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sexta-feira, 6 de março de 2020

Escutava o Crescer do Tempo*

pequena viagem de regresso
às palavras que Sophia escreveu para a infância


A Página da Educação | Inverno 2019 | Nº 214

Era uma vez.
Todos os contos infantis de Sophia começam assim. Era uma vez… Todos excepto, claro, aquele que começa por “A Dinamarca fica no Norte da Europa”. E esse é o meu preferido.
Escrevo estas linhas já muito perto do fim da tarde do dia 6 de Novembro de 2019. O fim de tarde em que passam cem anos sobre o nascimento de Sophia. Um centenário que, sem nenhuma razão plausível, sinto que me toca de muito perto. Como se fizesse parte de mim, ou eu parte dele. Como se Sophia, eu, Oriana, a Menina do Mar, Ruy, o Cavaleiro e todos os outros fizéssemos parte da mesma família. Todos habitantes de uma só alma como de uma casa onde a porta, sempre aberta, é feita de braços em espera.
Naquele momento sensível e silente que antecede a escrita, fiz rodar o puxador numa outra porta, sentei-me no chão em frente a uma estante, e, cumprimentando-os um a um como a velhos amigos, fui reunindo no colo os contos de Sophia, estações de uma pequena viagem de regresso às palavras que escreveu para a infância. Para a minha infância. Abri-os e reconheci-os com vagar. As ilustrações e o toque do papel.
Quando eu era pequena, quando conheci pela primeira vez a Fada Oriana e o Cavaleiro da Dinamarca, Sophia era para mim essa escritora com palavras descomplicadas, que soavam tão bem ao contar, e que traziam tão claros os cenários à minha cabeça. Depois, como o tempo, também eu fui crescendo. Mais tarde, conheci uma outra Sophia. A poetisa e ensaísta. Lia-a e admirava-a de longe, perfeita, luminosa, etérea. Não conseguia imaginá-la a ocupar as mãos em coisas mundanas, a dobrar roupa ou a fazer arroz. Estou até certa de que, calhando de estarmos só as duas, sentadas na frente uma da outra, numa mesma sala, eu seria incapaz de lhe dizer uma só palavra.
“A poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. […] E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.” Foi assim que se deu a ler em Arte Poética II e, para mim, Sophia passou a habitar a substância do poema.
E agora, com estes livros de volta no meu colo (alguns meio desfeitos, um par deles novos por terem vindo substituir outros, entretanto perdidos), volto a senti-la muito perto. Tão perto que juraria nunca ter havido distância ou ausência.
Inesperadamente, mais do que reencontrar a minha Sophia nos meus livros, reencontrei-me a mim nos livros dela. Descobri que, afinal, sempre fizeram, e fazem ainda, parte da minha casa. Aquela mesma casa em abraço, que se constrói connosco por dentro e passa a morar em nós.

