quarta-feira, 26 de agosto de 2009

miolo de pão

.
lembro-me às vezes
– sem quando nem porquê –
do sabor que tinha
o miolo do pão do dia anterior.
mas não sei se era
o pão ou o dia
que tinha
aquele sabor.

e nós as duas
sentadas,
na mesa da cozinha
à janela
de pernas cruzadas,
de pijama e pantufas
remelas nos olhos
cabeças despenteadas.

jogávamos a adivinhar
a cor dos carros
que haviam de passar.
um carro branco, um carro azul
e outro vermelho
– amassado e sem pára-choques –
muito velho,
e uma carrinha preta
logo a seguir.
afinal era uma lambreta
com imensa tralha mal atada atrás
quase quase a cair.
ah pois!
de vez em quando,
uma carroça de bois.

tu acertavas tudo
e eu…
quase nada.
pergunto-me hoje
se fazias tu batota
ou estava eu muito ensonada.
não importa, pois não?
se ainda trago comigo
o sabor do miolo de pão.

eram o mundo inteiro:
uma mesa e uma janela.
e eu acreditava na magia
que passava na estrada,
disfarçada de furgoneta amarela.

lembro-me às vezes
– sem quando nem porquê –
do sabor dessas manhãs,
em que não éramos
ainda nada
nem ninguém.
apenas irmãs.


à minha irmã
raquel patriarca
vinteeseis.agosto.doismilenove

terça-feira, 25 de agosto de 2009

domingo, 23 de agosto de 2009

photo grafia XXX

"travessia"
atlantic ferries - rio sado - entre troia e setúbal

raquel patriarca
vinteetrês.agosto.doismilenove

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

sentimento do mundo

.
hoje esteve muito calor. muito mais do que é normal. no fim do dia – quando estava mais fresco – reguei o jardim. reguei-o com carinho e consciência de que aquele era um acto de respeito e comunhão com a natureza. apanhei as ervas daninhas e deitei-as fora. varri o pátio e conversei com o vaso da malva que me parecia desanimada.
e senti que o mundo era bom.

hoje reguei o jardim e – enquanto imaginava sorrisos de agradecimento da relva, das roseiras, das magnólias e da salsa – enrolei a mangueira. enrolei a mangueira que parecia nunca mais acabar e que deve ser enrolada direitinha para depois ser pendurada. enrolei a mangueira, comprida e pesada, com os braços no ar deixando escorrer a água que ainda lá corria dentro. pendurei-a no lugar certo na parede ao fundo da garagem.
e senti que o mundo era bom.

hoje vim para dentro bem disposta, invadida de um sentimento de missão e entrega. visitei a despensa e o frigorífico, amontoei na banca ingredientes ao calha, vesti o avental e comecei a fazer o jantar. passado pouco tempo a cozinha começou cheirar bem e os rapazes estavam por perto e com fome.
e senti que o mundo era bom.

hoje andava por casa como uma rainha num castelo. cantarolava entre um tempero no tacho e uma arrumadela nos brinquedos. estendi a toalha na mesa, espalhei pratos, copos, talheres e guardanapos. chamei os rapazes e jantámos.
e senti que o mundo era bom.

hoje, ao sair da cozinha, tropecei numa coisa. sem saber bem porquê passou-me pelos olhos uma imagem do monte everest em várias modalidades de cores e texturas. hoje, ao sair da cozinha, tropecei numa cesta de roupa para passar a ferro. fiquei ali parada por uns momentos. fiquei sem saber o que fazer.
e senti que o mundo era uma trampa.
.
raquel patriarca
onze.agosto.doismilenove

viagem medieval em terra de santa maria








"viagem medieval"
santa maria da feira - de trinta de julho a nove de agosto

fotografias:
raquel patriarca
oito.agosto.doismilenove

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

excertos

pareço uma casca
seca e vazia
sem ti
cabeça baixa
olhar fixo nas mãos
pousadas inertes no colo
entre os dedos
uma carta
que te escrevi
.
passam pessoas
têm propósito
razão e certeza
eu não me mexo
tenho frio
desconforto
estranheza
.
pergunto-me
para que serve a carta
só faz prova
da mágoa
da saudade
que deixas quando partes
e eu
estou farta
.

tenho nas mãos
papéis de nada
meros excertos
mal explicados
de tudo o que
um dia
te quis dizer
não sei que lhes faça
agora que sei
que não os queres ler

