quinta-feira, 21 de março de 2019

Este ano nas Correntes d'Escritas















Mais Poetas, Mais Histórias e Mais Perguntas Como Uma Talvez Solução


Reunimo-nos por estes dias ao redor dos poemas de Sophia e, nesta mesa em particular, desafiados pelo verso: “este é o tempo em que os homens renunciam”. Tem vivido comigo este verso e revejo-me nele porque diz a verdade.
Este é o tempo em que os homens renunciam” parece-me, em partes iguais, um testemunho desencantado e um juízo acusador. Desencantado por haver, em todas as formas de renúncia, uma semente de puro desencanto. E acusador por me sentir culpada de praticar um escondimento muito gémeo da renúncia.
Sou culpada, e aqui me confesso, de renunciar à realidade. Comecei durante os anos de curso. Fui estudar História porque queria compreender os caminhos da humanidade. Perceber o que existe de comum, eliminar os equívocos que separam os povos mais do que as fronteiras. Acreditava no aprender com o passado e no projectar um futuro limpo de vergonhas. Mas, claro, a História estuda a realidade e não a utopia e isso desencantou-me muito.
Durante o primeiro ano, li a Poética de Aristóteles e, chegada à reflexão sobre “o ofício do historiador, de contar o que aconteceu, e o do poeta, de representar o que poderia acontecer,” comecei a desconfiar de que estava no curso errado. Não desisti, é verdade, mas aprendi a desertar um pouco, e fazia-o com os livros.
As leituras obrigatórias do curso – tudo bíblias absolutas assinadas por autores canónicos da historiografia académica, as leituras que garantiam brilhantismo nos exames – tinham quase sempre o efeito de me deprimir. Nas raras alturas em que não era assim, o sentimento de tédio chegava tão fundo que tinha verdadeira saudade dos tempos em que me deitava no quintal, com os olhos à altura da erva, e ficava a vê-la crescer.
Fui fugindo como pude nos corredores da Faculdade de Letras, evitava cruzar-me com os historiadores, os arqueólogos e os sociólogos que era obrigatório ler. Esquivava-me aos cientistas da política, da geografia humana e da estatística, essas almas atormentadas de números e percentagens. Assobiava para o lado aos vestígios e às fontes documentais, e nunca lia nada na forma diminuta e cruel das notas de rodapé.
Hoje, aqui, fico contente de evocar um outro verso de Sophia: o poema me levará no tempo”. Foi assim que acabei o curso: sempre que podia, trocava tudo por poemas.
No princípio era o Verbo, e a seguir veio Gilgamesh. Depois, estudei o Egipto de Christian Jacq e o mundo clássico nas epopeias de Homero e nas memórias que o imperador Adriano nunca escreveu. Aprendi a época medieval em Dante, Walter Scott, Umberto Eco e Ingmar Bergman. O Renascimento não renasceria sem os moinhos gigantes do Quixote de Cervantes, ou as dúvidas existenciais do Hamlet de Shakespeare. A França pertenceu a Victor Hugo que a entregou, mais tarde, a Balzac. Como a Rússia veio a ser de Tolstoi, Dostoiévski e Pasternak. Descobri a América nas mulheres perseguidas de Hawthorne e nas memórias de Calamity Jane, em Mark Twain, Salinger e, mais tarde, em Walt Wiltman e Emily Dickinson. Visitei a Inglaterra de Jane Austen e a de Charles Dickens. Li a ditadura espanhola nos poemas de Garcia Lorca, nos contos de Manuel Rivas, no Guernica de Picasso. O Desconhecido nesta morada de Kressman Taylor e O Rapaz do Pijama às Riscas de John Boyne confessaram-me os pecados da Alemanha nazi na Segunda Guerra. Não existe América do Sul sem Neruda e García Marques, nem Europa de Leste sem Kundera e Le Carré. Não existe Índia sem Tagore e Moravia, não existe Brasil sem Guimarães Rosa.
Bem sei que “a minha pátria é onde o vento passa” mas falta-me dizer que é nas cantigas de amigo que mora o nosso medievalismo. Que parte da alma portuguesa está no vernáculo desbragado a que eruditamente chamamos de Vicentino. Que não se encontra sentido nos Descobrimentos sem o Adamastor de Camões ou as crónicas de Fernão Mendes Pinto que inventou, pelo menos, metade do que escreveu. Já não existe nenhum arco junto ao oratório de Santa Ana, vi-o nas narrativas de Garrett, mestre das palavras e dos punhos de renda. São tantos os poetas, mas falarei apenas de mais dois. Porque são os versos de José Afonso que cantam os nossos anos de sombra, e porque são os versos de Sophia que fazem nascer “o dia inicial inteiro e limpo / onde emergimos da noite e do silêncio”.

