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sexta-feira, 6 de março de 2020

Este ano nas Correntes d'Escritas

Nós lançámos um livro novo... 
E quando digo, nós, quero dizer eu - que escrevi o texto -, e a Sara Cunha - que o ilustrou -, e a Acento Tónico - que transformou tudo num objecto maravilhoso e cheio de ternura!
E quero dizer, também, a Adélia Carvalho e o Valter Hugo Mãe - que trouxeram a sua 'Menina que Queria desenhar o Mundo' e o seu 'Serei sempre o teu Abrigo' - e, por sermos, também, os abrigos uns dos outros, fizemos tudo juntos.
Foi um dia magnífico e muitos mais virão, preenchidos pelo gosto de partilhar histórias, dentro de histórias, que fazem nascer mais histórias...




A HISTÓRIA DE UMA HISTÓRIA
A brincadeira parte da leitura de um conto. Uma história simples que, com a imaginação de um filho e a ternura de uma mãe, vai ganhando forma e cor. Um personagem aqui e uns detalhes acolá, até deixar de ser uma história simples e até se resolver no contrário daquilo que tinha como ideia inicial. A história de uma história faz o conto de si própria ao mesmo tempo que, sem se dar conta, vai mostrando como se desenrola o fio de uma narrativa. Com que cheiros e sabores se enriquece um texto. Com que ideias se constrói ou desconstrói uma aventura.





TÍTULO: A história de uma história

AUTORIA: Raquel Patriarca
ILUSTRAÇÃO: Sara Cunha
DESIGN: Sara Cunha
ISBN: 978-989-54576-0-1
DEP. LEGAL: 460673/19
1.ª EDIÇÃO: outubro 2019
IMPRESSÃO: EIGAL
ACENTO TÓNICO Avenida Marechal Gomes da Costa, 31,
4410–146 São Félix da Marinha 
E-mail: editorial@acentotonico.pt 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

o booktrailer... ou teaser, ou whatever


Porto. Roteiro Histórico.
texto de Raquel Patriarca; fotografia de Sérgio Jacques.
Verso da História, 2016.

Para ler sem moderação ou ordem fixa. De preferência numa esplanada ou escadaria, numa igreja ou calçada, na ponte a meio do rio ou no alto de uma torre.
E por falar em Torre… é guardar a tarde de dia 28, por favor, sim? 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

a verdadeira biblioteca ou uma história em três metades

















Quantos livros tem um livro 

Primeira Metade: Sobre Começar um Texto 

Quando eu era pequena, tinha muitos sonhos. Agora que sou maior, estou igual. Sonho com os pedaços do mundo que quero conhecer, os abraços que quero apertar, as imagens que quero criar, os livros que hei-de escrever. Estar aqui é um desses sonhos da idade adulta, arrumado na rubrica das coisas admiráveis de que é preciso fazer parte. Quando me imaginava aqui, começava sempre por agradecer às Correntes porque correm e por me levarem na correnteza. Agradecer o estar aqui agora e todas as vezes que estive aí e que, no fim do dia, regressei a casa maior. Não de tamanho, mas maior. Quando me imaginava aqui, depois de agradecer, fazia uma comunicação brilhante. Não me parecia muito difícil. Não sei porquê, nessa altura as ideias eram transparentes e ordenadas, as palavras respondiam à chamada sem atraso e sem engulho. Era preciso citar um autor de referência: Pessoa, Benjamin ou Borges; Camus, Barthes, ou Foucault. Falar de literatura e arte, de coisas verdadeiras e universais. Como se no mundo – ou em mim – não restassem dúvidas da minha sabedoria sobre todas as matérias.

Mas estas coisas só acontecem na minha imaginação. Sonho e nada mais. No momento em que chegou o convite, todo o dia me parecia feito de irrealidade. A cabeça ficou vazia e a página em branco. Afinal, é tudo muito difícil.

Sentei-me para escrever e não chegavam as frases que deviam iluminar-me as ideias. Fui à procura dos cadernos e das notas amarelas com os registos da genialidade alheia, e nada rimava com o tema ou a situação. Em ressonância longínqua das traseiras do cérebro, soava uma espécie de conselho que ouvi quando era pequena: “Sabendo muito do que falas, fala pouco. Sabendo pouco, fala quase nada. Sabendo nada, sorri”.

