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quarta-feira, 30 de maio de 2012

história de encantar na papillon

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no sábado, dia 2 de junho, entre as 11.00h e as 13.00h, na Papillon Vagabond vamos costurar um fato novo para o rei.
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a partir da versão escrita por Xosé Ballesteros e ilustrada por João Caetano de um conto clássico de Hans Christian Andersen "O fato novo do Rei" vamos contar histórias, brincar e celebrar o Dia Mundial da Criança.
Fica o convite para se juntarem a nós.
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organização: Maria José Santos
apoios: Papillon Vagabond | Kalandraka Portugal
leitura: e brincadeira Raquel Patriarca
.Papillon Vagabond - Avenida Boavista 3523, Loja 9, Porto, Portugal 4100-139
mais informação em: Papillon Vagabond | Kalandraka Portugal | Evento
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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

da subtileza

acabo de ler um conto de fadas em que uma menina – tão completamente boazinha que os passarinhos lhe cantam à volta da cabeça, e tão linda que as estrelas do céu lhe brilham nos olhos, e tão prendada que o povo miserável agradece por passar fome, e tão humilde que fica trancada numa torre durante catorze anos… e é que tinham de ser catorze

acabo de ler um conto de fadas em que uma menina que se chama florina, anda à turra e à massa durante oitenta e oito páginas com uma outra menina, sua meia irmã – tão viciosamente má que o diabo tem medo de lhe atravessar o caminho, e tão feia que ninguém consegue olhar para ela, e tão malcheirosa que as plantas e os animais tombam à sua passagem, e tão traiçoeira que mente com quantos dentes tem (e tem poucos) de maneira a fazer trancar a irmã numa torre durante catorze anos… e é que tinham de ser catorze

acabo de ler um conto de fadas em que uma menina linda e boa que se chama florina, anda à turra e à massa durante oitenta e oito páginas com uma outra menina, sua meia irmã, feia e má que se chama trutona. e tudo porque ambas se perdem de amores por um charmoso cavaleiro chamado príncipe galante.

pergunto: o que (raio) é feito da subtileza e do carácter simbólico das antigas histórias para as crianças? hum? pois...

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este texto foi inspirado pela leitura de a ave azul da autoria da baronesa d’aulnoy publicado pela primeira vez na obra les contes des fées em mil seiscentos e noventa e seis, traduzido para português por josé teixeira rêgo para o livro contos de madame d’aulnoy da biblioteca infantil e popular editada pela renascença portuguesa em mil novecentos e catorze...
e é que tinham de ser catorze

r.
vinteequatro.setembro.doismiledez
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quarta-feira, 14 de julho de 2010

estrelas, planetas, plutóides e outras esferas do espaço - história redonda e achatada nos pólos... capítulo quatro

