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domingo, 13 de outubro de 2013

photo grafia LX

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"tótós, campo aberto e galochas vermelhas"
os componentes essenciais da infância feliz
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macieira de sarnes
milnovecentosesetentaeoito ou milnovecentosesetentaenove
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sábado, 12 de outubro de 2013

a minha mãe chama-se Conceição


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A minha mãe chama-se Conceição e o nome da minha mãe não é só um nome. É uma palavra de simplicidade nenhuma, com passados latinos e bíblicos, sons estranhos e compridos. É uma palavra de conceito muito largo com sentido de criação e começo, de ideias primordiais e possibilidades imensuráveis. A minha mãe Conceição é uma pessoa assim imensa. Muito larga de sentidos, primordialmente boa e incomensurável. Traz com ela a criação e o começo de todas as coisas, a possibilidade de todas as ideias e de todas as formas de as realizar. A minha mãe Conceição é o meu começo e o meu abrigo. O colo primitivo dos meus sentidos e ideias. Ela é o meu conceito de ser gente e de ser boa e serena e a vontade de ser assim em tudo. Assim como um começo, largo de sentidos e incomensurável de amor. Assim completa como a minha mãe Conceição.
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raquel patriarca | doze.outubro.doismiletreze
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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

diálogo

e eu disse: então é assim? teimas em não lavar os dentes? pois ficas a saber que te vou castigar. porquê, perguntou ele muito calmo. porque me desobedeceste, era eu a constatar o óbvio. voz serena e o rosto firme. desobedecer à mãe é a pior coisa que alguém pode fazer na vida, continuei num daqueles entusiasmos naturais das pessoas que, como eu, são dadas ao exagero. ele parou a meio do corredor e voltou-se, sério. solene, suportei os cinco segundos de silêncio daquele momento de revelação essencial na descoberta de um quadro de valores e referências, futuros alicerces estruturais do carácter do meu filho.
olha mãe, a voz dele era mais funda e solene que a minha, usar peúgas com sandálias é muito pior.
…
voltei para a cozinha.
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_____________.
diálogo de peúgas
numa manhã entre vinte e quatro de agosto e trinta de setembro de dois mil e dez
raquel - mãe, trinta e seis anos
pedro - filho, seis anos
r.
oito.setembro.doismiledez

quinta-feira, 20 de maio de 2010

música

'silêncio surdo de ecos vazios'
linhares - celorico da beira - serra da estrela

há uma música bonita
que me inunda a
memória
de gestos serenos
e dias de sol

uma melopeia de coisas simples

o encanto de uma
história
contada de cor

‘era uma vez
há muitos muitos anos
numa terra distante...’

o murmúrio de uma oração
e o toque das contas
do terço
o abrir -
- vagaroso
de uma manga
à procura de um lenço

o som da água
a correr no ribeiro
empurrado pelo vento
e o bailar da roupa
que se mergulha e esfrega
ao ritmo
sincopado
de uma cantiga sem tempo

o burburinho
dos dias de feira
o tamborilar das compras
na cesta
o toque dos sinos tão perto
o encadeado dos cumprimentos
‘como está?
vamos indo obrigada
até amanhã
se deus quiser'

o flautear de uma
gargalhada
no fim da brincadeira

o compasso do
caminhar
em direcção a casa

o estalar do
pão de trigo
à hora da merenda

o suspiro cansado e
fundo
ao pousar
as mãos nodosas
no colo
alisando
resignadamente
as rugas da pele
as pontas do avental

o sussurro doce de uma
canção
de embalar
o soluço de
um afago e de um
beijo
antes de deitar

…

há um silêncio surdo
que me ensopa a
alma
de ecos vazios
e ausências doridas

‘era uma vez
há muitos muitos anos
numa terra distante...’

aos avós

raquel patriarca
dezanove.maio.doismiledez

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

fragmentoisas VI


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..............era uma vez um dia em que o mundo nasceu
..............assim a meio da manhã quando coisas têm preguiça
..............das conchas do mar caiu um pequeno sorriso
..............o sorriso espirrou e o mundo estremeceu e
..............de toda a parte
..............choveram lápis de carvão e pincéis
..............coloridos como rebuçados
..............quando tocaram no chão acabadinho de inventar
..............transformaram-se em árvores e pássaros e estrelas
..............e mil e uma criações que se equilibravam
..............umas nas outras
..............e foi assim que o mundo nasceu
..............descoberto com carinho nas pontas dos dedos
..............de duas irmãs
..............que se chamavam natureza e arte
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para a rute e a mafalda com carinho e orgulho
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raquel patriarca
doisequatro.fevereiro.doismilede
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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

miolo de pão

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lembro-me às vezes
– sem quando nem porquê –
do sabor que tinha
o miolo do pão do dia anterior.
mas não sei se era
o pão ou o dia
que tinha
aquele sabor.

e nós as duas
sentadas,
na mesa da cozinha
à janela
de pernas cruzadas,
de pijama e pantufas
remelas nos olhos
cabeças despenteadas.

jogávamos a adivinhar
a cor dos carros
que haviam de passar.
um carro branco, um carro azul
e outro vermelho
– amassado e sem pára-choques –
muito velho,
e uma carrinha preta
logo a seguir.
afinal era uma lambreta
com imensa tralha mal atada atrás
quase quase a cair.
ah pois!
de vez em quando,
uma carroça de bois.

tu acertavas tudo
e eu…
quase nada.
pergunto-me hoje
se fazias tu batota
ou estava eu muito ensonada.
não importa, pois não?
se ainda trago comigo
o sabor do miolo de pão.

eram o mundo inteiro:
uma mesa e uma janela.
e eu acreditava na magia
que passava na estrada,
disfarçada de furgoneta amarela.

lembro-me às vezes
– sem quando nem porquê –
do sabor dessas manhãs,
em que não éramos
ainda nada
nem ninguém.
apenas irmãs.


à minha irmã
raquel patriarca
vinteeseis.agosto.doismilenove

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

the patriarch

what’s in a name?
william shakespeare, in "romeo and juliet" (c. 1595)
some signs, a word, a sound
a context in which I’m found

one framed photograph in shades of black and white
the endless singing embrace
on a long feverish night

grey hair gently divided by a thin comb
wide opened arms
welcoming me home

caring eyes, deep and wise, looking after me
feeding the present
with their far memory

heavy, holy like, lines across a familiar face
meandering map roads
pointing to this one place

a big cold stone where I sit and watch the trees
voids that hurt so
I curl up and hold my knees

a learnt by heart book of incredible stories
a newborn hope
for great and future glories

unspoken thoughts in a glance shared with others
the witnesses of my life
my sisters, my brothers

a root, a roof, a race. a sea world wide long
breaking upon the shore
where I feel I belong

unified as an infantry army, protective as the wolf’s pack
a gang that will always take me,
unconditionally,
back

one collective soul and one state of mind
divided in many parts
we can all secretly find

this is my name, this is my ground
the life’s concept to which I’m bound
r. bewusstsein
twentyseven.november.twothousandandeight