.
raquel patriarca
seis.agosto.doismilenove

photo grafia XXIX

"medusa"
escultura - rotunda de matosinhos

raquel patriarca
trinta.julho.doismilenove

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

des conhecer

.
já não ouves
o que
penso
nem conheces

o que
sinto

e já não lês
nos meus olhos

baços
as pequenas

verdades
com que eu

te minto
.

raquel patriarca
cinco.agosto.doismilenove

terça-feira, 28 de julho de 2009

eu pintei a minha fada


"fada organívea pintada"
.
a fada organívea pintada tem o cabelo da cor do fogo e os olhos da cor do mar. tem bochechinhas rosadas e contentes da cor das flores na primavera e asas de nuvem e flocos de neve. veste sempre pijamas coloridos, felpudos e quentinhos por baixo de túnicas vaporosas bordadas com fio de céu.
.
raquel patriarca
vinteeoito.julho.doismilenove

terça-feira, 21 de julho de 2009

photo grafia XXVIII


"homem t"
exposição de arte - avenida dos aliados - porto

fotografias: raquel patriarca
quinze.julho.doismilenove

segunda-feira, 13 de julho de 2009

estrelas, planetas, plutóides e outras esferas do espaço... ou como fazer autopromoção descarada


já saiu o número 4 da revista e-f@bulations, desta vez dedicada à ciência. é com muita alegria e muito pouca modéstia que venho partilhar o meu conto intitulado estrelas, planetas, plutóides e outras esferas do espaço, integrado na secção de contos para crianças. a revista está disponível na biblioteca digital da faculdade de letras da universidade do porto, a partir deste link.
..
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[patriarca, raquel - estrelas, planetas, plutóides e outras esferas do espaço. ilustração de solange costa. e-f@bulations: e-journal of children's literature. porto: departamento de estudos anglo-americanos da faculdade de letras da universidade do porto. issn - 1646 8880. nº 4 (2008) p. 151-157.]
.
um abraço,
.
raquel patriarca
treze.julho.doismilenove

sexta-feira, 10 de julho de 2009

rita, encontrei os canhenhos!

nota preliminar:
dezasseis anos depois de acabarmos o liceu, encontrámo-nos as duas à beira mar. o que entretanto em nós mudou – os olhos desassossegados de progenitoras sempre atrás das crias que brincavam alegremente entre a borda da areia e os salpicos do mar; os quilos a mais mal disfarçados nos biquínis tamanho ‘slightly-extra-large’; as cicatrizes da alma; as quebras do coração… – nada pôde perante aquilo que em nós está igual – a cumplicidade e o carinho. partilhámos e compreendemos cada momento que passámos longe, num silêncio feliz por estarmos, agora, tão perto. já não sei a que propósito, acabámos a falar nos tempos em que todos nos dedicávamos a escrever poemas. é incrível a falta que às vezes sinto das coisas que escrevíamos, da maneira como víamos a vida e nos aceitávamos mutua e incondicionalmente como grandes poetas. encontrei os ‘canhenhos’ e, em honra desse último ano que passámos todos juntos, quero hoje publicar um poema de que gosto muito. este poema não é meu. meu é o chapéu...
.
aula de geografia


tanta gente à minha volta
e, no entanto,
sinto-me tão só…

três pessoas lá em baixo
e eu – daqui de cima –
vejo tão bem
as mentes tão distantes!

em que estarão a pensar?
acredito que não seja na “indústria”!
uns
pensam na prova de aferição
que não tarda em chegar;
outros
nos tormentos do coração.
as feridas que não querem sarar.

um chapéu sem topo numa mesa.
de certo
uma boa imagem para um poeta observador.


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poema: cláudia veloso
junho.milnovecentosenoventaetrês
fotografia: raquel patriarca
dez.julho.doismilenove.