E há muitos planetas, Plutão?
– Imensos! Há muitos que os cientistas conhecem e ainda muitos mais por conhecer. À volta do nosso Sol agora há oito planetas – Disse Plutão enquanto apontava para todas as esferas por onde o menino tinha passado. - A mim também já me chamaram planeta mas parece que sou demasiado pequeno e ganhei um novo nome.
– E tu não ficas triste? De não seres planeta como os outros? – Quis saber o menino preocupado.
Plutão atirou-se para trás e deu uma grande gargalhada.
– Não, querido! Não fico nada triste. – Sorriu para o menino com toda a doçura. Sabes, quando os cientistas descobriram que eu existia, eu já aqui estava há muito, muito tempo. Um tempo que só mesmo as estrelas conseguem lembrar. E vou ficar aqui muito, muito mais tempo. Mais cientistas hão-de vir com outras palavras engraçadas e nomes maravilhosos para nos dar a todos, e nós continuamos aqui, a dançar no espaço e a dar inspiração e grandeza aos sonhos dos cientistas meninos.
– E gostas do nome que te deram agora? Gostas de ser plutóide? – Perguntou o menino.
Plutão sorriu e abanou-se todo a dizer que sim.
– Oh sim! Estou muito contente. Já é magnífico quando nos dão um nome bonito. Mas quando inventam uma palavra nova só para nós, é muito mais especialíssimo! – Explicou Plutão muito entusiasmado. – Além disso ‘plutóide’ é uma classe muito mais fixe que planeta. E planetas há muitos.
– Ainda bem que estás contente! – Disse o menino mais aliviado. – Estava preocupado.
Plutão piscou o olho e continuou com a sua voz serena.
– Não precisas de te preocupar. Se pensares bem, nada mudou. Eu sou exactamente igual. Gosto deste cantinho do universo, mesmo frio e escuro. Penso que tenho tamanho, peso e massa em quantidades ideais. De vez em quando fico todo coberto de gelo e nessas alturas tenho muita pinta. Adoro os meus amigos. De longe a longe o Neptuno vem visitar-me para falarmos um bocadito sobre as magias do espaço.
– Eu também gosto muito de ti. – Confessou o menino. – Assim como és. – Acrescentou.
– Obrigado! – Respondeu Plutão um bocadinho corado. – Agora diz-me cá: o que raio é uma televisão?
O menino sorriu, sentiu-se muito importante por estar a ensinar coisas a um astro antigo e sábio, da idade do próprio tempo. Explicou tudo muito bem, com gestos e tudo, e respondeu a uma montanha de perguntas interessantes.
O menino esteve muito tempo à conversa com Plutão e os seus amigos. Depois despediu-se, prometeu fazer nova visita em breve e regressou ao planeta Terra.
O pai ainda estava a acabar de lanchar e o menino aproveitou para comer mais um pedaço de maçã e um bocadito de queijo, enquanto os dois acabavam de ouvir as notícias na televisão. Quando acabaram o pai perguntou:
– O que achas disto, filhote? Bestial não é? Uma nova classe de planetas!
– Sim, papá. Gosto especialmente da palavra ‘plutóide’… É muito engraçada. – Respondeu o menino. – Mas o Plutão de ontem é igual ao de hoje não é? No fundo não mudou nada, pois não?
– Pois não, filho! Tens razão. – Disse o pai. – Não era maravilhoso se pudéssemos viajar no espaço e visitar os planetas? – Perguntou ao mesmo tempo que pegava no filho ao colo para o pôr no chão.
– Sim, papá. Era maravilhoso! – Disse o menino enquanto respondia ao abraço do pai. – Era mesmo muito mais especialíssimo!

– fim –

raquel patriarca

três.março.doismilenove

segunda-feira, 17 de maio de 2010

estrelas, planetas, plutóides e outras esferas do espaço - história redonda e achatada nos pólos... capítulo três

Finalmente, lá estava ele! Plutão olhou para o menino e sorriu muito satisfeito como se estivesse à espera da sua visita. Era uma esfera mais pequena. Ao lado das outras quase parecia um berlinde. Mas não um berlindinho pequenino. Vá lá… um abafador. Tinha um ar sábio e sereno, como as pessoas velhas que o menino conhecia. Como os avós.
– Olá! – Disse o menino meio a medo.
– Olá! – Respondeu o berlinde de nome Plutão, com a sua voz funda e cheia de força.
– Eu sou um menino e venho daquela esfera azul e bonita além ao fundo, quase a chegar ao Sol. Chama-se Terra. – Explicou o menino enquanto apontava. – Hoje ouvi falar muito em ti. Depois comecei a pensar, a pensar… e aqui estou eu!
– Fizeste bem em vir-nos visitar. – Respondeu Plutão – Estes são os meus amigos Caron, Nix e Hidra – disse Plutão enquanto apontava para três outros berlindes que giravam alegremente à sua volta.
O menino sorriu e acenou-lhes com a cabeça.
– Havia uns senhores na televisão e disseram que tu agora já não és um planeta. – Começou o menino a contar – Na verdade não sei bem o que é um planeta…
– Isso é óptimo, porque eu não faço ideia do que seja uma televisão! – Respondeu Plutão bem-disposto. Cruzou os olhos na brincadeira e pôs todos a rir. – Os senhores de que falas – continuou – chamam-se astrónomos e são cientistas. Eu gosto muito deles porque quando eram pequeninos vinham cá visitar-me muitas vezes, e agora que são grandes continuam a ter a cabeça e o coração nas estrelas.
– A sério? – Perguntou o menino maravilhado.
– Sim, claro! Passavam aqui muito tempo connosco. Como é que tu achas que eles aprendem tantas coisas interessantes sobre o espaço, as estrelas, os planetas…?
– Estou a ver. – Disse o menino. – Mas o que é um planeta, afinal?
– Planeta é o que os nossos amigos cientistas chamam a todas estas esferas grandes de rocha que giram no espaço à roda de uma estrela gigante. – Explicou Plutão apontando o Sol lá ao fundo e todos os astros à sua volta.
– Ah! – Exclamou o menino. – E são só as estrelas gigantes que têm planetas? – Perguntou.
– Oh sim! Para ter planetas uma estrela tem de ser muito grande e ter muita força.
– Como os meninos? Que têm de comer tudo para serem grandes e fortes? – Perguntou o menino.
– Exactamente! – Disse Plutão enquanto os seus três amiguinhos diziam que sim com um ar muito entendido. – Só que a força das estrelas chama-se gravidade, e faz com que os planetas se aproximem e fiquem a girar à sua volta. Diz-se que ficam em órbita. A gravitar.