Estes novos vícios acumulavam com outros, mais antigos e arreigados, de voltar aos livros da infância, como lugares de conforto. Sabia-me bem, sabe-me bem ainda, perder-me nas florestas assustadoras dos irmãos Grimm, visitar Lilipute, a Terra Média e o Asteróide B-612. Encher o jardim de gigões e anantes à procura de lagartinhas muito comilonas. Abrigar no sótão um dragão tímido, ter monstros escondidos no roupeiro, um tubarão na banheira e um tigre que vem só para tomar chá.
Talvez eu tenha feito o curso muito ao contrário o que, em certa medida, é adequado porque em nenhuma outra dimensão humana correm as coisas tanto ao contrário como na História. Ao contrário ou não, creio hoje que existe mais verdade nas palavras de um poeta do que em todos os livros de História. É que a História, proprietária de um enorme potencial de aplicabilidade prática, é torcida e instrumentalizada por um sem número de flancos, a que se dá o nome de perspectivas. Já a Poesia, por ter fama de ser inútil, é livre de se dedicar só à verdade.
E para que serve, afinal a poesia. Trago sempre comigo a resposta de um filósofo – Nuccio Ordine – que diz, simplesmente: A poesia não serve. Porque a poesia não é servil. A poesia só sabe libertar.
Pudesse a História ser parente mais chegada da poesia, e havia de nos servir, pelo menos, para enfrentarmos juntos o terror da morte / para ver a verdade e perder o medo”. E isto, é outro verso de Sophia. A mesma Sophia que trouxe um Cavaleiro da Dinamarca, que esculpiu um Rapaz de Bronze, que fez emergir a Menina do Mar.
Estou em crer que a poesia, a ficção, as histórias carregam a esperança da humanidade face à renúncia, mas consumidas pausada e pensadamente. E quanto mais cedo melhor. Porque é mais fácil encontrar um Evangelho Segundo Jesus Cristo numa biblioteca onde, em tempos, se plantou A Maior Flor do Mundo.
As formas de renúncia não são todas iguais. A modalidade de visitar o Valete de Copas e o Coelho Branco logo a seguir ao noticiário é uma pequeneza se comparada com outras. Se renunciar à realidade é grave. Renunciar ao sonho é uma catástrofe.
A pior de todas as renúncias, é a que vive nos neurónios das crianças.
Há poucas experiências tão desconcertantes como, na frente de crianças ou jovens, perguntar sobre sonhos, desejos e viagens, e ter de retorno um olhar distante, um encolher de ombros que dói como um murro no estômago. Fica-nos a alma ao dependuro, sem respostas e, pior ainda, sem perguntas. É a desistência mais feia porque é voluntária.
A questão não é estarem as crianças tolhidas de pensar ou dizer o que pensam. O problema é não desejarem nada. Não sonharem nada.
E a gravidade do problema um é que rapidamente leva ao problema dois ponto zero. Quando se têm as crianças em renúncia, alheias ao “horizonte vazio em que nada resta”, é certo que o vazio se preencha com toda a sorte de derivados da estupidez. Se o problema um é a indiferença, o problema dois é a incapacidade de distinguir o autêntico do falso, o essencial do acessório, o conteúdo da fachada, o que é bom e universal daquilo que é só o ponto absoluto de zero.
Ando por aí a defender mais poetas, mais histórias e mais perguntas como uma talvez solução. Estou a ser simplista, claro, mas a arma que resta contra a renúncia é o espírito crítico. Pensar muito e livremente, interpretar tudo à luz da liberdade pensante, tirar conclusões autonomamente, construir caminhos próprios. Para isso é preciso adestrar o cérebro como fazemos com as pernas quando aprendemos a andar.
Estaremos sempre expostos à ignorância e à malícia como à varicela. Só evitaremos o contágio se desenvolvermos anticorpos na nossa mente.
Faz de conta que vos vou contar uma história. Um pequeno exemplo para ilustrar os disparates que estou a dizer.
Todos sabemos que o conto sobre uma marioneta animada a quem Carlo Collodi chamou de Pinóquio tem por objectivo ensinar as crianças a nunca dizerem uma mentira, verdade? Sim, mas isso é só parte da verdade. E meia verdade é já uma mentira inteira. Conta-nos a dita história que, Pinóquio é um menino de madeira que quer ser um menino de verdade mas, por ironia, é demasiado imaginativo. Uma outra ironia esconde-se no facto de o pequeno Pinóquio ser o personagem mais honesto da história, por trazer incorporado e à vista de todos um infalível polígrafo. Por outro lado, os restantes personagens, pessoas verdadeiras todas elas, podem mentir quanto lhes apeteça sem que ninguém lhes aponte o dedo ao nariz.
A primeira camada do conto tem a moral simples de ensinar a não mentir, o que é sempre mais ou menos bonito. A segunda camada da história convida a reflectir nas muitas circunstâncias em que a falsidade se esconde, mascarando-se de outra coisa. E é esta, e não aquela, a ferramenta verdadeiramente útil para uma alma pensante.
Ficar só na primeira conclusão, é perder uma oportunidade de usar a inteligência e é perder a essência da história. É, no fundo, alimentar o ciclo de preguiça mental e de renúncia que vem atrás.
E agora, uma moral para a minha história. Talvez não haja nenhuma.
Ou talvez começando cedo e aos poucos, como no caminho de poetas e contadores de histórias que me trouxe, ao contrário, a um destino direitamente desenhado para mim.
Talvez evitando a obsessão do imediatamente útil e do materialmente compensador. Talvez percebendo que representar a realidade com cinismo é uma forma de falsidade pior do que a mentira.
Talvez mostrando às crianças os vários sentidos possíveis de uma história, em vez de as insinuar à renúncia da sua voz e a ter medo de errar.
Talvez levando para casa um poeta que nos deixe versos soltos escritos na alma. Talvez inspirando uma criança a dizer como Sophia, eu “sou o único homem a bordo do meu barco”.
Talvez, depois de Collodi venha Lewis Carroll e Sophia de Mello Breyner, e depois Homero e Shakespeare e todos os outros, e com eles o conhecimento crítico e verdadeiro sobre a História da humanidade. Se não da humanidade como conjunto de pessoas humanas, pelo menos da humanidade como sentimento que nos une a todos, para lá do tempo e do espaço que espartilham a História.
Talvez havendo mais dias como este, ao redor da verdade dos versos, possa haver no mundo mais crianças prontas a conhecer as “cidades acesas na distância” e menos homens que renunciam, sem perguntas, ao seu direito a sonhar.