nota final:
queria dedicar o poema à rita, à cláudia, à vanessa, à iolanda, à xana, ao pedro, à cló, à sheila, ao hugo, ao tiago, ao marcos, ao nuno, à inês e a todos os outros que me devo estar a esquecer e que não faço ideia onde param… espero poder um dia encontrar-vos à beira mar.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

casa feita de pó e de papel

.
a minha casa é feita
de pó e de papel
labirinto de imagem, palavra e sonho

terra de magia e torre de babel

tem o cheiro acastanhado
dos segredos
e o silêncio da alma
assídua e devota
que toca com os olhos
e sente
na ponta dos dedos
cada estante, cada lombada, cada cota

os livros –
direitos ou tombados,
pequeninos e pesadões,
fora de sítio, arrumados,
e empilhados em montões –
chamam o meu nome
(com um chamar bonito)
em prosa ou em verso,
manuscrito ou impresso

depois dão testemunho
de ciência, ficção e memória
que me prende e liberta
num só momento
por uma página, por uma história
pelas palavras que alguém
um dia escreveu no vento

é de pó e de papel
esta casa que é uma ponte

tem um postigo no telhado
de onde vejo o horizonte
e uma janela enorme
que dá para o meu jardim

não é uma casa, nem é minha

no fundo
ela é todo o mundo
e faz parte de mim.

.

raquel patriarca
um.julho.doismilenove

terça-feira, 30 de junho de 2009

photo grafia XXVII

"o meu balão"
primeiro balão de s. joão que eu lancei - quintal da casa do micas - porto
raquel patriarca
vinteequatro.junho.doismilenove

segunda-feira, 29 de junho de 2009

és tu, mamã!...

"eu, pelo pincel do meu filho"
pintura - lápis de cor em papel cavalinho - 8 x 8 cm
.
pintura de pedro miguel
fotografia de raquel patriarca
quinze.maio.doismilenove

photo grafia XXVI





"janela para o céu" 
à beira do rio douro - barrô - resende - régua

raquel patriarca
vinteenove.março.doismilenove

quinta-feira, 25 de junho de 2009

uma nova história

.no dia em que se descobre a
amizade

o sol brilha
a chuva cai

começa uma nova história
sem fim e sem idade


raquel patriarca
dezoito.junho.doismilenove

terça-feira, 23 de junho de 2009

quadra de s. joão I

.
é o são joão do porto
o meu santo preferido
tenho o fogo como filho
e o mar como marido