raquel patriarca
três.março.doismilenove

segunda-feira, 19 de abril de 2010

estrelas, planetas, plutóides e outras esferas do espaço - história redonda e achatada nos pólos... capítulo dois

Olhou em redor e ficou maravilhado! O Sol, magnífico e luminoso, espreguiçava salpicos de fogo em todas as direcções. O menino sentiu-se quentinho por dentro e deixou-se ali ficar. À volta do Sol saltitava e saracoteava um pequeno astro a quem chamam Mercúrio, que é nome de remédio para pôr em joelhos esfolados. O menino percebeu logo a razão daquele nome: a pequena esfera saltava tanto e tão depressa que de certeza, de vez em quando, caía e se magoava.
Um bocadinho mais atrás, muito serena e elegante, flutuava a esfera de nome Vénus. Era muito bonita. Tinha uns olhos doces e profundos com pestanas longas e umas bochechas pequeninas e coradas. Sorriu timidamente ao menino e ele sentiu um esquisito calor na cara… devia ser do Sol. Disse-lhe adeus com a mãozita, virou as costas ao Sol e seguiu caminho.
O menino viajava pelo espaço como se estivesse a dançar suspenso no vazio. Ora andava muito descontraído como se passeasse no parque, ora se deitava de barriga para cima e batia os braços e os pés como se estivesse a nadar na praia. E às vezes, só para brincar, fazia de conta que pedalava na sua bicicleta.
Passado algum tempo encontrou uma esfera enorme, entre o vermelho e a cor do fogo, que tinha um ar muito simpático mas um bocadinho nervoso, e estava sempre a piscar os olhos e a fazer as caras mais cómicas que o menino já tinha visto.
– Olá! – Disse o menino – És tu aquele a quem chamam Plutão?
– Olá! – Respondeu a esfera – Eu chamo-me Marte. O Plutão é o último de todos, lá ao fundo onde está frio e escuro. Eu levava-te lá mas não me posso desviar do meu caminho... Já assim se diz por aí que sou um excêntrico! Achas que consegues ir sozinho? – Claro que sim! – Disse o menino. – Muito brigado. – Acrescentou enquanto dizia adeus a Marte que lhe sorria sempre a piscar os olhos.
O menino continuou a sua viagem e encontrou mais esferas. Júpiter era tão grande, mas tão grande que o menino nem conseguiu ver-lhe toda a cara. Viu só um olho risonho e uma bochecha gorducha. Estava muito entretido a cantar para si próprio enquanto orbitava e o menino não o quis interromper. A esfera chamada Saturno ria à gargalhada tão alto que fazia tremer as suas nove luas e tremeluzir as estrelas que estavam por ali perto. O menino percebeu depois que ela tinha uma multidão de pedras, pedrinhas e pedregulhos a girar à sua volta que lhe faziam muitas cócegas.
Um bocadinho mais à frente viviam mais duas esferas, Neptuno e Urano, um pouco mais pequenas, redondas e perfeitas, como dois lindos olhos azuis, que espreitavam do meio do escuro e, com carinho, lhe indicavam o caminho para Plutão.

