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sábado, 12 de outubro de 2013

a minha mãe chama-se Conceição


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A minha mãe chama-se Conceição e o nome da minha mãe não é só um nome. É uma palavra de simplicidade nenhuma, com passados latinos e bíblicos, sons estranhos e compridos. É uma palavra de conceito muito largo com sentido de criação e começo, de ideias primordiais e possibilidades imensuráveis. A minha mãe Conceição é uma pessoa assim imensa. Muito larga de sentidos, primordialmente boa e incomensurável. Traz com ela a criação e o começo de todas as coisas, a possibilidade de todas as ideias e de todas as formas de as realizar. A minha mãe Conceição é o meu começo e o meu abrigo. O colo primitivo dos meus sentidos e ideias. Ela é o meu conceito de ser gente e de ser boa e serena e a vontade de ser assim em tudo. Assim como um começo, largo de sentidos e incomensurável de amor. Assim completa como a minha mãe Conceição.
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raquel patriarca | doze.outubro.doismiletreze
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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

à minha mãe

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quisera inventar-me de
melancolias e espaços vazios
dos nomes de aves e flores -
que entretanto esqueci -

fica-me só o desejo
da liberdade, de ser
em ti

r.p.|trintaeum.janeiro.doismileonze
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depois da leitura de:
à minha mãe|Dalila Moura|in "varandas de luar"|p.48
dedicado à Dalila e - evidentemente - à minha mãe
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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

diálogo

e eu disse: então é assim? teimas em não lavar os dentes? pois ficas a saber que te vou castigar. porquê, perguntou ele muito calmo. porque me desobedeceste, era eu a constatar o óbvio. voz serena e o rosto firme. desobedecer à mãe é a pior coisa que alguém pode fazer na vida, continuei num daqueles entusiasmos naturais das pessoas que, como eu, são dadas ao exagero. ele parou a meio do corredor e voltou-se, sério. solene, suportei os cinco segundos de silêncio daquele momento de revelação essencial na descoberta de um quadro de valores e referências, futuros alicerces estruturais do carácter do meu filho.
olha mãe, a voz dele era mais funda e solene que a minha, usar peúgas com sandálias é muito pior.

voltei para a cozinha.
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diálogo de peúgas
numa manhã entre vinte e quatro de agosto e trinta de setembro de dois mil e dez
raquel - mãe, trinta e seis anos
pedro - filho, seis anos
r.
oito.setembro.doismiledez

sexta-feira, 19 de março de 2010

perguntas incisivas sobre a origem da vida

– ó mãe – disse ele, a voz cheia de angústia e a boca cheia de sangue – porque é que temos que mudar de dentes? eu não me sinto preparado para isto…
limpei-lhe as lágrimas dos olhos e o sangue dos lábios. – não chores, querido. tudo isto é normal. – a voz doce e a conversa tranquila chegavam-me de longe, numa espécie de ligação sem fios ao poder mágico que têm as mães de fazer passar dores e tristezas. – estás a crescer e vão nascer dentitos novos…
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.– eu já sei essas coisas todas e não é disso que eu estou a falar. – o olhar dele mudou de um desamparo suplicante para uma determinação exigente. a condescendência e a presunção morreram-me nos lábios enquanto me senti a corar. por momentos acreditei que me fosse mandar à fava mas ele continuou.
– quem é que nos deu a vida e quem é que fez o mundo? – interrompeu-se-me a magia num instante. pareceu que me ficava o discurso a arranhar a garganta e a saber ao que saberia a estática, se a estática fosse um sabor em vez de ser um som ou uma corrente eléctrica sem definição ou substância. – as árvores e o mar e as coisas, – as palavras saiam-lhe em atropelos indignados – porque é que quem fez tantas coisas nos fez de maneira a termos de mudar de dentes? – rebolou-lhe outra lágrima gorda que eu segui até lhe pingar do queixo. – isto dói, mamã!
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na palma da mão aberta estava um incisivo do tamanho de uma pedrinha de sal. assim estendido como um inacreditável destroço de vida, a prova acabada da falta de sentido e coerência nas coisas do mundo, a consciência clara da miserável pequenez que marca a condição humana.
abracei-o muito e não fui capaz de lhe dizer mais nada. pensei só que, se calhar, não me sinto preparada para isto…
raquel patriarca
dezanove.março.doismiledez