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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

poema para uma tília



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Quero escrever um poema para

uma tília que conheci quando era

pequena.

Já se não podem escrever poemas às magnólias que são

magníficos relâmpagos

ou aos rododendros que são –

todos –

mais-que-perfeitos

(e eu, pequena, nem sabia o que era uma magnólia

nem conseguia dizer ro-do-den-dro).

 .

Eu brincava com a alegria de quem

tem pouco juízo e sabe, menos ainda,

das coisas da vida.

Às vezes descalça, mas sempre

de chapéu e sorriso, à beira dela, assim pequena e roliça

(eu, porque ela era imensa imensa, de segurar o céu nas pontas dos ramos).

Ela, com as flores muito brancas

em redonda cabeleira de mulher velhinha e sábia,

gastava-se de tempo comigo e

brincávamos no silêncio das tardes sem fim,

num quintal estreito com alfazemas no jardim.

 .

Ela, muito sossegadamente doce e cheirosa,

deixava-me subir e ficar sentada,

as pernas penduradas a abanar,

mais alta que as casas e que torre da igreja,

no lugar dos sonhos e dos contos de encantar.

E eu fazia de conta que

chegava a um outro país,

de gigantes e anões e animais pensantes e faladores,

com tesouros floridos de magia e segredo,

onde enchia saquinhos de pano com

o cheiro das folhas e a brancura das flores,

que trazia, como curas de milagre, que

se guardassem em frascos com mola na tampa

e etiquetas de papel e letras desenhadas.

.

Ela prometia bem-fazer aos resfriados,

assim fervente  em malgas grandes de louça pintada,

enquanto aquecia os meus dedos gorduchos

e as mãos pequeninas e muito brancas

da minha avó, nas manhãs dos invernos frios,

que na serra da minha infância, os invernos

eram sempre mais brancos e mais frios.

 .

Éramos muito amigas, a tília, a minha avó e eu,

mansamente abrigadas no quintal estreito

onde crescia a tília

onde eu era pequena e roliça e de onde via o mundo,

assim, sentadamente feliz e desimportada de tudo.

 .

Quero escrever um poema para

uma tília que me cresce na memória,

imensa imensa

na largueza do abraço e na altura do horizonte,

o poiso magnífico e mais-que-perfeito

das criaturas do céu e das cores da serra,

com cheiro de carinho e de inverno

entre a curva do pescoço e os cabelos de mulher velhinha,

que são flores brancas de ramos mais altos em cada dia,

cabidas em mãos pequeninas onde eu cabia.

 .

Agradeço à árvore de abrigo

onde sonhava crescer e ser grande e escrever e pintar,

e para onde, agora grande, posso sempre voltar,

carregada de outros sonhos e de outros invernos,

descalça ainda, mas quente e sossegada e nunca só,

como se abraçada na folhagem do colo de uma avó.
raquel patriarca | um.novembro.doismiletreze
.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

once upon another age

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"por mais que se olhe só se vê a fralda"
e quem diz mal das fraldas descartáveis nunca sentiu a angústia de querer andar e não poder
varanda das tias – rua sá da bandeira – manteigas – serra da estrela
data e autoria da foto: ?
modelo: young raquel patriarca
legenda: older and wiser raquel patriarca
.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

evolucionismo e/ou criacionismo

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mamã - começou ele com aquele ar sereno de quem não quer a coisa que ele usa costumeiramente - quem foi o primeiro homem?
foi o australantropos - disse eu com um ar muito seguro e satisfeito por ter merecido a inacreditável bênção de, desta vez, saber a resposta.
então e antes? continuou ele com aquela pertinácia que me faz tremer o chão debaixo dos pés.
antes não é que houvesse bem homens homens. havia outras espécies que se julga que serão um tipo de parentes afastados ou coisa parecida. havia os primatas, mas os primatas ainda existem hoje, mas não são os mesmos, estás a ver? são outros, diferentes, mais evoluídos. percebes?
já nem eu percebia e começou a parecer-me que um chimpanzé não se embrulharia tanto. julgo que ele deu conta porque foi muito paciente no momento em que decidiu reformular a pergunta. quando voltou a falar olhou para mim muito de frente a sublinhou pausada e claramente cada uma das palavras.
o que eu quero saber, mamã, é quem é que existia antes de tudo. quem é que fez tudo. percebes?
foi então que dei conta que eram horas de ir tomar banho.
.
r.p.
dez.dezembro.doismiledez
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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