raquel patriarca
três.março.doismilenove

sexta-feira, 2 de abril de 2010

estrelas, planetas, plutóides e outras esferas do espaço - história redonda e achatada nos pólos... capítulo um

Era uma vez um menino. Um menino em tudo igual aos outros meninos da sua idade. Era diferente apenas numa coisa, só sua e muito especial. Este menino estava sempre atento a tudo, adorava fazer perguntas e pensava, pensava muito; nas coisas sérias e nas brincadeiras, nos acontecimentos importantes e nos pormenores pequeninos, em tudo e em nada.
Um dia, ouviu um senhor muito bem engravatado na televisão a dizer que Plutão, o nono planeta, tinha deixado de o ser. A partir de agora fazia parte da classe dos Plutóides. E aquilo devia ser um assunto sério porque vieram muitos senhores falar sobre a mesma coisa e todos usavam óculos. Até o pai tinha ficado muito calado e quieto a ouvir a notícia, enquanto o menino esperava que ele lhe descascasse o resto da maçã.
Não era todos os dias que se falava tanto de planetas e estrelas à hora do lanche, e o menino tentava perceber o que se dizia na notícia, mas não era nada fácil porque os senhores na televisão têm muita dificuldade em falar como gente normal.
Assim que acabou de comer a maçã, o menino saltou de cima do seu banquito e caiu, caiu, caiu... Passou as nuvens e ficou com imensos pedacitos de algodão de chuva nos cabelos. Depois tudo foi ficando escuro à sua volta, como se entrasse devagarinho numa noite cheia de estrelas muito brilhantes.


raquel patriarca
três.março.doismilenove

nota: hoje comemora-se o dia mundial do livro infantil e faz anos que nasceu o senhor Hans Christian Andersen (1805-1875) que, por coincidência, escreveu muitos livros para crianças!
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segunda-feira, 13 de julho de 2009

estrelas, planetas, plutóides e outras esferas do espaço... ou como fazer autopromoção descarada


já saiu o número 4 da revista e-f@bulations, desta vez dedicada à ciência. é com muita alegria e muito pouca modéstia que venho partilhar o meu conto intitulado estrelas, planetas, plutóides e outras esferas do espaço, integrado na secção de contos para crianças. a revista está disponível na biblioteca digital da faculdade de letras da universidade do porto, a partir deste link.
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[patriarca, raquel - estrelas, planetas, plutóides e outras esferas do espaço. ilustração de solange costa. e-f@bulations: e-journal of children's literature. porto: departamento de estudos anglo-americanos da faculdade de letras da universidade do porto. issn - 1646 8880. nº 4 (2008) p. 151-157.]
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um abraço,
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raquel patriarca
treze.julho.doismilenove

terça-feira, 12 de maio de 2009

a herança

capítulo primeiro
uma caixa
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era uma vez uma caixa, muito bem guardada numa velha arca de madeira de cânfora. não era uma caixa qualquer. era uma caixa muito especial. à primeira vista, para um olhar pouco atento ou desentendido, podia parecer uma vulgar caixa de papelão. uma caixa velha como todas as outras caixas velhas.
a verdade era bem diferente.
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pouco colorida, suja ou esfumada entre os cinzentos e os castanhos, tinha uma natureza discreta e serena. há já muito tempo alguém a tinha coberto de palavras recortadas em jornais, livros, revistas, sebentas de escola, cadernos de merceeiro e toda a sorte de papéis escritos.
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a base era um quadrado perfeito, equilibrado e estável. de cada canto partiam linhas direitas e firmes, arestas bem definidas que serviam de moldura às suas quatro faces gémeas.
a tampa, que encaixava como uma coroa na cabeça de um monarca honrado e justo, era simples, elegante e tinha as abas reforçadas a couro, como as cantoneiras de um livro antigo. exactamente no meio da face superior da tampa estava colado um pedaço de papel, amarelado e com os cantos recortados, onde letras manuscritas que traziam imagens de outro tempo, desenhavam uma única palavra:
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pedro
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a tinta, já meio comida, inspirava memórias do tempo em que vivam na terra os grandes heróis. o pequeno rapaz passava muitas vezes os dedos sobre as letras como se fossem mágicas. ainda era um menino e nem sequer sabia ler ou escrever, mas reconhecia naquela palavra os desenhos que davam corpo ao seu nome. depois, sem nunca a abrir, pegava na caixa que mal lhe cabia nas mãozinhas e, com todo o cuidado, levava-a para o seu esconderijo secreto.
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mesmo na sua pouca idade tinha a consciência que dentro daquela caixa repousavam os tesouros mais preciosos que um menino pode ter e guardar.
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raquel patriarca
doze.maio.doismilenove

