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quarta-feira, 14 de julho de 2010

de pretender atingir a plenitude complexa das coisas da criação ou o pecado de fazer perguntas

que diabo de ideia foi esta de se corresponder uma infracção
a cada desejo instintivo de prazer? o senhor é sádico, é masoquista,
ou é as duas coisas? ou então é um plagiador do pior
e sem vergonha na cara, que isto em que vivemos
não é mais que a versão descolorida do tártaro clássico onde o alvo
do desejo se nos revela e se nos escapa, onde repetimos
os mesmos erros – invariavelmente –, onde sofremos
as mesmas dores, as mesmas perdas – constantemente

e se é no livre arbítrio que explicam as ambivalências do bem
e do mal, as encruzilhadas e os caminhos percorridos, de que lado
da trincheira se há-de encaixar a ideia peregrina
da criação e comércio das bulas de indulgência ou
a estratégia brilhante baseada na inércia
a que comummente se chama de regime de prescrições?
pertencem à instancia das culpas, à família alargada dos perdões?

e o inferno? ainda recebe gente ou esgotou a lotação?
talvez se reserve, nos tempos que correm, à 'nata da escumalha'
sendo que o resto de nós, pecadores impenitentes
e hereges sensaborões, se vão ficando
órfãos e desgarrados pelos tapetes do purgatório, essa espécie
de foyer para almas medíocres, que ninguém sabe explicar o que é
mas que, ainda assim, é suposto ser certo que existe

e, já agora que estamos nisto, como pode uma
simples pessoa simples
sentir o conforto e o consolo da crença no divino
e a leveza da resignação e da confiança no eterno,
quando a pedagogia da fé lhe foi ditada por uma ogra
com excesso de pêlos e escassez de escrúpulos,
que manda fazer desenhos e só distribui canetas de feltro
de cor castanha, cinzenta e preta?

foi então que senti enterrar-se-me um par de orelhas de burro
pela cabeça abaixo e, de frente para a parede, fiquei de castigo
a ouvir as horas passar. e quando,
impaciente e de dentes cerrados, balbuciei
"que diabo!...”
a terra tremeu e o ribombar do trovão
foi a última coisa que ouvi

raquel patriarca
dez.julho.doismiledez

sexta-feira, 19 de março de 2010

perguntas incisivas sobre a origem da vida

– ó mãe – disse ele, a voz cheia de angústia e a boca cheia de sangue – porque é que temos que mudar de dentes? eu não me sinto preparado para isto…
limpei-lhe as lágrimas dos olhos e o sangue dos lábios. – não chores, querido. tudo isto é normal. – a voz doce e a conversa tranquila chegavam-me de longe, numa espécie de ligação sem fios ao poder mágico que têm as mães de fazer passar dores e tristezas. – estás a crescer e vão nascer dentitos novos…
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.– eu já sei essas coisas todas e não é disso que eu estou a falar. – o olhar dele mudou de um desamparo suplicante para uma determinação exigente. a condescendência e a presunção morreram-me nos lábios enquanto me senti a corar. por momentos acreditei que me fosse mandar à fava mas ele continuou.
– quem é que nos deu a vida e quem é que fez o mundo? – interrompeu-se-me a magia num instante. pareceu que me ficava o discurso a arranhar a garganta e a saber ao que saberia a estática, se a estática fosse um sabor em vez de ser um som ou uma corrente eléctrica sem definição ou substância. – as árvores e o mar e as coisas, – as palavras saiam-lhe em atropelos indignados – porque é que quem fez tantas coisas nos fez de maneira a termos de mudar de dentes? – rebolou-lhe outra lágrima gorda que eu segui até lhe pingar do queixo. – isto dói, mamã!
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na palma da mão aberta estava um incisivo do tamanho de uma pedrinha de sal. assim estendido como um inacreditável destroço de vida, a prova acabada da falta de sentido e coerência nas coisas do mundo, a consciência clara da miserável pequenez que marca a condição humana.
abracei-o muito e não fui capaz de lhe dizer mais nada. pensei só que, se calhar, não me sinto preparada para isto…
raquel patriarca
dezanove.março.doismiledez

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

ser feliz

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a maior parte das vezes não chego a perceber se é realmente possível ser-se feliz ou se tudo o que nos resta é recusar teimosamente a aceitar que o mundo chegou mesmo ao ponto em que está…
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raquel patriarca
doze.janeiro.doismiledez
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domingo, 10 de janeiro de 2010

ontem

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ontem o meu
blankbluebook
fez dois anos 
e como eu não queria 
deixar passar a ocasião
sem assinalar o dia
decidi fazer o
apontamento
da única maneira
que só eu podia:

..
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(isto sou eu a apontar...)
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texto: raquel patriarca
fotografia: armando novais
dez.janeiro.doismiledez
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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

pérola de sabedoria dita por quem sabe muito mais que eu ou uma notícia de última hora

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"o livro morreu... viva o livro!"
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j.e.l.
umdia.março.doismilecinco