Segunda Metade: Sobre o Meu Avô

E assim, em vez de Benjiamin, Borges ou Barthes, veio ajudar-me uma espécie de aforismo de Joaquim Patriarca, mestre-escola, guarda-livros, organista na Igreja de S. Pedro, emigrante, retornado, avô. E a conselho dele, porque falamos de livros, vou falar pouco. 

Quando eu era pequena, fascinava-me a capacidade que o meu avô tinha para guardar objectos. Para ele nada existia que fosse imprestável. Mais cedo ou mais tarde, tudo ganhava serventia e, por isso, tudo se guardava em lugar próprio, rigorosamente ordenado. Esta filosofia, vim a percebê-lo mais tarde, levava-me a intuir que, até para mim – criatura algo estouvada, grande consumidora de mercurocromo, tantas vezes nas imediações de coisas indesejáveis como cacos ou nódoas –, até para mim, dizia eu, se guardava um lugar e uma função. E, enquanto não descobria o meu lugar e a minha função, fui absorvida no fascínio de como o meu avô se movia pelo mundo e da serenidade com que coleccionava todo o tipo de objectos.

As folhas soltas de papel e os fios de diferentes materiais, os tocos dos lápis que já mal serviam para escrever, as sementes que havia de pôr na terra, os pequenos pedaços de plástico que, mais tarde e com a ajuda de um canivete, transformava em mistérios de rezar, perfeitamente redondos e recortados: um buraco ao centro para o indicador, dez saliências em forma de pétala, uma para cada ave-maria, a cruz na décima primeira pétala, no lugar do pai-nosso.
Cada gesto do meu avô era feito com esmero e ternura. O vinco nas arestas dos embrulhos de correio e o nó direito que unia, em absoluta perpendicularidade, o cruzamento do cordão, a caligrafia pausada, aprumada, perfeita, a adivinhar que, naquele endereço, tinha de erguer-se um palácio. As canas enterradas na horta a estender fios de sisal que desenhavam uma espécie de guias, por onde se alinhavam os sulcos na terra, as sementes e as plantas.
Fascinavam-me as coisas que ele fazia mas, mais ainda, o vagar sereno que colocava em tudo. Uma alegria simples que enchia de plenitude os gestos mais comuns. Curiosamente desimportado do resultado final, o meu avô parecia absorver-se no encantamento – para nós invisível – de todas as tarefas a que se entregava, como se a função inteira da existência se guardasse naquele momento. Punha, de verdade, quanto era no mínimo que fazia, de maneira que despachar uma encomenda ou plantar morangueiros se transformavam em formas de arte.
Foi nesta altura, enquanto os meus avós se transformavam em memórias nucleares, que aprendi a relacionar-me com os livros. Eu não fui uma daquelas crianças adoráveis que, sentadamente sábias, amam os livros desde que se lembram de respirar. Gostava muito que me contassem histórias, como todas as crianças, mas adorava correr desenfreadamente pelas ruas íngremes que desciam da casa dos meus avós ao fundo da vila. Saltar muros e inventar barcos feitos de casca de árvore que depois fazia navegar nos ribeiros que desciam da serra pela primavera. Subir às tílias descalça, com um saco de pano para apanhar os raminhos de fazer chá, sair nos dias de feira, a cheirar os bolos de leite ainda quentes, e ajudar a avó a escolher os figos mais maduros e as colheres de pau mais redondas e fundas. Havia uma televisão, e não é que não gostasse de a ver, mas o aparelho era muito demorado de arrancar, apanhava a televisão espanhola e não havia desenhos animados, só programas de agricultura e notícias. Naquele tempo, a televisão era mais um entroncho que uma distracção a sério. E havia a escola, claro, e a catequese para onde eu ia sempre muito contente porque, no regresso, a minha avó me dava uma bolacha de chocolate. Era uma obra-prima em forma de estrela, vinha embrulhada em papel de prata colorido, começava a derreter-se mal me tocava nos dedos e inspirava-me um conforto interior que eu me habituei a confundir com o sentimento da fé.
Os livros trouxeram a calma e a profundidade que eu não me dava ao trabalho de procurar em nenhuma outra dimensão na vida a não ser, talvez, na minha família. 