Certa vez, ouvi a Hélia Correia, brilhante escritora – tenho para mim que os escritores partilham uma alma muito grande, como partes de algo maior e, por isso, gosto de os escutar como quem escuta a canção da chuva. Ouvi a Hélia Correia, dizia eu, que comparava as palavras de Sophia a tesouros que corremos o risco de estragar assim que lhes tocamos. Invocava a circunstância de vermos brilhantes, belas e intocadas as pedrinhas na beira do mar, cobertas por uma camada fina e transparente de água. Se nos apropriarmos delas, se estendermos as mãos para lhes pegar, começam logo a perder o brilho e a beleza de antes. Reconheci muita verdade no que ouvia mas, ao mesmo tempo, senti o pensamento fugir-me para as páginas d’A Menina do Mar, senti-me de pés molhados e frios, em descoberta dos carreirinhos de água que correm pela praia. Havia pedrinhas e conchas e eu peguei em todas para as guardar para mim, enquanto na minha cabeça soava uma voz delicada que dizia “Tu nunca foste ao fundo do mar e não sabes como lá tudo é bonito. Há florestas de algas, jardins de anémonas, prados de conchas. Há cavalos marinhos suspensos na água com ar espantado, como pontos de interrogação. Há flores que parecem animais e animais que parecem flores. Há grutas misteriosas, azuis-escuras, roxas, verdes e há planícies sem fim de areia fina, branca, lisa” (A menina do mar, p. 15).
E que livres eram o Menino da Terra e a Menina do Mar. Que livres eram Ruy e os ciganos. Como os meus pensamentos que voavam entre o fundo do mar e os prados onde as “fontes corriam em cascata, o musgo cobria as pedras enormes, um curto vento agreste surgia entre as árvores” (Os ciganos, p. 22). E enquanto Ruy “à noite abria a janela do seu quarto, respirava o vento que vinha de longe, olhava as estrelas e pensava na liberdade” (Os Ciganos, p. 9), eu sonhava também, com tantas coisas que já nem me lembro, tanto me fazia que fossem possíveis ou impossíveis. Porque os sonhos, como os ciganos do conto, não sossegam. “Nós não moramos aqui nem em nenhum outro lugar [...] Nós não moramos, nós vamos” (Os ciganos, p. 23). E eu ia também, do fundo do mar para os bosques encantados, e daí para os parques e jardins onde as árvores eram todas muito dignas e as flores todas muito humanas. Onde as estátuas sonhavam durante o dia e ganhavam vida pelas horas da noite. Onde a alegria chega a todas as criaturas por igual e “tudo é uma festa: é uma festa o orvalho da manhã, é uma festa a luz do sol, é uma festa a brisa da tarde, é uma festa a sombra da noite” (O Rapaz de Bronze, p. 24).


Os três Reis do Oriente | ilustração de Noronha da Costa
cortesia da Editora Figueirinhas

Certa vez ouvi o professor Diogo Alcoforado, brilhante filósofo – tenho para mim que os filósofos partilham uma alma muito grande, como partes de algo maior e, por isso, gosto de os escutar como quem escuta o beijo do vento. Ouvi o professor Diogo Alcoforado, dizia eu, a realçar o cuidado rigoroso e comprometido de Sophia, a forma como convivem interligadas as dimensões ética e estética em tudo o que escreveu. Reconheci muita verdade no que ouvia e senti o ecoar dos versos de amor pela verdade, pela integridade, pela dignidade. “Porque os outros se mascaram mas tu não / Porque os outros usam a virtude / Para comprar o que não tem perdão / Porque os outros têm medo mas tu não” (Porque os outros se mascaram mas tu não, Mar Novo, 1958) e “Com fúria e raiva acuso o demagogo / E o seu capitalismo das palavras // Pois é preciso saber que a palavra é sagrada / Que de longe muito longe um povo a trouxe / E nela pôs sua alma confiada” (Com fúria e raiva, O Nome das Coisas, 1977).
E, porque os contos trazem a mesma medida de ética e estética, lembrei-me da pequena ironia escondida nos dilemas da Isabel e do Anão d’A Floresta que, na necessidade de encontrarem alguém verdadeiramente merecedor de receber o grande tesouro (que fora de malfeitores e, depois, de frades, para se quedar, finalmente, à guarda do Anão e da Menina), tenham encontrado apenas dois homens dignos. O músico professor que também faz versos, e o cientista que tem tanto de sábio como de louco. “Quando fores crescida – disse o professor de música – escreve esta história. As coisas que passam ficam vivas para sempre numa história escrita” (A Floresta, p. 67). E é tal e qual assim. As coisas que passam ficam vivas na história escrita e ficam vivas em nós que a lemos. Mesmo sem nos apercebermos do que está a acontecer, as histórias vivem em nós, e não faz diferença que contem “coisas que passam” ou que se imaginam.
E não são só as histórias, são também as personagens.
Percebi, algures durante esta minha viagem, que tenho andado a seguir as pisadas da pequena Oriana. Parece infantil, bem sei, mas era uma criança quando a conheci e, sem nunca duvidar da sua real existência, tive muita pena de não ser capaz de a ver para podermos brincar as duas. Era muito arrumado aquele seu mundo de bem e de mal, como se alguém o tivesse penteado de risco ao meio. “Há duas espécies de fadas: as fadas boas e as fadas más. As fadas boas fazem coisas boas e as fadas más fazem coisas más” (A Fada Oriana, p. 7). São palavras tão simples e directas, tão categóricas que é quase impossível uma criança não entender que lhe dizem: tens aqui dois caminhos, vês? Agora vai e escolhe um. Que bonito era pensar que “as fadas boas regam as flores com orvalho, acendem o lume aos velhos, seguram pelo bibe as crianças que vão cair ao rio, encantam os jardins, dançam no ar, inventam sonhos e, à noite, põem moedas de oiro dentro dos sapatos dos pobres” (A Fada Oriana, p. 7). Deve ter sido logo no fim do parágrafo que eu, criança ainda, decidi que havia de ser uma fada boa. Isso mesmo. Quando for grande quero encantar os dias e encantar as noites. Claro, não sei como manipular o orvalho nem sei onde hoje se arranjam moedas de ouro para esconder nos sapatos dos pobres, mas há sempre algo menos metafórico que pode melhorar o dia alguém. Uma palavra, um abraço ou um sorriso. Sobretudo um sorriso. Ou uma história bem contada, um xaile feito de tricô e ternura. Procuro, mais do que qualquer outra coisa, não dar muita importância a pérolas e cumprir as minhas promessas. Claro que eu, como a Oriana e, suponho, como a maioria das pessoas, tenho perdido muitas vezes as asas. E, também, como ela, procuro recuperá-las, com teimosia e dignidade, em doses talvez iguais.
Percebo agora que trago a Oriana ao colo, ou, então, é ela que me carrega ao colo a mim. Aprendi com ela que é fácil ser-se digno quando o mundo nos confere dignidade; o desafio está em sermos dignos mesmo quando nos tratam indignamente.
E claro, esconde-se cá em casa (quem sabe, reflectida entre os copos do louceiro) a pequena Joana que, fiel ao amigo e perante a oportunidade de fazer um gesto inteiramente bom, não conseguiu esperar pelo nascer do sol. “Amanhã vou-lhe dar os meus presentes – disse ela. Depois suspirou e pensou: Amanhã não é a mesma coisa. Hoje é que é a Noite de Natal. […] Hoje, – pensou – tenho de ir hoje. Tenho de ir lá agora, esta noite. Para que ele tenha presentes na Noite e Natal” (A Noite e Natal, p. 24-25).

