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| pela manhã nos ghats de varanasi - uttar pradesh - índia |
Escrevo mal sentada e com os papéis assentes nos joelhos,
numa das escadarias que em Varanasi se debruçam com vagar para o Ganges. É
cedo, o sol ainda não nasceu e eu, criatura intrometida nos rituais de
amanhecer dos outros, estou só aqui, muito quieta excepto nos papéis que já são
teus. Às vezes pára-se-me a escrita e fico só a sentir o silêncio. A fazer por
entender os gestos que vejo entre as margens e a claridade que sobe ao fundo.
As pessoas chegam, sozinhas ou em família, e vêm banhar-se nas águas do rio.
Vêm ao encontro do sol, carregadas daquela esperança que só existe nas
primeiras horas de cada dia, antes de o cansaço e a desilusão as virem tocar. Descem
para o rio como para um altar e vêm purificar-se numa água indizivelmente suja.
Pergunto se eles pressentem quão imunda corre a água do rio. Tenho a certeza de
que sabem tudo isso. Sabem todas as coisas melhor do que eu. Sabem que o Ganges
vai imundo de tudo, menos de maldade e de engano. Penso no que dirias se aqui
estivesses comigo. Com que palavras poderíamos desembaraçar as incompreensões
na cabeça um do outro.
Há crianças a fazer yôga uns degraus mais abaixo. Trazem o nos
olhos mesmo brilho, o mesmo contentamento sereno que aprendi a admirar no rosto
dos indianos. Dou por mim a ter pena da sua condição de miséria. E dou por mim
a invejar a sua paz interior. Tão desimportados do mundo, tão conhecedores de
si.
Não sei onde e quando voltarei a escrever. Aceita um abraço
imenso e a certeza de que te trago comigo.
r.
fotografia | vinteeseis.março.doismiledezasseis
texto | sete.outubro.doismiledezasseis
ambos | raquel patriarca