raquel patriarca
vinteetrês.junho.doismilenove

terça-feira, 16 de junho de 2009

madrugada


às vezes acordo antes da manhã
muito cedo
sem descanso e sem abrigo

já a alma não está comigo

os ossos doridos de sonhos
improváveis
o espírito cansado
despreparado

não tenho vontade de encontrar
esse dia estranho
que vai nascendo
devagar

queria que o tempo parasse
só hoje por favor
queria esconder-me e ficar de fora

mas talvez seja igual
despertar amanhã
assim como agora

sem ânimo e sem calma
os ossos tristes e o espírito manco
o corpo ainda sem alma


raquel patriarca
onze.junho.doismilenove

segunda-feira, 25 de maio de 2009

photo grafia XXV


"formas alternativas de arte"
casa de ló - travessa de cedofeita, nº 20 - porto

raquel patriarca
sete.maio.doismilenove

quarta-feira, 20 de maio de 2009

dicionário do diabo

nunca pensei que fosse possível ler um dicionário, literalmente, de a a z... não só não pensei que fosse possível como pensei convictamente que fosse impossível. e claro, estava enganada nas duas opiniões… que são a mesma opinião postulada de duas formas diferentes o que vem a dar uma opinião apenas.
... pois.
opiniões à parte, peguei no dicionário de uma estante da livraria por mera curiosidade, afeiçoei-me ao objecto que me cabia bem nas mãos e me fez sorrir em algumas poucas passagens que li. tive pena de o largar outra vez e acabei por trazê-lo comigo para casa. pousei-o na secretária e uma noite levei-o para cima, para a mesa de cabeceira. nessa noite não dormi e a culpa foi dele… quando cheguei ao m já eram quatro da manhã e tive de o pousar e pegar noutro livro. no dia seguinte saiu comigo de casa e andou a passear na mochila entre uma ou outra espreitadela: n, o, p… o p foi uma das minhas letras favoritas. enquanto fiz o jantar percorri as consoantes até ao u. antes da hora de deitar já tinha consumido o triunvirato v, x e z, o posfácio, as notas finais e restantes apontamentos em letras pequeninas.
é um dos livros mais surpreendentes e mentalmente estimulantes que já li. mergulha sem rede no mais puro da natureza humana. é irónico e verdadeiro, pertinente e universal, profundo e bem disposto.
repousa agora na estante dos notáveis, a lombada ao alcance dos olhos e da mão. deixo alguns excertos em jeito de cócegas cuja comichão se espera insustentável. a solução é ler – como eu fiz – o dicionário de a a z.
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ar, n. - substância nutritiva fornecida para engorda dos pobres por uma providência caridosa.
beladona, n. - em italiano, mulher bela; em português, um veneno mortal. um exemplo assinalável da semelhança entre estas duas línguas.
cínico, n. - um malandro cuja visão deficiente lhe apresenta as coisas como elas são, não como deviam ser.
dicionário, n. - dispositivo literário malévolo para impedir o crescimento da língua e para a tornar rígida e pouco flexível. este dicionário, no entanto, é uma obra muito útil.
economia, n. - adquirir o barril de uísque que não é necessário pelo preço da vaca que não se tem dinheiro para comprar.
, n. - crença, não baseada em provas, no que é contado por alguém que fala sem conhecimento de coisas sem paralelo.
gentileza, n. - breve prefácio a dez volumes de exigências.
história, n. - um relato geralmente falso de acontecimentos geralmente fúteis, contados por governantes geralmente velhacos e soldados geralmente tolos.
idiota, n. - membro de uma tribo grande e poderosa, que tem exercido uma influência dominante e controladora sobre os assuntos humanos. a actividade do idiota não se encontra confinada a uma área especial do pensamento ou da acção, mas atravessa e regula o todo.
justiça, n. - uma mercadoria que o estado vende aos cidadãos, em condições mais ou menos adulteradas, como retribuição pela sua obediência, pelos seus impostos e serviços pessoais.
liberdade, n. - um dos bens mais valiosos da imaginação.
mulher, n. - animal que vive habitualmente nas proximidades do homem e que é pouco susceptível à domesticação. das espécies predadoras esta é a mais amplamente disseminada, infestando todas as partes habitáveis do mundo, desde as graciosas montanhas da gronelândia à virtuosa costa da índia. a mulher é ágil e elegante nos seus movimentos, omnívora, e pode ser ensinada a não falar.
nepotismo, n. - nomear a própria avó para um cargo público, pelo bem do partido.
observatório, n. - sítio onde os astrónomos fazem conjecturas que invalidam os palpites dos seus antecessores.
poema, n. - amor – desejo – calor – beijo. é este tipo de coisas assim, este lixo miserável que nos faz gritar “basta! já chega!”, e usar frequentemente um grande e sonoro ____-__.
querida, n. - a chata do sexo oposto, numa fase inicial do seu desenvolvimento.
reflexão, n. - uma acção da mente, através da qual obtemos uma visão mais lúcida da nossa relação com as coisas passadas, ficando assim mais preparados para evitar os perigos que não voltaremos a encontrar.
santo, n. - um pecador morto, revisto e editado.
táxi, n. - veículo assustador no qual um pirata nos conduz aos solavancos por caminhos dúbios até ao sítio errado, para então nos assaltar.
ultimato, n. - uma última exigência antes de se recorrer a concessões.
vida, n. - uma espécie de salmoura espiritual que conserva o corpo, protegendo-o da decadência. vivemos constantemente com medo de a perder; e, no entanto, ninguém sente a sua falta quando a perde.
x, - sendo uma letra pouco necessária no nosso alfabeto, possui uma invencibilidade acrescida relativamente aos ataques reformadores da ortografia e, tal como eles, viverá tanto quanto a própria linguagem.
zelo, n. - um desarranjo de origem nervosa que atinge os novos e inexperientes. um entusiasmo que antecede um espalhanço.
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[dicionário do diabo / ambrose guinnett bierce, 1842-1914 ; selecção e tradução de rui lopes ; prefácio de pedro mexia ; ilustrações de ralph steadman. – lisboa : tinda-da-china, 2006. – 175, [1] p. : il. ; 19 cm. – isbn 972-8955-02-2.]
.
raquel patriarca
vinte.maio.doismilenove

segunda-feira, 18 de maio de 2009

photo grafia XXIV

"nature's way"
canto do telheiro - casa grande carlota - lugar do casal de cima - terras do bouro
raquel patriarca
dois.maio.doismilenove