dos sublinhados:
“este é o tempo em que os homens renunciam” de Este é o tempo; “o poema me levará no tempo” de O poema; “a minha pátria é onde o vento passa” de Pirata; “o dia inicial inteiro e limpo / onde emergimos da noite e do silêncio” de 25 de Abril; “para enfrentarmos juntos o terror da morte / para ver a verdade e perder o medo” de Para atravessar contigo o deserto do mundo; “horizonte vazio em que nada resta” de Horizonte vazio; “sou o único homem a bordo do meu barco” de Pirata; “cidades acesas na distância” de Há cidades acesas na distância, todos poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen.

quarta-feira, 21 de março de 2018

hoje é o dia da poesia

Todos os Livros

A partida – 
penso agora que cedo demais – 
empurrou-me ao mundo
livre, é certo, mas ausente de bagagem.
Talvez por isso tenha arrecadado
sem critério
os materiais que compõem a vida alheia.

As folhas amarelas e as estrelas de anis,
as cerâmicas e os monos de pano sem cor,
as vozes ao longe,
os búzios e as bússolas,
as cordas de mil nós.

Todos os livros.

E agora,
fósforo riscado,
farei um verso do mais puro nada.

raquel patriarca | março.doismiledezoito

quinta-feira, 8 de março de 2018

porque deus é uma mulher

Pulso Aberto 
Maria Rezende

Somos porta de entrada
e de saída
somos deusas e escravas
há mil gerações
Dentes afiados
no escuro de entre as pernas
veneno na ponta da cauda
bruxas putas loucas santas
Somos as que sangram sem ferida
donas do prazer
donas da dor
as invisíveis
as perigosas
as pecadoras
as predadoras
Insaciáveis e geradoras
os corpos secretas casas
somos seres de unhas e tetas
caminhando aos milhares as estradas
Somos a terra e a semente
carne de aluguel em alma de rainha
as submissas as bacantes
as que procriam e as que não
Somos as que evitam o desastre
as que inventam a vida
as que adiam o fim
mulher
multidão

por: Maria Rezende
in: Naquela Língua (cem poemas e alguns mais) : antologia da novíssima poesia brasileira. - Amadora : Elsinore, 2017.