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

a história do avô que nasceu na selva amazónica


Era uma vez um dia de Outono, triste, cinzento e com aquele frio húmido que faz doer os ossos. Um menino de quatro anos, de joelhos numa cadeira e nariz encostado ao vidro, espreitava pela janela. Não foi à escolinha porque estava doente e não lhe apetecia brincar porque lhe doíam os ouvidinhos e a garganta.
De mansinho, quase sem fazer barulho nenhum, o avô chegou e pousou-lhe a mão no ombro.
– Estás bem, querido? Queres alguma coisa? – perguntou.
– Estou bem avô. ­– Respondeu o menino que falava muito bem. – Estou só caidito…
O avô enterneceu-se. Pegou no menino ao colo, deu-lhe um abraço apertado e um beijinho na bochechinha corada e quente dos restitos da febre.
– Anda cá. Vou contar-te uma história. Uma história fantástica!
O avô sentou-se no cadeirão, pertinho da lareira e o menino aconchegou-se bem no seu colo, com as pontinhas dos pés fez deslizar as pantufas dos calcanhares e enterrou os pés entre a perna do avô e a almofada. Depois abriu muito os olhitos e ficou à espera.
– Vou contar-te a história da minha infância. Tu não sabes, mas eu nasci no meio de uma floresta.
– Numa floresta, avô? – perguntou a criança subitamente iluminada de curiosidade.
– Isso mesmo, filho. Numa floresta. – respondeu o avô, muito solene. – E não foi numa floresta qualquer; foi na floresta amazónica.
– A sério avô? – diz o menino fascinado.
– A sério! Nasci na floresta amazónica muito, muito longe daqui, mesmo aos pés de uma árvore, acho que era um eucalipto ou então uma goiaba brava. Já foi há muito tempo.
– Oh avô, – pergunta o menino – Na Amazónia há eucaliptos?
– Claro que sim! – responde prontamente o avô. – A floresta amazónica é o último sítio do mundo onde existem todas as espécies de árvores.
– Ahhhh! – exclama acriança – Deve ser muito grande!
– Pois é! – continua o avô – Grande e bonito! E foi aí mesmo que eu nasci ali. Junto à raiz de uma árvore, mesmo ao lado de um ninho de cobras venenosas.
– Venenosas, avô? – pergunta o menino, tremendo com um arrepio e apertando o braço do avô entre as suas mãozitas pequeninas – E não tiveste medo?
– Não, não tive medo porque houve uma tribo de índios da Amazónia que tratou de mim, e me criou até eu ser grande.
– Oh avô, – interrompe a criança, – o que é uma tribo?
– Boa pergunta! – sorri o avô. – Uma tribo é um grupo de pessoas que vivem mais ou menos juntas, e que trabalham e partilham as coisas que têm e se encarregam do bem-estar umas das outras. – tenta explicar.
– Como uma família? – pergunta o menino.
– Exactamente! – responde o avô.
– E tu quando eras pequenino viveste com essa família chamada Tribo? Na Amazónia?
– Isso mesmo. Durante muitos anos, vivi com os índios da floresta. Aprendi a caçar e a cozinhar a carne, e a lutar com animais selvagens quando era preciso proteger o nosso espaço.
– E alguma vez lutaste com um animal selvagem avô? – quis saber a criança, rendida de fascínio e antecipação.
– Oh sim! Muitas vezes! – contou o avô, fechando os olhos como quem está a lembrar. – Uma vez lutei com um leão, mas não o magoei muito, só o suficiente para ele se ir embora. Porque os índios da floresta amazónica ensinaram-me que devemos ser amigos de todos os animais.
– Mesmo dos maus? – pergunta o neto.
– Claro, filhinho. – diz o avô – Aqueles animais a que chamas de maus, só são maus às vezes, quando têm fome ou se sentem ameaçados, percebes?
– Sim, avô.