Terceira Metade: Sobre os Livros 

Quando eu era pequena passava muito tempo em casa dos meus avós. Viviam por lá muitos livros, uma condição que eu entendia como decorrência natural de, num tempo antes de mim, o meu avô ter sido guarda-livros. Um guarda-livros era, evidentemente, uma espécie de bibliotecário com um título singelo. Naquele tempo e lugar, tudo era menos pretensioso, sobretudo os nomes das profissões. Foi o meu avô quem ensinou a minha avó a ler e eu, que assistia a toda aquela circunstância de meiguice, mais convencida ficava de que a sua função no mundo era a de guardador de livros. Na dimensão preservável do objecto, como fazia com todas as coisas, e na dimensão partilhável do conteúdo, que lia para si e para nós, ensinava a ler e ajudava a compreender.
Quando eu era pequena o meu avô ensinou-me a encadernar os livros e eu entendi que devia aprender a fazê-lo com a ternura e o esmero que ele trazia sempre nas mãos. Ele levava horas a reforçar as capas e a cobri-las com papéis de cores e texturas diferentes, impecavelmente vincados nas dobras, os títulos nas lombadas claramente desenhados naquela caligrafia brilhante e impossível de copiar. Eu aprendia a vincar as dobras com os dedos pequeninos e mal capazes. Queria muito imitar-lhe a arte mas, com a mesma naturalidade que os gestos do meu avô se inclinavam para a perfeição, os meus obedeciam a um desvio incontrolável para o desastre e, muitas vezes se rasgavam os papéis e se estragavam os títulos com erros de ortografia. O meu avô suspirava, sobrepunha a sua paciência à minha frustração, deitavam-se à lareira os papéis rasgados e os erros de ortografia, e a tarefa começava de novo. Desta vez, melhor.
O meu primeiro livro contava a história da fuga de uma tal Alice através do espelho. Foram precisas várias tentativas até o serviço ficar aceitável e foi maravilhoso ver o meu avô sorrir e dizer que sim com a cabeça enquanto examinava o meu primeiro projecto: um desconchavo de papel manteiga com as dobras quase tão espessas como o próprio livro. Foi um triunfo indizível. E, logo a seguir, chegou uma nova dificuldade.
No momento de colocar o livro na estante, havia um banco para eu subir e ficar da mesma altura do meu avô, e havia uma única regra de arrumação, muito simples que se baseava - em partes iguais – nos conceitos de ordem e de caos, um critério difícil de definir e que ordenava os títulos alfabeticamente segundo o destino geográfico do assunto.
O meu avô levou algum tempo a explicar-me que cada livro é como uma viagem e que cada viagem se faz rumo a um destino diferente. Eu não compreendi e ele foi buscar um volume grosso que trazia na lombada as palavras Crime e Castigo. Explicou que era um livro muito importante para conhecer os conceitos de bem e mal, certo e errado que vivem nas aspirações e atitudes de cada um. Uma viagem que se fazia rumo àquilo que uma pessoa deseja para si e ao percurso que está disposto a fazer para lá chegar. Como eu fiquei muito calada, a segurar nas mãos a minha Alice sem ideia de onde a guardar, o meu avô pegou num outro livro – 20.000 Léguas Submarinas – a aventura de uma viagem pelas profundezas do mar, ou então, uma viagem pelo engenho humano e pela vontade de ultrapassar o medo que é natural sentir-se em relação ao desconhecido.
Eu olhava para as minhas mãos.
Tens de descobrir onde te leva o teu livro, revelou por fim o meu avô.
E eu compreendi que precisava de o ler e, só passados muitos dias, voltei a subir ao banco resolutamente à procura da prateleira marcada com M de Maravilhas.
Fui compreendendo aos poucos o sistema de arrumação de livros que o meu avô praticava, garantindo-me sempre que era assim que se faziam as coisas nas verdadeiras bibliotecas. Acontecia por vezes termos de mudar os livros e as viagens de um lugar para outro. A cabana do Pai Tomás – muito muito bonito – teve morada no E de Escravatura, depois mudou-se para o A de Abolicionismo e acabou, mais tarde, por inaugurar uma nova secção no L para Livros que Salvaram o Mundo.
Quando eu era pequena aprendi com o meu avô a ternura de todas as coisas. Aprendi que é possível ser feliz em sossego. Que os livros devem ser lidos antes de arrumados, que cada livro propõe uma viagem e que cada leitura pode criar novos rumos a um caminho já percorrido. Aprendi a ser guardadora de livros.
Mais tarde, muito mais tarde, depois de graduada, pós-graduada e especializada, recebi um papel carimbado que me fez bibliotecária, que é só um nome diferente para uma prática muito antiga. Estudei catalogação e indexação, as listas ordenadas de termos e as tabelas de autoridade, os sistemas de triagem das espécies bibliográficas e os códigos alfanuméricos das cotas e descobri que, afinal, já não existem verdadeiras bibliotecas, como aquelas de que falava o meu avô. Descobri que nas bibliotecas onde hoje se guardam os livros não é possível compreender-se o mapa das viagens da humanidade. Da humanidade que escreve e da humanidade que lê.
Mas em casa, guardo uma verdadeira biblioteca, com estantes e prateleiras em que se faz um esforço genuíno de procura da verdade. Ainda lá está o volume mal encadernado da pequena Alice que agora repousa no I onde se alinham as viagens Interiores.
Foi com esse o livro que tudo começou. Quantos livros se guardam lá dentro? Suponho que terei de o ler outra vez. Por agora, não sei. E como não sei, devo apenas sorrir.