Certa vez ouvi a Luísa Malato, brilhante professora – tenho para mim que os professores partilham uma alma muito grande, como partes de algo maior e, por isso, gosto de os escutar como quem aguarda as ondas do mar. Ouvi a Luísa Malato, dizia eu, falar da inequívoca dimensão literária de toda a escrita de Sophia. Reconheci muita verdade no que ouvia e senti-me transportada para o passado longínquo em que viveram os Reis a quem chamamos de Magos. Revivi a sensação de, criança ainda, receber um texto que parecia escrito entre iguais. Nenhum sintoma de pequeneza, palavras apenas, numa beleza clara de luz e de espanto.
“Escutava o crescer do tempo [dizia]. A solidão criava em seu redor um transparente espaço de limpidez onde os instantes avançavam um por um e o universo inteiro parecia atento. O silêncio era como a mesma palavra inumeravelmente repetida” (Os três Reis do Oriente, p. 13). Quando eu era criança, nós não estávamos habituados a que nos escrevessem assim e era, numa palavra, encantador.
Mais do que as palavras, as preocupações eram elevadas, os sentimentos eram complexos. Era impossível não me sentir a crescer, igual ao tempo, igual aos sonhos dos Reis que, em vigília, aguardavam a chegada da estrela. “A cidade dormia, escura e silenciosa, enrolada em ruelas e confusas escadas. Na grande avenida dos templos já ninguém caminhava. [...] E sobre o mundo do sono, sobre a sombra intrincada dos sonhos onde os homens se perdiam tacteando, como num labirinto espesso, húmido e movediço, a estrela acendia, jovem, trémula e deslumbrada, a sua alegria” (Os três Reis do Oriente, p. 29).
E, depois, há aquele jeito único de escrever as árvores, o mar, a lua como ninguém mais escreve. De elevar à categoria de maravilhas as essências mais simples. “O povo dessa ilha sentia-se feliz e orgulhoso por possuir uma árvore tão grande e tão bela. Uma árvore enorme que crescia numa ilha muito pequenina” (A árvore, p. 11). Eu lia e acreditava na simplicidade de ser feliz. E, mesmo quando a árvore se transformou em barca, o contentamento perdurou porque “às vezes, nas noites calmas de Verão ou de Outono grupos de pessoas embarcavam e iam até ao largo ver a lua cheia sobre o mar” (A árvore, p. 21). Hoje ainda acredito que a felicidade há-de ser algo simples. Mas também compreendo como é fácil ver tudo a complicar-se à nossa frente, como nuvens que escondem as ramadas das árvores e o reflexo da lua no mar, e tenho muitas saudades da simplicidade feliz que, na maior parte dos dias, só vivem nas páginas dos meus livros.