– Houve outra vez que uma enormíssima cobra vinha por entre os arbustos junto à terra, decidida a comer um passarito que costumava vir cantar de manhã, perto da minha cabana.
– E depois?
– Depois fiquei zangado porque gostava muito do passarito e não queria que nenhum animal lhe fizesse mal. Tive de lá ir a correr, agarrei na cobra com as duas mãos e zás, dei-lhe uma dentada!
– A sério, avô? – pergunta o menino.
– Mesmo a sério! – assegura o avô – uma enorme dentada na pele escamosa das costas.
– E não te fez impressão?
– Fez um bocadinho, é verdade. As cobras são muito frias e viscosas. Há outros animais mais simpáticos e agradáveis de tocar… como o meu amigo elefante bebé.
– Tu tinhas um amigo elefante bebé?
– Tinha pois. Ficamos amigos no dia em que eu o salvei de uma matilha de hipopótamos.
– Uma matilha de hipopótamos – pergunta o menino assombrado.
– Isso mesmo! – explica o avô – Vinham todos por ali abaixo a correr e iam passar por cima do pobre elefante bebé.
– E tu salvaste-o? – diz a criança num misto de admiração e orgulho. – Tu sozinho!
– Eu mesmo! – responde o avô todo inchado. – Desde esse dia fomos os melhores amigos. Ele levava-me a passear sentado no seu pescoço, sacudia-me as moscas com as grandes orelhas e eu fazia-lhe festinhas no pêlo macio. Andávamos juntos para todo o lado.
– Deve ser bom ter um amigo elefante! – exclama o menino.
– É sim senhor – concorda o avô. – É muito bom. Não há nada no mundo tão bom como os amigos!
– Tinhas mais amigos, avô? – pergunta o neto, muito interessado.
– Oh sim! Tinha muitos amigos. Mas há sempre alguns especiais. Aqueles que estão sempre a nosso lado, que nos conhecem os segredos e nos aceitam assim, tal e qual como nós somos. Desses amigos que são quase irmãos eu tinha dois. Um era o elefante, que tu já conheces, o outro era um cão-crodilo.
– Um cão-crodilo? – pergunta a criança incrédula.
– Sim, um cão-crodilo. É uma espécie muito rara. É como um crocodilo mas especialmente fiel e dedicado aos amigos. E queres saber o que era mais engraçado? – Perguntou o avô.
– Quero! – respondeu prontamente o neto.
– Ele abanava a cauda para dizer “Olá” de cada vez que nos encontrávamos!
O menino atirou a cabeça para trás deu uma daquelas gargalhadas límpidas e luminosas que só as crianças sabem dar. Abraçou o avô pelo pescoço, e disse-lhe quase ao ouvido:
– Avô, tu contas as melhores histórias do mundo!
O avô também sorriu e devolveu o abraço.
– Vá, agora vamos ao lanche que a mamã deve estar quase a chegar para te levar para casa.
E lá foram os dois, recordar detalhes da história e acrescentar outros novos, entre dentadas de pão de lenha e goles de leite com chocolate.
Mais tarde, como combinado, a mãe chegou. Deliciada viu o filho, sorridente e de olhos brilhantes, correr para si de braços abertos.
– Mãe! – diz a criança – Hoje aprendi uma coisa muito importante! Queres que te conte?
– Claro, amor! – responde a mãe – Quero que me contes tudo!
– Sabes, todas as pessoas têm amigos. E alguns desses amigos são muito especiais. – Explica o menino, abanando a cabeça para melhor se fazer entender. – Conversam muito e quando estão tristes dão as mãos e quando estão contentes brincam juntos. – Continua a criança fazendo gestos com as mãozitas e abrindo muito os olhos. – Percebes?
– Sim, amor. Claro que percebo. – Responde a mãe. – E tu também hás-de ter amigos assim especiais, meu querido.
– Eu já tenho, mãe! – Diz o menino, virando a cabecita e sorrindo para o avô, que lhe pisca o olho em resposta.
b. b. booker
setembro de 2008