diálogo

e eu disse: então é assim? teimas em não lavar os dentes? pois ficas a saber que te vou castigar. porquê, perguntou ele muito calmo. porque me desobedeceste, era eu a constatar o óbvio. voz serena e o rosto firme. desobedecer à mãe é a pior coisa que alguém pode fazer na vida, continuei num daqueles entusiasmos naturais das pessoas que, como eu, são dadas ao exagero. ele parou a meio do corredor e voltou-se, sério. solene, suportei os cinco segundos de silêncio daquele momento de revelação essencial na descoberta de um quadro de valores e referências, futuros alicerces estruturais do carácter do meu filho.
olha mãe, a voz dele era mais funda e solene que a minha, usar peúgas com sandálias é muito pior.

voltei para a cozinha.
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________
_____________.
diálogo de peúgas
numa manhã entre vinte e quatro de agosto e trinta de setembro de dois mil e dez
raquel - mãe, trinta e seis anos
pedro - filho, seis anos
r.
oito.setembro.doismiledez

quarta-feira, 14 de julho de 2010

o dia em que conheci o medo

antes
de conhecer
o medo
o mundo era leve
mais colorido
as terras habitadas
por barões aventureiros
índios e fadas
príncipes garbosos
criaturas fantásticas
e animais maravilhosos

qualquer sombra
ou inquietude
era – nesse tempo –
como um segredo
desconhecido
distante

até ao dia
em que conheci
o medo
descobri a tremura
nas pernas
a semente dos pesadelos
enquanto tentava não ver
o castanho das unhas
a rudeza das mãos cheias de pêlos

contava-se que numa ocasião
não muito longe
de então
dera uma tapona a um menino
de jeitos
a rebentar-lhe os lábios
e ainda que
estas coisas se contassem
em surdina –
respeitosa e sussurrada –
era forçoso ter fé em
tais histórias
velhas ou novas
conforme os detalhes
as imaginações e as memórias

no dia
em que conheci
o medo
descobri o descontrolo
das ideias
a incapacidade de falar
enquanto me sentia perder
no negrume profundo
na ameaça constante daquele olhar

espremesse alguém –
para um caldeirão –
um general sedento de sangue
um feiticeiro de coração mirrado
e um dragão venenoso e feroz
ainda assim
não ficaria nem metade
da malícia mal ardida
que ali respirava
em cada indício de gesto
em cada dobra da voz

no dia
em que conheci
o medo
descobri a insónia
da espera pela maldade
que pode existir em corpo de gente
a revolta da humilhação
pequenez e o pânico
que se vive envergonhadamente

por mais que tentasse
não concebia
qualquer espécie de
razão –
má ou boa –
para que uma dúzia de crianças
estivesse entregue
àquela lenda do terror
àquele estropício de pessoa

e não tinha
nem tenho ainda
ideia de nada que nos ensinasse
a não ser a certeza –
firme e fria –
que não há terras encantadas
que a bondade não é gratuita
que não existem fadas
nem anjos
nem magia

o dia
em que conheci
o medo
– que revivo ainda
em sonhos e acordada –
foi seguido de muitos outros
dias em que
na fila do fundo
olhos fixos na tijoleira do chão
me encolhia em silêncio
a ver se escapava
da natureza violenta mal explicada
e do discurso condescendente
e acusador –
a tentar ser moralista –
da dona lurdinhas
a senhora catequista

raquel patriarca
oito.julho.doismiledez

estrelas, planetas, plutóides e outras esferas do espaço - história redonda e achatada nos pólos... capítulo quatro

