uma menina linda e boa que se chama florina, anda à turra e à massa durante oitenta e oito páginas com uma outra menina, sua meia irmã, feia e má que se chama trutona. e tudo porque ambas se perdem de amores por um charmoso cavaleiro chamado príncipe galante.

pergunto: o que (raio) é feito da subtileza e do carácter simbólico das antigas histórias para as crianças? hum? pois...

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este texto foi inspirado pela leitura de a ave azul da autoria da baronesa d’aulnoy publicado pela primeira vez na obra les contes des fées em mil seiscentos e noventa e seis, traduzido para português por josé teixeira rêgo para o livro contos de madame d’aulnoy da biblioteca infantil e popular editada pela renascença portuguesa em mil novecentos e catorze...
e é que tinham de ser catorze

r.
vinteequatro.setembro.doismiledez
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sexta-feira, 10 de outubro de 2008

acerca do mar: diálogo entre luís miguel nava e cesare pavese

o mar é profundamente azul e profundamente poético. o azeite não é naturalmente poético mas pode ser, pelo menos, estético. na sua capacidade de criação, na alquimia mágica da transformação de bagas em tempero, na arte ancestral que se faz com carinho e esmero. e se o azeite não é o alvo preferencial do lírico rabisco, devemos lembrar que é, ainda assim, um petisco. as sensações que inspira de gula, de prazer, de acabamento perfeito, invocam as pequenas subtilezas de que o ser humano é feito. o mar de cesare pavese é terreno, concreto, identificável, real… é um mar observado sob uma visão diagonal, mas é fruto tanto da natureza como do engenho humano, e tudo isto encerrado na imagem do oceano. o mar de luís miguel nava, pelo contrário, é um mar não terreal… é irreal e imaginário; é de outra esfera, de outro enquadramento, é – por assim dizer – visto com outros olhos, com outro sentimento. é insondável, intangível. mais profundo, mais azul talvez. faz ponte entre o céu e a terra e de volta ao céu outra vez. é absoluto e brutal. não tem uma gota de humano, é sobrenatural. é o abismo para onde olhamos um dia. é o sublime que nos transforma em ninharia. perante ele nada se pode, a terra treme e o céu explode. no seu lugar um relâmpago… não um sorriso, ou um beijo, ou mesmo um poema. nada que venha do homem, nenhuma teoria, nenhum teorema. de alquimista e artesão a insignificante poeira do chão. esta foi a viagem que aqui fez o homem, com as dúvidas, os desejos e as paixões que o consomem. esta foi a relação que eu consegui encontrar, em dois pequenos poemas que afinal não falam do mar.
b. b. booker
dez.outubro.doismileoito