...
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e eu, que era jovem inocente, teimosa e ignorante, ouvi e respeitei e calei... mas sem compreender ou aceitar. hoje sou, pela força das circunstâncias, muito menos inocente, ainda meia teimosa e, porventura, igualmente ignorante, não só ouço como vejo, compreendo e posso até concordar com o sentido e razão da mensagem... aceitar, é que nunca!
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raquel patriarca
trinta.outubro.doismilenove
(data da reencarnação do livro)
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sábado, 28 de março de 2009

como a traça para a chama

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qual é, afinal, a origem da natural tendência humana para o impossível? qual a razão da vertigem na beira do abismo? qual o embrião do desejo secreto pelo proibido? de onde vem a vontade de passear no cimo de um muro estreito e ver de um lado o que se tem por precioso e do outro a aventura que põe tudo em risco?
essa incrível atracção por coisas que não se pode ter e que talvez correspondam ao que delas se idealizou – ou então não... – transforma pessoas equilibradas e serenas em seres profundamente insones, estúpidos, inseguros, cismáticos, ridículos e extraordinariamente ligados à vida.
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raquel patriarca
dezassete.setembro.doismileoito

quarta-feira, 25 de março de 2009

espaços do passado

enquanto fui feliz, não me germinavam as saudades nas masmorras do crâneo. não sonhava com outro espaço. não me imaginava entre outras paredes. vivia entre lombadas carregadas de pó e não sabia que eram elas a origem do meu bem estar. agora que a sorte me sorriu faltam-me esses silêncios do passado. os cenários e os cheiros que me impregnam a alma e que deixei sem me despedir. e quando pensei que avançava e ganhava terreno, ficou-me o coração para trás e sem ele não me apetece continuar.
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raquel patriarca
dezoito.setembro.doismileoito

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

comunicar

dou comigo, mais vezes do que seria desejável, a falar sozinha. mesmo quando penso que estou a falar com outras pessoas, as mais das vezes, estou a falar comigo própria. e até me dou ao trabalho de estruturar ideias e construir frases mais ou menos completas, mas na verdade é tudo acessório e desnecessário porque não me parece possível que consiga efectivamente comunicar para fora da minha pessoa. o que me leva a interrogar acerca da pertinência deste texto...
pois.
raquel patriarca
dezanove.fevereiro.doismilenove

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

trezentos e sessenta e cinco

hoje o blankbluebook celebra um ano de existência. parece-me um bom pretexto para fazer um balanço do que este espaço (afinal de contas) se tornou e daquilo que pode vir a ser no futuro.
o que começou como um projecto pessoal de descoberta, experiência e exercício de escrita, decidiu que havia de ser um ponto de partilha de palavras, imagens e estados de alma.
não há grandes revelações a fazer… para mim tem sido importante (sobretudo) como ponto de encontro comigo. um lugar onde me sinto confortável, que gosto de tratar bem, que me dá razões para escrever mais e para levar a sério as brincadeiras da vida. uma linha imaginária que divide a realidade em dois mundos e que me permite calcorrear mais relvados e areias do lado do sonho.
e porque sonho que um dia o meu nome deixe de ser apenas um conjunto de palavras, o blankbluebook vai sair do (rebuscado) anonimato em que se manteve durante este ano de gestação. no fundo nada muda. as mesmas mãos afiveladas ao mesmo teclado. mas aquelas palavras no fim… aquilo… é o meu nome.

raquel patriarca
nove.janeiro.doismilenove

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

acerca do mar: diálogo entre luís miguel nava e cesare pavese

o mar é profundamente azul e profundamente poético. o azeite não é naturalmente poético mas pode ser, pelo menos, estético. na sua capacidade de criação, na alquimia mágica da transformação de bagas em tempero, na arte ancestral que se faz com carinho e esmero. e se o azeite não é o alvo preferencial do lírico rabisco, devemos lembrar que é, ainda assim, um petisco. as sensações que inspira de gula, de prazer, de acabamento perfeito, invocam as pequenas subtilezas de que o ser humano é feito. o mar de cesare pavese é terreno, concreto, identificável, real… é um mar observado sob uma visão diagonal, mas é fruto tanto da natureza como do engenho humano, e tudo isto encerrado na imagem do oceano. o mar de luís miguel nava, pelo contrário, é um mar não terreal… é irreal e imaginário; é de outra esfera, de outro enquadramento, é – por assim dizer – visto com outros olhos, com outro sentimento. é insondável, intangível. mais profundo, mais azul talvez. faz ponte entre o céu e a terra e de volta ao céu outra vez. é absoluto e brutal. não tem uma gota de humano, é sobrenatural. é o abismo para onde olhamos um dia. é o sublime que nos transforma em ninharia. perante ele nada se pode, a terra treme e o céu explode. no seu lugar um relâmpago… não um sorriso, ou um beijo, ou mesmo um poema. nada que venha do homem, nenhuma teoria, nenhum teorema. de alquimista e artesão a insignificante poeira do chão. esta foi a viagem que aqui fez o homem, com as dúvidas, os desejos e as paixões que o consomem. esta foi a relação que eu consegui encontrar, em dois pequenos poemas que afinal não falam do mar.
b. b. booker
dez.outubro.doismileoito