E há muitos planetas, Plutão?
– Imensos! Há muitos que os cientistas conhecem e ainda muitos mais por conhecer. À volta do nosso Sol agora há oito planetas – Disse Plutão enquanto apontava para todas as esferas por onde o menino tinha passado. - A mim também já me chamaram planeta mas parece que sou demasiado pequeno e ganhei um novo nome.
– E tu não ficas triste? De não seres planeta como os outros? – Quis saber o menino preocupado.
Plutão atirou-se para trás e deu uma grande gargalhada.
– Não, querido! Não fico nada triste. – Sorriu para o menino com toda a doçura. Sabes, quando os cientistas descobriram que eu existia, eu já aqui estava há muito, muito tempo. Um tempo que só mesmo as estrelas conseguem lembrar. E vou ficar aqui muito, muito mais tempo. Mais cientistas hão-de vir com outras palavras engraçadas e nomes maravilhosos para nos dar a todos, e nós continuamos aqui, a dançar no espaço e a dar inspiração e grandeza aos sonhos dos cientistas meninos.
– E gostas do nome que te deram agora? Gostas de ser plutóide? – Perguntou o menino.
Plutão sorriu e abanou-se todo a dizer que sim.
– Oh sim! Estou muito contente. Já é magnífico quando nos dão um nome bonito. Mas quando inventam uma palavra nova só para nós, é muito mais especialíssimo! – Explicou Plutão muito entusiasmado. – Além disso ‘plutóide’ é uma classe muito mais fixe que planeta. E planetas há muitos.
– Ainda bem que estás contente! – Disse o menino mais aliviado. – Estava preocupado.
Plutão piscou o olho e continuou com a sua voz serena.
– Não precisas de te preocupar. Se pensares bem, nada mudou. Eu sou exactamente igual. Gosto deste cantinho do universo, mesmo frio e escuro. Penso que tenho tamanho, peso e massa em quantidades ideais. De vez em quando fico todo coberto de gelo e nessas alturas tenho muita pinta. Adoro os meus amigos. De longe a longe o Neptuno vem visitar-me para falarmos um bocadito sobre as magias do espaço.
– Eu também gosto muito de ti. – Confessou o menino. – Assim como és. – Acrescentou.
– Obrigado! – Respondeu Plutão um bocadinho corado. – Agora diz-me cá: o que raio é uma televisão?
O menino sorriu, sentiu-se muito importante por estar a ensinar coisas a um astro antigo e sábio, da idade do próprio tempo. Explicou tudo muito bem, com gestos e tudo, e respondeu a uma montanha de perguntas interessantes.
O menino esteve muito tempo à conversa com Plutão e os seus amigos. Depois despediu-se, prometeu fazer nova visita em breve e regressou ao planeta Terra.
O pai ainda estava a acabar de lanchar e o menino aproveitou para comer mais um pedaço de maçã e um bocadito de queijo, enquanto os dois acabavam de ouvir as notícias na televisão. Quando acabaram o pai perguntou:
– O que achas disto, filhote? Bestial não é? Uma nova classe de planetas!
– Sim, papá. Gosto especialmente da palavra ‘plutóide’… É muito engraçada. – Respondeu o menino. – Mas o Plutão de ontem é igual ao de hoje não é? No fundo não mudou nada, pois não?
– Pois não, filho! Tens razão. – Disse o pai. – Não era maravilhoso se pudéssemos viajar no espaço e visitar os planetas? – Perguntou ao mesmo tempo que pegava no filho ao colo para o pôr no chão.
– Sim, papá. Era maravilhoso! – Disse o menino enquanto respondia ao abraço do pai. – Era mesmo muito mais especialíssimo!

– fim –

raquel patriarca

três.março.doismilenove

terça-feira, 1 de junho de 2010

dia mundial da criança ou fotocionário IV


criança: s. f. – deriva de cria e de criação. menino ou menina no período da infância. pessoa estouvada, sem juízo e sem preocupações. pessoa pequenina que não devia ser possível que sofresse. entidade física de perfeição absoluta. alma de genuína bondade, inabalável resistência e imbatível alegria. criatura feliz a quem o mundo ainda não arrancou os sonhos e as ilusões de beleza e justiça; que acredita na possibilidade da mudança e na promessa do futuro. aquele que dorme.
raquel patriarca
um.junho.doismiledez

segunda-feira, 17 de maio de 2010

estrelas, planetas, plutóides e outras esferas do espaço - história redonda e achatada nos pólos... capítulo três