quarta-feira, 7 de março de 2018

o sentido da oportunidade

Sentou-se ao meu lado no banco do jardim uma história tímida. Carregava, apesar da leveza aparente, uma concretude e uma dignidade merecedoras. De escrever e de contar. Trazia um personagem. Um só mas muito espesso e complexo, com toda a longevidade de tons entre o ódio de um sicário e a musicalidade de um anjo. Perdi-me de amores por ela – a história – e também por ele – o personagem. As mãos tremeram-me e todas as palavras se adivinhavam já em mancha fluente no que outrora havia de brancura em páginas novas. Mas o sol, que fora escasso por esses dias, aquecia-me agora de mansinho contra o banco do jardim. E eu, perdida de amores por ela – a história – e também por ele – o personagem – fechei os olhos e pousei as mãos trementes. Suspirei imóvel na quentura do dia e a história do personagem ficou, suspiradamente, por contar.

raquel patriarca | vinteeseis.janeiro.doismiledezoito

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

o booktrailer... ou teaser, ou whatever


Porto. Roteiro Histórico.
texto de Raquel Patriarca; fotografia de Sérgio Jacques.
Verso da História, 2016.

Para ler sem moderação ou ordem fixa. De preferência numa esplanada ou escadaria, numa igreja ou calçada, na ponte a meio do rio ou no alto de uma torre.
E por falar em Torre… é guardar a tarde de dia 28, por favor, sim? 

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A utilidade do inútil de Nuccio Ordine



























[a utilidade do inútil / nuccio ordine; tradução de margarida periquito; ensaio de abraham flexner; capa de andré da loba. – matosinhos : faktoria k dos livros, 2016. – 204 p. ; 14 cm. – colecção ágora k , 1. - isbn 978-989-99583-1-9.]




esta semana esteve em Portugal o professor Nuccio Ordine, uma daquelas pessoas que consegue, sem pestanejos nem hesitações, explicar, singela e acutilantemente, todas as coisas que eu levo metade da vida a ruminar e que queria aspergir ao planeta, com um vigor militante todas as manhãs na varanda da frente, mas não consigo. 

veio de visita e veio fazer sessões de lançamento do livro A utilidade do inútil. as sessões, que tiveram lugar em Coimbra, no Porto e em Lisboa, transformaram-se numa espécie de aulas de humanidade e de amor à cultura e à arte, cheias de palavras muito sábias e muito sentidas, as mesmas palavras que urgentemente se devem entregar a este mundo que me parece caminhar tão ao contrário.

o livro é, evidentemente, de leitura e absorção obrigatórias.

fica uma pequena biografia do professor Ordine, de quem gostei muitíssimo e só tenho pena de não lho ter conseguido dizer. não foi o eu falar tão pouco italiano como ele fala português, foi mais aquela falta de presença de espírito de que sofro endemicamente. aquele entupimento patético de quem quer dizer tudo e percebe, de repente, que se esqueceu do próprio nome…

fica, também, a sinopse divulgada pela Faktoria K de Livros, uma chancela da Kalandraka Portugal, responsável por esta excelente iniciativa editorial que vem resolver-nos todos os dilemas para as ofertas de natal. 

gingóbel. 

Nuccio Ordine (Diamante, Calabria, 1958) 
Professor, filósofo e especialista do período do Renascimento e da obra do pensador Giordano Bruno, Nuccio Ordine é docente de Literatura Italiana na Universidade de Calabria. Colabora com diversas instituições académicas europeias como o Centro para o Estudo do Renascimento Italiano da Universidade de Harvard ou a Fundação Alexander von Humboldt, e escreve periodicamente no diário Corriere della Sera. É autor de diversos livros traduzidos e publicados em vários países. Em 2007, recebeu o Prémio Rombiolo pelo livro Contro il Vangelo armato. É membro honorário do Instituto de Filosofia da Academia Russa de Ciências e foi, ainda, agraciado com os títulos de Cavaleiro da Legião de Honra de França e de Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana, bem como com o grau académico de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul no Brasil. 