terça-feira, 12 de maio de 2009

a herança

capítulo primeiro
uma caixa
.
era uma vez uma caixa, muito bem guardada numa velha arca de madeira de cânfora. não era uma caixa qualquer. era uma caixa muito especial. à primeira vista, para um olhar pouco atento ou desentendido, podia parecer uma vulgar caixa de papelão. uma caixa velha como todas as outras caixas velhas.
a verdade era bem diferente.
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pouco colorida, suja ou esfumada entre os cinzentos e os castanhos, tinha uma natureza discreta e serena. há já muito tempo alguém a tinha coberto de palavras recortadas em jornais, livros, revistas, sebentas de escola, cadernos de merceeiro e toda a sorte de papéis escritos.
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a base era um quadrado perfeito, equilibrado e estável. de cada canto partiam linhas direitas e firmes, arestas bem definidas que serviam de moldura às suas quatro faces gémeas.
a tampa, que encaixava como uma coroa na cabeça de um monarca honrado e justo, era simples, elegante e tinha as abas reforçadas a couro, como as cantoneiras de um livro antigo. exactamente no meio da face superior da tampa estava colado um pedaço de papel, amarelado e com os cantos recortados, onde letras manuscritas que traziam imagens de outro tempo, desenhavam uma única palavra:
.
pedro
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a tinta, já meio comida, inspirava memórias do tempo em que vivam na terra os grandes heróis. o pequeno rapaz passava muitas vezes os dedos sobre as letras como se fossem mágicas. ainda era um menino e nem sequer sabia ler ou escrever, mas reconhecia naquela palavra os desenhos que davam corpo ao seu nome. depois, sem nunca a abrir, pegava na caixa que mal lhe cabia nas mãozinhas e, com todo o cuidado, levava-a para o seu esconderijo secreto.
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mesmo na sua pouca idade tinha a consciência que dentro daquela caixa repousavam os tesouros mais preciosos que um menino pode ter e guardar.
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raquel patriarca
doze.maio.doismilenove

segunda-feira, 11 de maio de 2009

a conversa

.ontem tive uma conversa contigo. eu disse tudo o que pensava e sentia. fui sempre clara e coerente… nem parecia eu. tu reagiste exactamente como eu esperava. mostraste estranheza em alguns momentos e empatia noutros mas compreendeste a densidade de tudo: a fragilidade das minhas certezas, a força das minhas dúvidas, o significado dos meus silêncios. falámos de tudo e de nada. a cumplicidade envolveu todas as diferenças e a realidade foi tomando forma só na união das nossas palavras.
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depois, já muito tarde, tu chegaste e vieste deitar-te. abracei-te e tentei, com o calor do meu corpo, apagar o mundo de distâncias que existe entre nós e que todos os dias se alimenta de ausências e coisas que ficam por dizer.
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amanhã, pensei, talvez amanhã.

.raquel patriarca
onze.maio.doismilenove

quinta-feira, 7 de maio de 2009

o dia do passeio da escola

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era uma vez o quadrado de um dia,
onde, a meio do calendário, se lia:
“hoje é o dia do passeio da escola
pôr o lanche e o chapéu dentro da sacola”.
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foi a única manhã - no ano escolar inteiro -
que saí sozinho da cama... e fui eu o primeiro.
e lá fomos nós, todos contentes e ansiosos
conhecer coisas novas e lugares maravilhosos.
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entre mil gargalhadas, saltos e corridas,
brincadeiras tolas, novidades e cantigas,
museus, jardins zoológicos, planetários e castelos,
e parques de merendas com guarda-sóis amarelos,
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vivi coisas que vou, para sempre, recordar
e, tenho pena, mas não as posso agora contar -
porque este longo dia tão lindo e tão diferente -
acaba comigo a dormir com o prato de sopa na frente.
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raquel patriarca
sete.maio.doismilenove

quarta-feira, 6 de maio de 2009

photo grafia XXIII

"self made clown"
"se me vires cantando, canta comigo. se me vires chorando, sorri."
gabriel, o pensador em tás a ver
raquel patriarca
trinta.março.doismilenove

segunda-feira, 4 de maio de 2009

photo grafia XXII

"fora de casa"
casa grande da carlota - lugar do casal de cima - terras do bouro
raquel patriarca
dois.maio.doismilenove

photo grafia XXI

"santinha!"
edifício em aparente ruína - rua da misericórdia – encarnação – lisboa.
raquel patriarca
vinteeoito.abril.doismilenove

quinta-feira, 30 de abril de 2009

os blogues também têm amigos

queria partilhar dois ‘lugares’ especiais. espaços únicos onde fui encontrar muitas das coisas que mais me encantam no mundo: livros e leituras, arte e natureza, criatividade e beleza.