A Noite de Natal | ilustração de Júlio Resende
cortesia da Editora Figueirinhas

Certa vez ouvi a Ana Luísa Amaral, brilhante poetisa – tenho para mim que os poetas partilham uma alma muito grande, como partes de algo maior e, por isso, gosto de os escutar como quem sente o estender dos raios de sol. Ouvi a Ana Luísa Amaral, dizia eu, que falava do Cavaleiro da Dinamarca e contava passagens inteiras de memória como a dizer poemas. Mostrava o poder de encantamento que têm as palavras de Sophia, de como nos dançam nos sentidos antes mesmo de lhes darmos o sentido que trazem às frases. Reconheci muita verdade no que ouvia e pensei em como a viajem do Cavaleiro nos leva a conhecer as palavras e histórias encantadas de outros poetas, de outros sonhadores. Distinguimos os ecos de Shakespeare e de Dante, os traços e as cores de Giotto, as descobertas e desventuras de Pêro Dias, irmão de Bartolomeu, aquele que transformou, para sempre, a Tormenta em Esperança.
Guardo muita ternura àquele viajante que ouço, com a toada doce e pausada da Ana Luísa Amaral, a rezar “pelo fim das misérias e das guerras, […] pela paz e pela alegria do mundo.” Tenho-lhe ternura porque quer ser bom, porque “pediu a Deus que o fizesse um homem de boa vontade, um homem de vontade clara e direita, capaz de amar os outros” (O Cavaleira da Dinamarca, p. 11). Não me é fácil a fé que acompanha o Cavaleiro, que acompanhava Sophia, mas reconheço a verdade intrínseca nos propósitos dele e nas palavras dela.
Não sei bem o que é. Talvez o gostar muito do Natal, talvez o gostar desmesuradamente de ter junta toda a família, mas a demanda do Cavaleiro da Dinamarca toca-me em todas as cordas e deixa-me sempre a precisar de um abraço.
Quem sabe se é a resistência para fazer cumprida a promessa de retorno. Aquele sonho de completude, o sentimento tão humano, essencial e familiar de vencer a lonjura, a mudez e a escuridão em que tantas vezes nos perdemos. O desejo de fazer recuar a treva, de ver “a maior árvore da floresta coberta de luzes” (O Cavaleiro da Dinamarca, p. 72). Uma árvore como um farol de milagre que é sempre possível para todos. Uma claridade muito alta e muito forte, a luz e que, finalmente, nos carrega de volta a casa.


Raquel Patriarca
in: A Página da Educação | Inverno de 2019 Nº 214 | pp. 46-49

esta viagem faz paragem nas seguintes estações:

*Os três Reis do Oriente, p. 13.
A Menina do Mar. Il. Luís Noronha da Costa. Porto: Figueirinhas, D.L. 2004.
A Fada Oriana. Il. Teresa Calem. 37ª ed. Porto: Porto Editora, 2014.
A Noite de Natal. Il. Júlio Resende. Porto: Figueirinhas, 2004.
O Cavaleiro da Dinamarca. Il. Armando Alves.37ª ed. Porto: Figueirinhas,1994.
O Rapaz de Bronze. Il. Fedra Santos. Porto. Figueirinhas, D.L. 2004.
Os Três Reis do Oriente. Il. Fedra Santos. Porto: Figueirinhas, D.L. 2002.
A Floresta. Il. Teresa Olazabal Cabral. 35ª ed. Porto: Figueirinhas, 2004.
A Árvore. Il. Armando Alves. 10ª ed. Porto: Figueirinhas, 1999.
Os Ciganos. Co-aut. Pedro Sousa Tavares. Il. Danuta Wojciechowska. Porto: Porto editora, 2013.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

a inocência das facas

A Editora Tcharan e a Delegação da Cruz Vermelha da Trofa em o prazer de o/a convidar para o lançamento e sessão de autógrafos do livro A inocência das facas, no próximo sábado, dia 2 de Maio, pelas 16h00, na Livraria Papa-Livros, com apresentação de Manuel Pizarro, Vereador da Acção Social da Câmara do Porto.