texto | raquel patriarca | fotografia | rui sousa 
vinteesete.fevereiro.doismiledezasseis

terça-feira, 26 de julho de 2016

A circunstância de nascerem os avós


















Quando eu nasci, os pais dos meus pais passaram logo imediatamente a ser completamente avós. Não demora nada, não é preciso preencher papéis nem estudar e fazer testes. É só assim, como uma túlipa a nascer de um nabo, mas mais depressa, PUF, de um momento para o outro… NASCE UM AVÔ e NASCE UMA AVÓ.


Os avós são uma espécie de novas pessoas que nascem no coração de pessoas velhas e que tomam conta delas. E, o melhor de tudo, nunca lhes parece estranho o que nos apetece fazer… Há uma espécie de magia que nos dá poderes especiais sobre a vontade dos avós. Nós somos os super-heróis e eles os aliados perfeitos.

Vivam os Avós! Vivam os Netos! Viva a República da Brincadeira! 


umqualquer neto | vinteeseis.julho.doismiledezasseis

terça-feira, 8 de julho de 2014

programa da semana, o Era uma vez o Porto e eu

terça-feira, 8, 18h - Fnac de Santa Catarina no Porto   
apresentação por Joel Cleto

quarta-feira, 9, 18h - Mercado do Bom Sucesso no Porto 

à conversa com Isabel Rocha do Bairro dos Livros

sábado, 12, pela tarde - Feira do Livro de Valongo [a confirmar] 

com Gonçalo Henrique do bibliographias

domingo, 13, 15h - Mercado do Bom Sucesso no Porto 

a contar histórias do Porto à criançada e não só, no Bairro dos Livros

até já!

quinta-feira, 3 de julho de 2014

sexta-feira, 13 de junho de 2014

era uma vez o Porto


Acabadinho de chegar e já por aí à vossa espera:


 






















Era uma vez o Porto é um livro para todas as idades que conta a História do Porto – cidade antiga e orgulhosa, sábia e rapioqueira – arrastando o leitor para uma viagem no tempo, em espaços que respiram e evoluem, que são os mesmos, mas diferentes, que se têm por conhecidos e, ainda assim, é possível redescobrir.


As notícias, os poemas, as expressões populares, as imagens da cidade, as personagens históricas e as pessoas comuns, todos são chamados a contar esta história real, que alia a verdade histórica à magia brincalhona do contar uma história, que ensina e diverte, num livro cheio do espírito irreverente e libertário das gentes tripeiras e das suas memórias. 

treze.junho.doismilecatorze

quarta-feira, 23 de abril de 2014

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

doses de magia ou o novo livro mais lindo do mundo

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doses de magia é o resultado de um projecto escrito a oito mãos e ilustrado a duas... partiu da ideia de pensar um bocadinho sobre a maneira correcta de utilizar os antibiópicos... ai! não, os an-ti-bi-óóóó-ti-cos. no fundo, é um livro de poemas para todas as idades. cheio de magia até à rolha do frasquinho…

texto|Ana Luísa Amaral|Joana Espain|José Ferreira|Raquel Patriarca
ilustrações|Anabela Dias 


o nosso tópico
que tal brincar às bactérias?
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a magia é delicada
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O projecto Resista - Campanha Nacional Pelo Uso Racional de Antibióticos e Pela Prevenção da Resistência Bacteriana (2012/2013) foi promovido pela Associação Vida - Valorização Intergeracional e Desenvolvimento Activo e co-financiado pela Direcção Geral de Saúde. Visite: www.resista.net

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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

e não é que a Abelha Zarelha já dá entrevistas?...