as tintas da maria é uma janela com portadas largas que se abrem para o atelier de uma amiga ilustradora, cheio das imagens doces e coloridas que dão vida, movimento e luz às actividades de ler, contar histórias, ser criança, mãe, pai, avô ou avó.
ela é, no fundo, a outra metade da brincadeira…
pois que tudo começa com:
era uma vez…

em pillowsbook é possível folhear pedacinhos do diário de bordo da vida de uma amiga bibliotecária, de olhos serenos e carinhosos, fotógrafa em horas nunca vagas, que inventou um brilhante conceito associado a uma belíssima palavra que alguém devia dicionarizar…
portographia, é um substantivo que vem do português porto - nome de cidade - e do grego γραφις [grafis] estilo, pincel ou γραφη grafê, e significa desenhar com luz…

enjoy.
raquel patriarca
trinta.abril.doismilenove

photo grafia XX

"contra-senso"
(pergunto-me se ler livros de arte será um bom começo para se deixar de riscar as paredes?… talvez não.)
livraria portugal - rua do carmo nº 70 - lisboa
raquel patriarca
vinteeoito.abril.doismilenove

quarta-feira, 29 de abril de 2009

fio da palavra

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tenho um amigo que um dia me disse: “no desespero absoluto, que nos levem tudo excepto o sentido de humor”. eu hoje acrescentaria: “que nos levem tudo excepto a capacidade de sonhar e a teimosia para realizar os sonhos.”
foi apresentada ontem em lisboa uma nova editora, que estará ao dispor dos visitantes da feira do livro já a partir de amanhã. com uma aposta nas ciências sociais e humanas em geral e na história em particular, o fio da palavra não é ‘mais do mesmo’. apresenta um plano editorial criterioso, interessante e pertinente, envolto no empenho e dinamismo reservado àqueles que sabem o que fazem e gostam do que fazem.
parabéns, sucesso e muitos livros.
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texto e fotografias
raquel patriarca
vinteenove.abril.doismilenove

segunda-feira, 27 de abril de 2009

sábado, 28 de março de 2009

como a traça para a chama

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qual é, afinal, a origem da natural tendência humana para o impossível? qual a razão da vertigem na beira do abismo? qual o embrião do desejo secreto pelo proibido? de onde vem a vontade de passear no cimo de um muro estreito e ver de um lado o que se tem por precioso e do outro a aventura que põe tudo em risco?
essa incrível atracção por coisas que não se pode ter e que talvez correspondam ao que delas se idealizou – ou então não... – transforma pessoas equilibradas e serenas em seres profundamente insones, estúpidos, inseguros, cismáticos, ridículos e extraordinariamente ligados à vida.
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raquel patriarca
dezassete.setembro.doismileoito

sexta-feira, 27 de março de 2009

eu fiz uma fada


"fada organívea"
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fada protectora de todos os meninos com muita imaginação, criatividade e conversa fiada, especialmente daqueles que gostam de inventar palavras, ideias, histórias e outras coisas afins.
...
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raquel patriarca
vinteesete.março.doismilenove

quarta-feira, 25 de março de 2009

espaços do passado

enquanto fui feliz, não me germinavam as saudades nas masmorras do crâneo. não sonhava com outro espaço. não me imaginava entre outras paredes. vivia entre lombadas carregadas de pó e não sabia que eram elas a origem do meu bem estar. agora que a sorte me sorriu faltam-me esses silêncios do passado. os cenários e os cheiros que me impregnam a alma e que deixei sem me despedir. e quando pensei que avançava e ganhava terreno, ficou-me o coração para trás e sem ele não me apetece continuar.
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raquel patriarca
dezoito.setembro.doismileoito

quinta-feira, 5 de março de 2009

um sorriso de papéis


linhas desalinhadas de
palavras.

contos de contar
e versos de rimar.

desenhos às cores
pintados
em dedos de magia.
caracóis de fantasia.

sombras de música
e danças de roda
em salpicos e memórias.

coisas engraçadas
e outras histórias.

estrelas perdidas no mar,
e árvores antigas a cantar.


princesas, fadas e dragões,
mais quarenta e sete ladrões.