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com textos e ilustrações de:
José Saramago e David Pintor; Filipa Leal e João Vaz de Carvalho; Raquel Patriarca e Cristina Valadas; Manuela Costa Ribeiro e Anabela Dias; Marta Bernardes e Marta Madureira; Manuel Jorge Marmelo e Evelina Oliveira; Adélia Carvalho e Patrícia Figueiredo; Valter Hugo Mãe e Teresa Lima; Inês Fonseca Santos e Alex Gozblau; Emílio Remelhe e Gémeo Luís; Álvaro Magalhães e Maria Remédio; e Afonso Cruz.

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Livraria Papa-Livros | Rua Miguel Bombarda, 523 | Porto, Portugal

quarta-feira, 4 de março de 2015

marcamos encontro com barata patarata e o escaravelho trolaró!

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é com muita alegria e alguma rapioquice que vimos, eu e a Martolita, apregoar que já andam por aí a barata patarata mais o escaravelho trolaró, amigos do peito da abelha zarelha e companhia limitada...
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vamos contar as suas histórias e partilhar as suas aventuras, no dia 14 de março, às 11.30h nas galerias lumiere na rua José Falcão, n. 157 no Porto e são todos muito bem vindos! também podem trazer os vossos pais... 

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vemo-nos por lá! zum-um zum-um zum-um!

sexta-feira, 13 de junho de 2014

era uma vez o Porto


Acabadinho de chegar e já por aí à vossa espera:


 






















Era uma vez o Porto é um livro para todas as idades que conta a História do Porto – cidade antiga e orgulhosa, sábia e rapioqueira – arrastando o leitor para uma viagem no tempo, em espaços que respiram e evoluem, que são os mesmos, mas diferentes, que se têm por conhecidos e, ainda assim, é possível redescobrir.


As notícias, os poemas, as expressões populares, as imagens da cidade, as personagens históricas e as pessoas comuns, todos são chamados a contar esta história real, que alia a verdade histórica à magia brincalhona do contar uma história, que ensina e diverte, num livro cheio do espírito irreverente e libertário das gentes tripeiras e das suas memórias. 

treze.junho.doismilecatorze

quinta-feira, 22 de maio de 2014

nós e a Anita

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Nasci na primavera colorida de 1974 e sou rapariga para ter vivido a infância libertária e destecnológica dos anos 80. Tínhamos, as minhas irmãs e eu, os avós por perto, aulas só metade do dia e um quintal onde havia morangueiros cheirosos e malmequeres em arbustos enormes, e onde podíamos brincar descalças nas horas fora da escola, que se interrompiam só pela hora da merenda e ao pôr-do-sol. A rapariga sossegada que sou hoje pouco lembra a miúda irrequieta de então, e o amor e tempo que hoje tenho aos livros, foi coisa que cresceu mais tarde, que naqueles tempos havia sempre muitas árvores para subir e muitos muros para saltar, grilos para apanhar e pôr a viver em casinhas pequenas de plástico que se compravam nas feiras do verão, e muitas outras ocupações semelhantes, todas elas de suma importância para a conquista da felicidade. Também tínhamos actividades dentro de casa, claro, éramos três raparigas e havia discos dos ABBA e da Nana Mouskouri para tocar e dançar, ao som de canções que não compreendíamos a fazer de conta que as cantávamos nós, num qualquer festival, com pernas arrancadas de bonecas de plástico na mão a fazer de microfones, e casacos na cabeça a fazer de cabelos compridos. E também havia livros, entre livros de jogos e contos tradicionais e contos de fadas, o Gigões e Anantes do Manuel António Pina [que ainda aqui está e é um tesouro] e, claro, os livros da Anita que, no original francês, era uma miúda ainda mais coquete que a portuguesa e se chamava Martine.