A Abelha Zarelha deu uma entrevista ao Rodrigo Ferrão do Clube de Leitores e foi assim:


Entrevista a Raquel Patriarca, uma das autoras do livro infantil «A Abelha Zarelha»
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A Raquel foi cliente de uma livraria onde trabalhei. A Raquel é amiga de amigos e minha amiga também.
Outro dia descobri que tem um livro com a ilustradora Marta Jacinto. Chama-se «A Abelha Zarelha» e foi publicado no final de 2012 pela QuidNovi Editora.
Não resisti... Preparei umas perguntas e é com imenso prazer que hoje partilho! Espero que gostem!
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RF: Talvez comece pela pergunta mais complicada (ou até a mais simples): como surgiu a ideia de escreveres um livro Infantil?

RP: A Abelha Zarelha, a Barata Patarata e todos os amigos nasceram com histórias de memória, que ia inventando e repetia para mim mesma e decorava, e depois contava ou cantava, vezes sem conta ao Pedro quando era um bebé que ainda nem falava. Ele reagia sobretudo aos sons, aos gestos, aos meus olhos muito abertos, às vozes diferentes que eu ia fazendo e ao vento que eu lhe soprava no cabelo a fazer os Vuuummmms. É por isso que as histórias são assim relativamente pequenas e vivem muito da brincadeira com as palavras e da alegria das personagens.

«Como as maçãs, os livros com bicho são os mais doces». O que são livros com bicho?

Livros com Bicho são os dez livros que compõem a colecção com esse nome. São dez histórias protagonizadas por pequenas bichezas bem dispostas como a Abelha Zarelha, A Barata Patarata, o Escaravelho Trolaró e por aí fora.

«A abelha Zarelha» é um livro para os mais pequeninos. Tens memória de alguém te ler histórias quando eras pequena? Alguma preferida?

As primeiras memórias que tenho de nos contarem histórias, a mim e às minhas irmãs, são da minha avó que nos contava episódios da Bíblia. Era engraçado porque nós não tínhamos (eu, pelo menos, não tinha) a noção de onde vinham aquelas aventuras. Para mim o David era um verdadeiro herói que derrotava o Golias porque tinha o coração puro e era inteligente, que acaba por estar muito perto do Frodo do Senhor dos Anéis. Eu, por exemplo, gostava particularmente da história de Sansão e Dalila, talvez por ser uma história de amor com perigo e traição que acaba em tragédia, tipo Romeu e Julieta.

Sempre tiveste vontade de escrever? Ou és uma leitora «viciada» que agora resolveu tentar a sua sorte? Vês-te a contar histórias para adultos?

Eu em criança tinha uma relação muito pouco próxima dos livros. Ler parecia-me um desperdício de tempo havendo muros para saltar, árvores para subir e grilos para apanhar e guardar em gaiolinhas de plástico. Agora parece-me um desperdício o tempo que não estou a ler e sinto-me angustiada quando penso que ainda não li todos os clássicos que queria. A escrita é uma coisa diferente. Escrevo há muito tempo mas nem sempre com a noção ou a intenção de partilhar ou publicar. Escrevo porque me sinto bem a escrever. Gosto e pronto. Não sei se estou a tentar a sorte, mas suponho que todos devemos a nós próprios a descoberta daquilo que somos capazes, de nos desafiarmos àquilo que achamos que a humanidade tem de melhor. A questão dos adultos é complicada porque não sei se consigo definir ‘adulto’ ou ‘histórias para adultos’. As histórias têm uma vontade própia e, às vezes, o que pensamos ser um conto para crianças mais pequenas, acaba noutro registo porque uma personagem de outra faixa etária acabou por tomar conta das coisas, ou porque algo acontece que muda completamente o ambiente de tudo. Não sei dizer o que vou escrever no futuro, mas não fecho nenhuma porta e nenhuma janela… há sempre muros para saltar e árvores para subir.

As ilustrações são uma parte importante dos livros. Sentes que a Marta Jacinto conta uma história através do que pinta?

Ó sim, a Marta reconta as histórias todas. Tudo fica diferente depois da Marta! Na Abelha Zarelha eu imaginei o som do zumbido como sendo gerado pelo bater das asas e a Marta apresenta a Abelha, logo numa das primeiras ilustrações, a assobiar o zumbido. Para mim foi uma releitura da história e uma redescoberta da personagem que já não era só minha. Uma das forças do texto é a alegria e a Marta consegue imprimir um registo visual muito leve e cómico que me agrada muito.

Dizes que «se fosses um animal serias um ornitorrinco». Alguma razão especial? 