Finalmente, lá estava ele! Plutão olhou para o menino e sorriu muito satisfeito como se estivesse à espera da sua visita. Era uma esfera mais pequena. Ao lado das outras quase parecia um berlinde. Mas não um berlindinho pequenino. Vá lá… um abafador. Tinha um ar sábio e sereno, como as pessoas velhas que o menino conhecia. Como os avós.
– Olá! – Disse o menino meio a medo.
– Olá! – Respondeu o berlinde de nome Plutão, com a sua voz funda e cheia de força.
– Eu sou um menino e venho daquela esfera azul e bonita além ao fundo, quase a chegar ao Sol. Chama-se Terra. – Explicou o menino enquanto apontava. – Hoje ouvi falar muito em ti. Depois comecei a pensar, a pensar… e aqui estou eu!
– Fizeste bem em vir-nos visitar. – Respondeu Plutão – Estes são os meus amigos Caron, Nix e Hidra – disse Plutão enquanto apontava para três outros berlindes que giravam alegremente à sua volta.
O menino sorriu e acenou-lhes com a cabeça.
– Havia uns senhores na televisão e disseram que tu agora já não és um planeta. – Começou o menino a contar – Na verdade não sei bem o que é um planeta…
– Isso é óptimo, porque eu não faço ideia do que seja uma televisão! – Respondeu Plutão bem-disposto. Cruzou os olhos na brincadeira e pôs todos a rir. – Os senhores de que falas – continuou – chamam-se astrónomos e são cientistas. Eu gosto muito deles porque quando eram pequeninos vinham cá visitar-me muitas vezes, e agora que são grandes continuam a ter a cabeça e o coração nas estrelas.
– A sério? – Perguntou o menino maravilhado.
– Sim, claro! Passavam aqui muito tempo connosco. Como é que tu achas que eles aprendem tantas coisas interessantes sobre o espaço, as estrelas, os planetas…?
– Estou a ver. – Disse o menino. – Mas o que é um planeta, afinal?
– Planeta é o que os nossos amigos cientistas chamam a todas estas esferas grandes de rocha que giram no espaço à roda de uma estrela gigante. – Explicou Plutão apontando o Sol lá ao fundo e todos os astros à sua volta.
– Ah! – Exclamou o menino. – E são só as estrelas gigantes que têm planetas? – Perguntou.
– Oh sim! Para ter planetas uma estrela tem de ser muito grande e ter muita força.
– Como os meninos? Que têm de comer tudo para serem grandes e fortes? – Perguntou o menino.
– Exactamente! – Disse Plutão enquanto os seus três amiguinhos diziam que sim com um ar muito entendido. – Só que a força das estrelas chama-se gravidade, e faz com que os planetas se aproximem e fiquem a girar à sua volta. Diz-se que ficam em órbita. A gravitar.

raquel patriarca
três.março.doismilenove

segunda-feira, 19 de abril de 2010

estrelas, planetas, plutóides e outras esferas do espaço - história redonda e achatada nos pólos... capítulo dois

Olhou em redor e ficou maravilhado! O Sol, magnífico e luminoso, espreguiçava salpicos de fogo em todas as direcções. O menino sentiu-se quentinho por dentro e deixou-se ali ficar. À volta do Sol saltitava e saracoteava um pequeno astro a quem chamam Mercúrio, que é nome de remédio para pôr em joelhos esfolados. O menino percebeu logo a razão daquele nome: a pequena esfera saltava tanto e tão depressa que de certeza, de vez em quando, caía e se magoava.
Um bocadinho mais atrás, muito serena e elegante, flutuava a esfera de nome Vénus. Era muito bonita. Tinha uns olhos doces e profundos com pestanas longas e umas bochechas pequeninas e coradas. Sorriu timidamente ao menino e ele sentiu um esquisito calor na cara… devia ser do Sol. Disse-lhe adeus com a mãozita, virou as costas ao Sol e seguiu caminho.
O menino viajava pelo espaço como se estivesse a dançar suspenso no vazio. Ora andava muito descontraído como se passeasse no parque, ora se deitava de barriga para cima e batia os braços e os pés como se estivesse a nadar na praia. E às vezes, só para brincar, fazia de conta que pedalava na sua bicicleta.
Passado algum tempo encontrou uma esfera enorme, entre o vermelho e a cor do fogo, que tinha um ar muito simpático mas um bocadinho nervoso, e estava sempre a piscar os olhos e a fazer as caras mais cómicas que o menino já tinha visto.
– Olá! – Disse o menino – És tu aquele a quem chamam Plutão?
– Olá! – Respondeu a esfera – Eu chamo-me Marte. O Plutão é o último de todos, lá ao fundo onde está frio e escuro. Eu levava-te lá mas não me posso desviar do meu caminho... Já assim se diz por aí que sou um excêntrico! Achas que consegues ir sozinho? – Claro que sim! – Disse o menino. – Muito brigado. – Acrescentou enquanto dizia adeus a Marte que lhe sorria sempre a piscar os olhos.
O menino continuou a sua viagem e encontrou mais esferas. Júpiter era tão grande, mas tão grande que o menino nem conseguiu ver-lhe toda a cara. Viu só um olho risonho e uma bochecha gorducha. Estava muito entretido a cantar para si próprio enquanto orbitava e o menino não o quis interromper. A esfera chamada Saturno ria à gargalhada tão alto que fazia tremer as suas nove luas e tremeluzir as estrelas que estavam por ali perto. O menino percebeu depois que ela tinha uma multidão de pedras, pedrinhas e pedregulhos a girar à sua volta que lhe faziam muitas cócegas.
Um bocadinho mais à frente viviam mais duas esferas, Neptuno e Urano, um pouco mais pequenas, redondas e perfeitas, como dois lindos olhos azuis, que espreitavam do meio do escuro e, com carinho, lhe indicavam o caminho para Plutão.