Sinopse 
"Existem saberes absolutos que – precisamente pela sua natureza gratuita e desinteressada, longe de qualquer vínculo prático e comercial – podem ter um papel fundamental na educação do espírito e no desenvolvimento cívico e cultural da humanidade. Dentro deste contexto, considero útil tudo aquilo que nos ajuda a tornarmo-nos melhores…"

A utilidade do inútil é um manifesto que reúne citações e reflexões que Nuccio Ordine foi armazenando ao longo da sua vasta experiência como professor e investigador. Esta obra está estruturada em três partes: uma primeira que aborda a útil inutilidade da literatura, para a qual contribuem as considerações de uma série de personalidades da esfera da cultura que, ao longo da história, se debruçaram sobre este tema; uma segunda parte que analisa a repercussão da lógica do lucro no mundo do ensino, da investigação e das atividades culturais em geral, na perspetiva daquilo a que o autor qualifica criticamente como “universidade-empresa” e “alunos-clientes”; e uma terceira parte que congrega a voz de alguns clássicos para mostrar o papel ilusório da posse e os seus múltiplos efeitos devastadores sobre a dignitas hominis, o amor e a verdade, através da promoção daquilo a que Ordine apelida de “ilusão da riqueza” e “prostituição da sapiência”.

Nuccio Ordine rejeita a ditadura do lucro e do utilitarismo, que invadiu o nosso quotidiano, e propõe uma profunda reflexão sobre a importância daqueles conhecimentos que, aparentemente, não produzem benefícios materiais numa sociedade global em que só é considerado útil aquilo que é passível de ser transformado em rendimento monetário ou num outro tipo de compensação material e quantificável. Face à crise do sistema, este livro convida os leitores a pensar que – agora, e mais do que nunca – são necessários esses saberes que alimentam o espírito, que reivindicam o bem comum, o respeito pelo próximo, a solidariedade e a paz.

A utilidade do inútil é um manifesto atual e desafiador que apela à luta contra a corrupção causada pelo dinheiro e pelo poder.



quarta-feira, 9 de novembro de 2016

entre 1989 e 2016 passaram vinte e sete anos



Hoje é dia nove de novembro de dois mil e dezasseis e, pelas nove da manhã, li a notícia de que a alimária alarve do Donald Trump tinha vencido as eleições presidenciais nos Estados Unidos da América. (Vou passar à frente a cena das 9 horas da manhã do dia 9 de 9embro e da associação esotérica ao número da besta ao contrário.)
Primeiro foi o choque, depois a incredulidade, depois outra vez o choque, depois o medo, a revolta, a tristeza e, finalmente, a negação. Por essa altura, decidi só trabalhar muito e fazer de conta que não foi nada. Que o dia não aconteceu. Trabalhei e fiz de conta muito mal, como seria de esperar. Falei com uma amiga (foi a Teresa Castro) que estava tão triste e assustada como eu. Ambas incapazes do consolo mútuo que era preciso. Entretanto fui correr e ocorreu-me algo que disse uma vez o Pedro Mexia, e que explicava a compulsão de escrever pela necessidade de fazer sentido das coisas. E agora, ocorre-me escrever o seguinte.
 
Tenho um amigo, com quem também falei hoje, historiador como eu mas melhor ele não me deu ordem de citação por isso ficará anónimo (foi o Flávio Miranda) que, perante o meu choque, medo e tristeza, apontou o sentimento mais positivo do privilégio que é, para os profissionais da nossa arte, poder testemunhar e, quem sabe registar, qual era a palavra?... pois, o Apocalipse.
 
Eu sei que ele estava a brincar com aquelas coisas da ironia e do riso. Quem ri não tem medo, e isso tudo. Também sei que, no metatexto, ele esconde (às vezes não esconde) uma daquelas palavras gordas que dão jeito quando vamos descalços contra a esquina da cama, que começam em f acabam em e, e no meio tem oda-s. É, digamos, a palavra do dia. O problema é que os palavrões não me servem. Nem para desabafo nem para consolo.

Eu acordei a sério para a política e para o mundo em 1989, com a libertação de Nelson Mandela e a queda do Muro de Berlim. Tinha quinze anos, ainda não votava mas sentia o arrepio da expectativa de algo bom. Um arrepio como aqueles que sentimos ao ouvir a Carmina Burana, cantada ao vivo por um coro que está de pé a três metros da nossa testa.
Houve outros arrepios assim nos anos que passaram. Momentos universais e heróis que reconhecia e admirava como tal. Houve aquela manhã em que dei um beijinho ao Xanana Gusmão já depois do Prémio Nobel da Paz. Mas também é verdade que, nos últimos anos, dependemos cada vez mais do Cristiano Ronaldo para podermos apontar um herói universal que seja imediata e universalmente reconhecido. A evolução natural desta situação é que se vá perdendo a capacidade de reconhecer um herói. Ou um vilão. Ou um monte de excremento.
 