O ornitorrinco é um animal estranho porque parece uma espécie de ursito e tem cauda de castor e um enorme bico de pato. É mal definido o que me parece uma boa metáfora. Nós também não somos uma coisa só. Eu sou historiadora pelo menos na perna esquerda e nos cotovelos. A Bibliotecária em mim deve ocupar parte do tronco. A cabeça e as pontas dos dedos brincam com as palavras e contam histórias. O resto não sei, ainda falta descobrir.
Nasceste em Angola. Tens alguma recordação de lá? Pensas um dia voltar a cruzar oceanos?

Não tenho qualquer memória consciente de Benguela ou de Angola. As memórias que guardo não são minhas, são dos meus pais e avós. Vim para Portugal com um ano e meio de idade, durante a ponte aérea que em 75 marcou parte da descolonização portuguesa de África. Tenho planos de cruzar muitos oceanos mas não sinto uma viagem a Angola como um regresso a casa. Esse sentimento de regresso tenho-o em relação a outros lugares e até em relação a pessoas, onde e com quem construí laços e raízes e cujas memórias fazem parte de mim.

Certamente tens algumas referências na literatura infantil. Quem são os teus ídolos? Gostas de ler um pouco de tudo ou és "especialista" nalgum género?

Quando eu era pequenina não havia a quantidade, variedade ou qualidade de livros infantis que há hoje. Éramos só raparigas e, claro, havia livros da Anita, mas havia também as colecções dos contos clássicos dos irmãos Grimm, de Perrault e de Anderson, os clássicos juvenis como o Tom Sawyer, a Alice no País das Maravilhas, a Ilha do Tesouro, as Vinte Mil Léguas Submarinas e as Viagens de Gulliver, e também algumas histórias tradicionais como a História do Macaco do Rabo Cortado que eu obrigava a minha irmã mais velha a contar-me vezes e vezes sem conta. Como consumidora ainda jovem, confesso que gostava especialmente dos contos clássicos. Tínhamos uma colectânea de mais de sessenta contos que eu adorava ouvir contar e ficava fascinada com palavras como Rumpelstiltzkin ou Jorinda e Joringel. Depois, o meu maior herói passou a ser o Manuel António Pina. Estou convencida que tudo isto começou verdadeiramente quando conheci o escaravelho Bocage no dia em que me ofereceram o livro Gigões e Anantes. Tinha seis anos e fiquei muito admirada quando, anos mais tarde, vim a descobrir que havia um poeta com nome de escaravelho. Já na escola preparatória tive uma professora que nos contava as histórias da Sophia de Mello Breyner e nunca mais a esqueci… à professora e à Sophia. Hoje sou uma consumidora compulsiva de livros infantis e penso que vivemos tempos muito interessantes para quem gosta de livros para crianças. Tanto faz que sejam portugueses ou estrangeiros, de todos os tipos e géneros, ilustrados ou não, com texto ou sem ele, mas confesso que gosto especialmente de poesia. Os autores de que mais gosto e que se transformam nas referências que uso, consciente ou inconscientemente, podem vir de todo o lado e não só da literatura infantil. Ainda assim, tenho as estantes bem forradas… Do Manuel António Pina, claro, entre mim e o meu Pedro, temos quase tudo, tal como da Sophia de Mello Breyner e do Aquilino Ribeiro. Encanta-me a forma de escrever de A. A. Milne e a beleza ideológica de Saint-Exupéry. Gosto dos monstros de Maurice Sendak e da irreverência de Peter Newell. Entre os autores mais recentes sigo de perto os livros de autores como o Valter Hugo Mãe, a Carla Maia de Almeida, a Rita Taborda Duarte ou o Afonso Cruz. Na poesia o manancial é interminável e vai de Fernando Pessoa a Mário Cesariny, passando pelos textos de Ana Luísa Amaral, Jorge de Sousa Braga, Nuno Higino, Álvaro de Magalhães, João Pedro Mésseder, Mário Henrique Leiria, Luísa Costa Gomes, António Torrado, Luísa Ducla Soares, Leo Leoni, Fran Alonso e de certeza que me estou a esquecer de muitos.

Numa frase: porque é que as pessoas devem comprar e ler o teu livro?

Não sei se devem comprar o meu livro, diz-me tu se devem ou não… direi apenas que, no fundo, é uma história sobre alegria e perseverança, que penso serem das ferramentas mais válidas que podemos dar a nós próprios e aos outros, independentemente da idade.
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*A não perder brevemente: a entrevista à ilustradora deste mesmo livro, Marta Jacinto.
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