raquel patriarca
três.março.doismilenove

sexta-feira, 2 de abril de 2010

estrelas, planetas, plutóides e outras esferas do espaço - história redonda e achatada nos pólos... capítulo um

Era uma vez um menino. Um menino em tudo igual aos outros meninos da sua idade. Era diferente apenas numa coisa, só sua e muito especial. Este menino estava sempre atento a tudo, adorava fazer perguntas e pensava, pensava muito; nas coisas sérias e nas brincadeiras, nos acontecimentos importantes e nos pormenores pequeninos, em tudo e em nada.
Um dia, ouviu um senhor muito bem engravatado na televisão a dizer que Plutão, o nono planeta, tinha deixado de o ser. A partir de agora fazia parte da classe dos Plutóides. E aquilo devia ser um assunto sério porque vieram muitos senhores falar sobre a mesma coisa e todos usavam óculos. Até o pai tinha ficado muito calado e quieto a ouvir a notícia, enquanto o menino esperava que ele lhe descascasse o resto da maçã.
Não era todos os dias que se falava tanto de planetas e estrelas à hora do lanche, e o menino tentava perceber o que se dizia na notícia, mas não era nada fácil porque os senhores na televisão têm muita dificuldade em falar como gente normal.
Assim que acabou de comer a maçã, o menino saltou de cima do seu banquito e caiu, caiu, caiu... Passou as nuvens e ficou com imensos pedacitos de algodão de chuva nos cabelos. Depois tudo foi ficando escuro à sua volta, como se entrasse devagarinho numa noite cheia de estrelas muito brilhantes.


raquel patriarca
três.março.doismilenove

nota: hoje comemora-se o dia mundial do livro infantil e faz anos que nasceu o senhor Hans Christian Andersen (1805-1875) que, por coincidência, escreveu muitos livros para crianças!
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domingo, 21 de março de 2010

um poema épico para um herói


era uma vez
um menino chamado afonso
que foi o mais bravo guerreiro
de todos os contos e histórias de encantar,
um herói tão especial
que lhe escreveram poemas épicos
daqueles que se cantam nas noites de luar;
inspirou as verdadeiras lendas
e ergueram-lhe estátuas de bronze
onde as donzelas e princesas
vinham deixar flores e outras prendas.
.
o seu nome ganhou um significado novo:
afonso passou a querer dizer
aquele que está pronto para combater
e todos, fidalgos cavaleiros ou homens do povo,
que o viram ou conheceram a sua história
testemunharam a sua coragem
e guardaram-na, como a um tesouro,
nos cantinhos luminosos da alma
e nos corredores empoeirados da memória.
.
ainda hoje, acreditem em mim,
afonso é um nome sonante
de homem sábio, forte e importante
(tivemos muitos reis a quem chamaram assim).
tudo porque um menino com olhos de mel
combateu dragões, gigantes e moinhos
e até inimigos que nunca viu,
armado apenas com esperanças e carinhos
e montado no cavalo colorido de um carrossel.
.
– – – –
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era uma vez
um menino chamado afonso
que tinha olhos profundos e doces,
com a vida para viver
e gargalhadas para dobrar.
queria ir à escola
e jogar à bola
e brincar.
.
era uma vez um menino
que em vez de ser só um menino
escolheu, muito cedo,
ser um exemplo a seguir:
porque ser um herói,
é ter medo
e sorrir.
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dedicado ao afonso, no dia mundial da poesia. com carinho e um respeito infinito.
..
raquel patriarca
vinteeum.março.doismiledez
________________________________________________________
. 
o afonso é um menino de seis anos. 
está a lutar pela vida contra e uma leucemia rara e muito agressiva.
precisa da nossa ajuda.