Os livros da Anita têm textos relativamente correctos do ponto de vista literário, são esteticamente cuidados e agradáveis de folhear e ler pelas meninas que já não são pequeninas mas também ainda não são adolescentes. Mostram bailes de máscaras e aulas de teatro e festas de flores e passeios a cavalo, e trazem um mundo de coisas bonitas e bem compostas que qualquer pré-adolescente da altura, desconhecedora do i-phone, do facebook e… bem, do mundo, poderia considerar desejável. Nós éramos três, as minhas irmãs e eu. A mais velha, a minha irmã Sandra, muito serena e responsável, mais aflita com as minhas asneiras do que eu, era a primeira a receber os livros e era quem os tratava melhor e quem nos lia as suas histórias, com uma paciência quase evangélica. A mais nova, a minha irmã Andreia, era pequenina e mal andava, mas seguia-nos por onde podia e assumia a função de ser a criatura mais querida e doce de sempre. Eu, que sou a do meio, nem era responsável nem doce, era outra coisa diferente que, algures no tempo e no espaço, implicava arrancar pernas às bonecas, riscar livros e dizer muitas vezes a frase “Não fui eu”. Mas voltando aos livros da outra menina que também morava lá em casa... 
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Os livros da Anita não são propriamente divertidos, essa é logo a primeira falha. Depois, estão cheios daquele discurso meloso que se senta nos diminutivos e em nomes parvos como ‘Pom-Pom’ e ‘Pantufas’, trata os irmãos por ‘manos’ e as ‘mãezinhas’ por ‘você’, e tem composições frásicas como “– Eu, então, acho tanta gracinha às ervilhas!”. Pior que tudo isso criam uma visão estupidamente estreita da vida futura das raparigas, em títulos como Anita na Cozinha, Anita vai à Escola, Anita Mamã, Anita Descobre a Música, Anita Dona de Casa, Anita no Ballet, Anita vai às Compras, Anita e o Curso de Culinária, Anita e o Príncipe Misterioso… and so on, and so on. Não tenho nada contra o ballet, a culinária ou em ir às compras quando é preciso. Na verdade adoro cozinhar e assistir a ballet, e toda a gente tem de ir à mercearia de vez em quando. A questão é que todos estes títulos seriam óptimos se houvesse outros títulos do tipo: Anita Engenheira de Pontes, Anita e o Doutoramento em Astrofísica, Anita Joga Futebol de Sete, Anita não Tem Como Emparelhar as Peúgas Quando as Tira da Máquina de Lavar [este, ainda que bastante pertinente, é capaz e ser muito extenso], Anita Lidera Manifestação Contra Injustiças Sociais, Anita tem Paralisia Cerebral, Anita é Gestora de uma Empresa de Sucesso, Anita Vive com Diabetes, Anita Neurocirurgiã, Anita Liberta-se de Marido Violento, Anita Repórter Fotográfica, Anita Vence o Paris-Dakar… e por aí fora até ao infinito e mais além.

Eu agora, adulta e estudiosa dos livros para crianças, faço parte de um movimento a que se pode chamar de Anti-Anitsmo, e isso é uma escolha racional e consciente. Ao mesmo tempo, acontece que tenho vários [não um, nem dois, mas vários muitos] livros da Anita nas minhas estantes, e nem todos são reminiscências da infância, o que quer dizer que eu, já grande e muito constrangida, comprei livros da Anita e os trouxe comigo para casa, onde os guardo com cuidado e ternura. De vez em quando vejo-lhes as figuras e acho-os riquinhos, e depois caio em mim a vou arrumá-los outra vez. Os livros arrumam-se bem, mas esta duplicidade tem andado, durante anos, tudo menos arrumada, e hoje escrevo livremente sobre o assunto porque tive uma epifania e estou, finalmente, em paz. Estou em paz porque descobri a raiz desta relação tão mal resolvida que tenho com os livros da Anita; descobri, finalmente, por que raio gosto tanto deles mesmo sabendo que são uma treta.
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Não sei como nem porquê mas quando olho para os livros,

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Na verdade vejo outras coisas...  
 
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raquel patriarca | vinteedois.maio.doismilecatorze
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