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

a história da girafa da cor do céu


Num Verão quente, o fim da tarde passava muito devagarinho, enquanto o sol se punha atrás de uma colina verde salpicada de oliveiras, ao som do cantarolar de um melro gorducho e lustroso. Na cadeira do alpendre mãe e filho embalavam-se um ao outro. Banho tomado, jantar comido, o filho encaixado de lado ao colo da mãe, braço em volta do flanco, cabeça pousada no ombro, respiração funda, olhinhos pesados.
– Mãe… – diz o filho baixinho.
– Sim, amor? – responde a mãe.
– O pôr-do-sol é bonito não é? – pergunta o filho.
– É sim, amor. É muito bonito. – diz a mãe. – Sabes, quando eu era pequenina, assim da tua idade, a avó contou-me uma história sobre um pôr-do-sol.
– Uma história do pôr-do-sol? – diz o menino, curioso.
– Sim, uma história sobre um pôr-do-sol. Um pôr-do-sol num sítio muito longe daqui, onde a terra é castanha e o céu é laranja e vermelho. A avó contou que é tão bonito, tão bonito, que quem o vê nunca mais esquece aquelas cores, aqueles sons e aqueles cheiros.
– E que mais te contou avó? – pergunta a criança.
– Contou que um dia ela estava sentada na savana…
– Mamã… – interrompe o menino, – O que é uma savana?
– A savana é uma terra muito grande, sem montes nem montanhas, que se estende por todos os lados para onde podemos olhar. A terra é amarelada e só tem alguns arbustos e umas poucas árvores para fazer sombra e pintalgar de verde a paisagem.
– Está bem. – diz o filho satisfeito com a explicação.
– Então… – continua a mãe. – Estava a avó sentada na savana e à medida que chegava o fim da tarde, como agora, viu o sol a pôr-se. A terra foi ficando mais escura, mais escura, até parecer quase negra. O céu também escurecia e ficava da cor do fogo; primeiro amarelo, depois laranja e por fim cada vez mais vermelho. O sol como uma grande bola redonda muito brilhante e quase branca, foi descendo, descendo até desaparecer numa toca muito longe escondida no horizonte.
– Mamã… – interrompe o menino novamente, – O que é o horizonte?
– O horizonte é aquela linha que vemos lá ao fundo, onde a terra e o céu se tocam, – explica a mãe enquanto aponta, – Vês além?
– Vejo mamã. – responde a criança. – Deve ser um pôr-do-sol mesmo muito bonito!
– E é mesmo, filhinho. Muito, muito bonito.
– E depois, o que é que aconteceu mais? –
– Depois, quando o sol já estava meio escondido na terra, lá ao fundinho, – continuou a mãe – a avó viu a passar uma girafa…
– Uma girafa? – pergunta a criança.
– Uma girafa! – responde a mãe.
– Sabes qual é a melhor coisa das girafas, mamã? – pergunta o filho.
– Diz lá amor.
– É que as girafas conseguem limpar os ouvidos com a língua!
– Isso é muito interessante, filho!
– E o que é que aconteceu depois?
– Depois a girafa parou a conversar com a avó, porque a avó sabe falar a língua de todos os animais, – continua a mãe.
– De verdade?
– De verdade!
– Mesmo assim… falar, falar… como nós estamos a falar? – certificou-se a criança enquanto apontava para a mãe e para si próprio, ao mesmo tempo que dizia que sim com a cabeça com os olhinhos muito arregalados.
– Tal e qual! – assegurou a mãe.
– E como se chamava a girafa amiga da avó? – quis saber o menino.
– A girafa chamava-se Gaia. Era muito alta e bonita. Tinha um pescoço muito comprido, mais comprido do que qualquer outro animal, e um pelo alaranjado da cor do céu ao pôr-do-sol, com manchas castanhas da cor da terra.
– Devia ser muito bonita. – diz o filhinho.
– E era mesmo. – Responde a mãe. – A girafa chamada Gaia contou à avó que desde que era uma girafinha pequena, mal começou a esticar o pescocito para ver mais longe, queria ver para além do horizonte e descobrir para onde ia o sol quando deixava o céu e se escondia na terra. Contou que quando cresceu decidiu ir atrás desse sítio chamado horizonte, e que um dia, se despediu da família e dos amigos, e partiu numa grande viagem ao encontro do pôr-do-sol.