eu já estou registada como dadora de medula óssea.
vem juntar-te a este 'exército'.

o alistamento faz-se num dos centros de recruta e basta prestar voto de fidelidade e fazer um juramento de sangue, o que implica assinar um papel e fazer uma - muito pequena - recolha de sangue para análise.

e depois é possível que salvemos a vida a uma criança...

para mais lendas e poemas sobre o afonso, clicar aqui.

sexta-feira, 19 de março de 2010

perguntas incisivas sobre a origem da vida

– ó mãe – disse ele, a voz cheia de angústia e a boca cheia de sangue – porque é que temos que mudar de dentes? eu não me sinto preparado para isto…
limpei-lhe as lágrimas dos olhos e o sangue dos lábios. – não chores, querido. tudo isto é normal. – a voz doce e a conversa tranquila chegavam-me de longe, numa espécie de ligação sem fios ao poder mágico que têm as mães de fazer passar dores e tristezas. – estás a crescer e vão nascer dentitos novos…
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.– eu já sei essas coisas todas e não é disso que eu estou a falar. – o olhar dele mudou de um desamparo suplicante para uma determinação exigente. a condescendência e a presunção morreram-me nos lábios enquanto me senti a corar. por momentos acreditei que me fosse mandar à fava mas ele continuou.
– quem é que nos deu a vida e quem é que fez o mundo? – interrompeu-se-me a magia num instante. pareceu que me ficava o discurso a arranhar a garganta e a saber ao que saberia a estática, se a estática fosse um sabor em vez de ser um som ou uma corrente eléctrica sem definição ou substância. – as árvores e o mar e as coisas, – as palavras saiam-lhe em atropelos indignados – porque é que quem fez tantas coisas nos fez de maneira a termos de mudar de dentes? – rebolou-lhe outra lágrima gorda que eu segui até lhe pingar do queixo. – isto dói, mamã!
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na palma da mão aberta estava um incisivo do tamanho de uma pedrinha de sal. assim estendido como um inacreditável destroço de vida, a prova acabada da falta de sentido e coerência nas coisas do mundo, a consciência clara da miserável pequenez que marca a condição humana.
abracei-o muito e não fui capaz de lhe dizer mais nada. pensei só que, se calhar, não me sinto preparada para isto…
raquel patriarca
dezanove.março.doismiledez

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

miolo de pão

.
lembro-me às vezes
– sem quando nem porquê –
do sabor que tinha
o miolo do pão do dia anterior.
mas não sei se era
o pão ou o dia
que tinha
aquele sabor.

e nós as duas
sentadas,
na mesa da cozinha
à janela
de pernas cruzadas,
de pijama e pantufas
remelas nos olhos
cabeças despenteadas.

jogávamos a adivinhar
a cor dos carros
que haviam de passar.
um carro branco, um carro azul
e outro vermelho
– amassado e sem pára-choques –
muito velho,
e uma carrinha preta
logo a seguir.
afinal era uma lambreta
com imensa tralha mal atada atrás
quase quase a cair.
ah pois!
de vez em quando,
uma carroça de bois.

tu acertavas tudo
e eu…
quase nada.
pergunto-me hoje
se fazias tu batota
ou estava eu muito ensonada.
não importa, pois não?
se ainda trago comigo
o sabor do miolo de pão.

eram o mundo inteiro:
uma mesa e uma janela.
e eu acreditava na magia
que passava na estrada,
disfarçada de furgoneta amarela.

lembro-me às vezes
– sem quando nem porquê –
do sabor dessas manhãs,
em que não éramos
ainda nada
nem ninguém.
apenas irmãs.


à minha irmã
raquel patriarca
vinteeseis.agosto.doismilenove