De volta ao apocalipse, e ainda a correr, lembrei-me daquelas séries sobre invasões de zombies. Não são ficção científica. São uma metáfora de má qualidade para aquilo que já aconteceu. Os zombies somos nós. A massa decisória que não tem capacidade de decisão. Uma humanidade de criaturas que, em vez de torcidas e ensanguentadas nos bracinhos, caminham muito direitas e penteadas, (ou com capachinhos ridículos), completamente estropiadas dos miolos. Desfigurados do poder de análise e de crítica, da capacidade de ponderar responsabilidades e consequências. Deficientes de saber exactamente aquilo sobre o que estamos a opinar. 
É a diferença entre sermos enganados e deixarmo-nos enganar. É a diferença entre algures acreditar num vilão e votar num farsante. Porque um vilão, digno do adjectivo, tem de ter qualidades – o inteligente, o ardiloso, o que for – para as dedicar à prática do mal. Este espécimen não vale nada. Queria fazer uma analogia com cuspo ou assim, mas não há nada. É tudo falso. É, em tudo, falso.

A questão é que o eleitorado que elegeu Donald Trump não nasceu do chão durante os meses da campanha. É formado pelas mesmas pessoas que vêm, há décadas, a proibir a leitura da Alice no País das Maravilhas e do Winnie the Pooh, com o argumento de que dar alma e fala aos animais é pecado. E a geração seguinte vai ser criada por esta até à idade do voto, com a agravante de nunca ter lido a Alice ou o Pooh. É formado pelas mesmas pessoas que se confortam com a ilusão de que são melhores que os outros. Sendo os outros aqueles esquisitos que falam uma língua diferente, ou têm outra cor, ou outra religião, ou outro estilo de vida, que tomam decisões e seguem caminhos diferentes (como se atrevem?). É formado pelas mesmas pessoas que se acham mais merecedoras de recursos, de empregos, de regalias. Que se acham mais senhoras do mundo. Ainda que desconheçam por completo esse mundo que o Universo, por alguma razão, lhes deve. São aquelas pessoas que todos conhecemos e que dizem, muitas vezes, que é preciso mudar ‘as coisas’. Para, logo a seguir, apontarem – nos outros – ‘as coisas’ que é preciso mudar. Nunca em si. Cada uma é, claro, um exemplo acabado de perfeição. Um modelo a replicar e a impor.
 
O pior inimigo é, evidentemente, a ignorância. É investir em reality shows em vez de documentários, e em telemóveis topo de gama em vez de livros. Com isto não quero dizer que só se deve assistir a cinema francês e teatro clássico. Parece estúpido dito assim (e é preciso não entender nada como absoluto), mas a minha geração usufruiu de um treino maravilhoso de intelectualidade televisiva que contava, em horário nobre, com os Monty Python e os Jogos Sem Fronteiras.
Hoje, até os noticiários são burros. E os debates, mais burros ainda. Moderados por gente burra, que convida mais gente burra e, naqueles casos raros em que aparece alguém a fazer um comentário sério, o burro do moderador vem logo distorcer e anular tudo, para que, ‘lá em casa’, os burros (que somos nós) possam entender... ou para que não mudem de canal.

Quanto mais fácil for a manipulação das nossas cabeças, mais fácil será preverter a democracia.
É o mesmo de sempre e basta não fazermos nada. É só esperar e mais nada. A porcaria vai levedando e, em breve, o Donald Trump não passará de uma primeira onda no imenso oceano de esterco em que o futuro nos vai mergulhar.
Nada é assim simples, claro. Mas hoje não dá para mais. Hoje é impossível a poesia e sinto o arrepio de expectativa de algo mau. Não consigo encontrar, em lado nenhum, o herói que me há-de repor a esperança. Nem quero historiar o Apocalipse. Não sei, sequer, como hei-de explicar tudo isto ao meu filho, só assim de conversa e sem notas de rodapé. E sim, o Cristiano Ronaldo seria, de longe, uma melhor escolha para a presidência dos Estados Unidos. Seja como for, é tudo indiferente. Isto tem muitas linhas e ninguém vai ler até ao fim. 


raquel patriarca | nove.novembro.doismiledezasseis