– E então? Encontrou-o? – diz ansiosa a criança.
– Foi exactamente o que a avó lhe perguntou. – explicou a mãe.
– E ela?
– A girafa contou que tinha viajado muitos, muitos dias. Que tinha visto muitas vezes o sol a pôr-se. E contou que quando caminhava sob as árvores da floresta, nunca perdia o sol de vista por entre os ramos altos e cheios de folhas verdes. Então viu o sol a atravessar as árvores em raios de luz que faziam brilhar mil e um tons de verde. Depois o pôr-do-sol vinha de mansinho, e a floresta escurecia debaixo de um cobertor de folhas, enquanto o céu passava de azul para um arroxeado quase mágico e um sol mais fraquinho se ia escondendo numa cama de folhagem, lá longe no horizonte.
– Que lindo, mamã! – exclama o menino.
– Pois é, amor. – diz a mãe. – A girafa chamada Gaia contou ainda que viajou por um grande deserto. Aí não havia árvores. Para onde olhava só via montanhas de areia branca e mal podia olhar para o sol, porque era muito claro e forte e magoava-lhe o corpo e os olhos. No deserto, quando o sol se punha o céu reflectia as cores do deserto em nuvens de algodão amarelo-torrado, e desaparecia aos poucos atrás de uma duna de areia longínqua.
– Amarelo-torrado da cor das torradas com manteiga? – pergunta o filho.
– Exactamente. – diz a mãe. – A girafa contou à avó que ao atravessar a savana pôde, de vez em quando, abrigar-se à sombra de uma ou outra árvore. O sol não era tão forte como no deserto e corria uma brisa fresca que a girafa chamada Gaia não sabia de onde vinha, mas que sabia muito bem. E aí era tal e qual como a avó contou: deixavam de se perceber as cores das árvores e da terra, ficavam só os contornos a negro que se recortavam num céu mais vermelho onde o sol se escondia lá muito longe, junto da linha do horizonte.
– E foi aí que a girafa encontrou a avó? – perguntou o menino.
– Não, amor, ainda não foi aí. – explicou a mãe. – Isso foi depois.
– Então?
– A girafa continuou a sua viagem até que um dia, a terra acabou e a girafa de nome Gaia chegou às margens do mar.
– Chegou à praia?
– Sim filho chegou à praia.
– E depois?
– A girafa ficou maravilhada com a imensidão do oceano e com o som que faziam as ondas a enrolar conchinhas na areia e ficou a ver o sol a pôr-se no mar. E então, entre o azul do céu e o azul do mar desceu um sol vermelho como o fogo que parecia mergulhar nas águas e incendiá-las também com a sua cor.
– Oh mãe… – diz a criança.
– Diz filhote. – responde a mãe.
– As girafas sabem nadar? – pergunta o menino.
– Não amor. A girafa Gaia não pôde continuar a sua viagem. Teve de voltar para trás, e foi na sua viagem de regresso que encontrou e parou a conversar com a avó. – explicou a mãe.
– Ah. E ela não ficou triste?
– A avó também perguntou o mesmo e sabes o que ela respondeu? – perguntou a mãe.
– Não. – diz o filho. – O que foi?
– Ela respondeu que a viagem tinha sido maravilhosa e que tinha visto coisas muito bonitas que nunca podia imaginar que existiam. Sabia agora que nunca podia chegar ao horizonte e ao sol porque eles viajavam com ela sempre, sempre mais além. A girafa contou à avó que se sentia muito feliz pelas histórias que tinha para contar aos seus amigos. A avó disse-lhe que também estava muito feliz por se terem conhecido, e foi assim que se despediram. A girafa continuou o seu caminho e a avó ficou a ver o pôr-do-sol.
– Que bonita história mãe! – diz o menino.
– Pois é filho. – concorda a mãe.
– Eu também gostava de ir até ao horizonte… Achas que posso?
– Claro meu amor! Um destes dias falaremos sobre isso…

b. b. booker
agosto de 2008