é fazer séria a brincadeira.

ser criança
e ser herdeira
de contadores,
poetas,
jograis
trovadores
e menestréis.

dar-te um sorriso
feito de papéis.


para o flávio
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raquel patriarca
nove.fevereiro.doismilenove

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

photo grafia XIX

"world wide web"
a caminho de drave - serra da freita - arouca
raquel patriarca
catorze.fevereiro.doismilenove

uma palavra


era uma vez…

uma palavra pequenina:

como lua, céu ou mar.

com tantas histórias para contar
que brilha, cresce, voa, navega
e ensina os meninos a sonhar.

era uma vez…

uma palavra enorme:

como mundo, amor ou criança.
e não tem princípio nem fim
a magia que se espera
de uma palavra assim.


raquel patriarca
vinteecinco.fevereiro.doismilenove

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

comunicar

dou comigo, mais vezes do que seria desejável, a falar sozinha. mesmo quando penso que estou a falar com outras pessoas, as mais das vezes, estou a falar comigo própria. e até me dou ao trabalho de estruturar ideias e construir frases mais ou menos completas, mas na verdade é tudo acessório e desnecessário porque não me parece possível que consiga efectivamente comunicar para fora da minha pessoa. o que me leva a interrogar acerca da pertinência deste texto...
pois.
raquel patriarca
dezanove.fevereiro.doismilenove

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

fragmentoisas I

"um sorriso de papéis"
fragmentoisas - são coisas que nascem a partir de fragmentos de outras coisas
ao flávio
raquel patriarca
dez.fevereiro.doismilenove

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

photo grafia XVIII

"luz na noite"
campanário - convento do desagravo - aguiar da beira
raquel patriarca
novembro.doismileoito

sábado, 7 de fevereiro de 2009

uma página do diário

ontem foi a segunda manhã consecutiva que me levantei sem ter dormido (rigorosamente) nada. anteontem já fui menos coerente do que é costume (e já é costume ser pouco), mas ontem foi um dia de puro esforço e desespero. tudo se passou como se estivesse a mover-me num filme em câmara lenta forçada, como se toda a realidade fosse arrastada atrás de mim, notoriamente contrariada.
cada vez que pegava no carro respirava fundo e concentrava-me muito e depois… bem, depois conduzia exactamente como os homens dizem que as mulheres conduzem: sem reflexos, sem visão periférica e sem noção da profundidade.
todo o trabalho que fiz durante o dia foi do mais mecânico que na agenda se podia encontrar; não falei com clientes, não toquei em nada que pudesse estragar e não tomei decisões. e quando digo que não tomei decisões quero dizer que, em absoluto, não tomei qualquer decisão durante todo o dia. nada. não fui capaz de dar uma resposta decente a situação nenhuma. tipo “ – queres arroz ou batatas? – não sei…”.
a simples função da fala revelou ser de tal complexidade que não consegui articular uma só conversa de que me possa não envergonhar. para onde raio terão ido aquelas coisas que se usam para dizer coisas? que são letras juntas e que representam ideias e assim… está debaixo da língua, espera… palavras! é isso mesmo! onde é que elas estão?
é terrível. é incapacitante e redutor e terrível. é que já nem escrever consigo…
os livros não têm descanso na mesa-de-cabeceira. é um vê se te avias de pega, lê e anda, e já não sei onde os pôr. o problema é que não posso ler nada de sério ou verdadeiramente interessante porque, ao fim de uma semana disto, começo a misturar personagens, cenários e enredos numa só história que, a esta distância, me parece algo inconsistente…
brincadeiras à parte, vou ter de pôr a senhora dona insónia no topo da lista dos assuntos urgentes. prometo que sim. amanhã faço isso, que agora estou cheia de sono.
raquel patriarca
sete.fevereiro.doismilenove

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

las meninas

princesa margarida
.
filha de filipe IV de espanha e figura central de "las meninas" de velázquez, 1656

desejo de princesa

diz-me princesa,
o que tu desejas mais?

correr e gritar, corada e descalça,
o palácio de ponta a ponta.
ser menina de faz-de-conta.

despentear a brincadeira,
sem rendas e sem laços.
ter o riso e a chuva nos braços.

não pode ser princesa,
que ainda te descompões.

raquel patriarca
vinteedois.dezembro.doismileoito

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

photo grafia XVII

"folhas caídas"
capela de carlos alberto, avenida das tílias, jardins do palácio de cristal - porto
raquel patriarca
quinze.novembro.doismileoito