terça-feira, 27 de julho de 2010

photo grafia XXXIX


"respirar mais fundo"
porto santo - arquipélago da madeira - oceano atlântico

fotografia: raquel patriarca
julho.doismiledez

quarta-feira, 14 de julho de 2010

photo grafia XXXVIII


"pôr do sol"
varanda - piódão - serra do açor

fotografia: raquel patriarca
vinteequatro.junho.doismiledez

de pretender atingir a plenitude complexa das coisas da criação ou o pecado de fazer perguntas

que diabo de ideia foi esta de se corresponder uma infracção
a cada desejo instintivo de prazer? o senhor é sádico, é masoquista,
ou é as duas coisas? ou então é um plagiador do pior
e sem vergonha na cara, que isto em que vivemos
não é mais que a versão descolorida do tártaro clássico onde o alvo
do desejo se nos revela e se nos escapa, onde repetimos
os mesmos erros – invariavelmente –, onde sofremos
as mesmas dores, as mesmas perdas – constantemente

e se é no livre arbítrio que explicam as ambivalências do bem
e do mal, as encruzilhadas e os caminhos percorridos, de que lado
da trincheira se há-de encaixar a ideia peregrina
da criação e comércio das bulas de indulgência ou
a estratégia brilhante baseada na inércia
a que comummente se chama de regime de prescrições?
pertencem à instancia das culpas, à família alargada dos perdões?

e o inferno? ainda recebe gente ou esgotou a lotação?
talvez se reserve, nos tempos que correm, à 'nata da escumalha'
sendo que o resto de nós, pecadores impenitentes
e hereges sensaborões, se vão ficando
órfãos e desgarrados pelos tapetes do purgatório, essa espécie
de foyer para almas medíocres, que ninguém sabe explicar o que é
mas que, ainda assim, é suposto ser certo que existe

e, já agora que estamos nisto, como pode uma
simples pessoa simples
sentir o conforto e o consolo da crença no divino
e a leveza da resignação e da confiança no eterno,
quando a pedagogia da fé lhe foi ditada por uma ogra
com excesso de pêlos e escassez de escrúpulos,
que manda fazer desenhos e só distribui canetas de feltro
de cor castanha, cinzenta e preta?

foi então que senti enterrar-se-me um par de orelhas de burro
pela cabeça abaixo e, de frente para a parede, fiquei de castigo
a ouvir as horas passar. e quando,
impaciente e de dentes cerrados, balbuciei
"que diabo!...”
a terra tremeu e o ribombar do trovão
foi a última coisa que ouvi

raquel patriarca
dez.julho.doismiledez

photo grafia XXXVII


"brincar brincar brincar"
corredores e montras - museu do brinquedo - seia

fotografia: raquel patriarca
cinco.novembro.doismileoito

pecado da gula

é melhor a ementa que o soneto
.
hoje há…

consomê em verso ou creme de ervilhas_________1,00€
amêijoas à chefe com molho de redondilhas_____3,50€
rimas de cebolada (com arroz e salada)_______12,00€
sonetos de amor com broa e batatas a murro___13,50€
bife de estrofe na brasa e legumes d'esturro_12,75€
haiku de chocolate com gelado de limão________2,80€
mousse de manga com noz e quadras de s. joão__2,80€


bom apetite e volte sempre
.
dedicado aos companheiros d' o mar parece azeite.
raquel patriarca
catorze.julho.doismiledez

reflexos II

"loja de santinhos"
uma qualquer montra - rua das flores - porto
raquel patriarca
dois.fevereiro.doismiledez

o dia em que conheci o medo

antes
de conhecer
o medo
o mundo era leve
mais colorido
as terras habitadas
por barões aventureiros
índios e fadas
príncipes garbosos
criaturas fantásticas
e animais maravilhosos

qualquer sombra
ou inquietude
era – nesse tempo –
como um segredo
desconhecido
distante

até ao dia
em que conheci
o medo
descobri a tremura
nas pernas
a semente dos pesadelos
enquanto tentava não ver
o castanho das unhas
a rudeza das mãos cheias de pêlos

contava-se que numa ocasião
não muito longe
de então
dera uma tapona a um menino
de jeitos
a rebentar-lhe os lábios
e ainda que
estas coisas se contassem
em surdina –
respeitosa e sussurrada –
era forçoso ter fé em
tais histórias
velhas ou novas
conforme os detalhes
as imaginações e as memórias

no dia
em que conheci
o medo
descobri o descontrolo
das ideias
a incapacidade de falar
enquanto me sentia perder
no negrume profundo
na ameaça constante daquele olhar

espremesse alguém –
para um caldeirão –
um general sedento de sangue
um feiticeiro de coração mirrado
e um dragão venenoso e feroz
ainda assim
não ficaria nem metade
da malícia mal ardida
que ali respirava
em cada indício de gesto
em cada dobra da voz

no dia
em que conheci
o medo
descobri a insónia
da espera pela maldade
que pode existir em corpo de gente
a revolta da humilhação
pequenez e o pânico
que se vive envergonhadamente

por mais que tentasse
não concebia
qualquer espécie de
razão –
má ou boa –
para que uma dúzia de crianças
estivesse entregue
àquela lenda do terror
àquele estropício de pessoa

e não tinha
nem tenho ainda
ideia de nada que nos ensinasse
a não ser a certeza –
firme e fria –
que não há terras encantadas
que a bondade não é gratuita
que não existem fadas
nem anjos
nem magia

o dia
em que conheci
o medo
– que revivo ainda
em sonhos e acordada –
foi seguido de muitos outros
dias em que
na fila do fundo
olhos fixos na tijoleira do chão
me encolhia em silêncio
a ver se escapava
da natureza violenta mal explicada
e do discurso condescendente
e acusador –
a tentar ser moralista –
da dona lurdinhas
a senhora catequista

raquel patriarca
oito.julho.doismiledez

reflexos I


"no elevador"
entre o quarto e quinto andar do hotel - vienna - áustria
raquel patriarca
março.doismiledez

estrelas, planetas, plutóides e outras esferas do espaço - história redonda e achatada nos pólos... capítulo quatro

– E há muitos planetas, Plutão?
– Imensos! Há muitos que os cientistas conhecem e ainda muitos mais por conhecer. À volta do nosso Sol agora há oito planetas – Disse Plutão enquanto apontava para todas as esferas por onde o menino tinha passado. - A mim também já me chamaram planeta mas parece que sou demasiado pequeno e ganhei um novo nome.
– E tu não ficas triste? De não seres planeta como os outros? – Quis saber o menino preocupado.
Plutão atirou-se para trás e deu uma grande gargalhada.
– Não, querido! Não fico nada triste. – Sorriu para o menino com toda a doçura. Sabes, quando os cientistas descobriram que eu existia, eu já aqui estava há muito, muito tempo. Um tempo que só mesmo as estrelas conseguem lembrar. E vou ficar aqui muito, muito mais tempo. Mais cientistas hão-de vir com outras palavras engraçadas e nomes maravilhosos para nos dar a todos, e nós continuamos aqui, a dançar no espaço e a dar inspiração e grandeza aos sonhos dos cientistas meninos.
– E gostas do nome que te deram agora? Gostas de ser plutóide? – Perguntou o menino.
Plutão sorriu e abanou-se todo a dizer que sim.
– Oh sim! Estou muito contente. Já é magnífico quando nos dão um nome bonito. Mas quando inventam uma palavra nova só para nós, é muito mais especialíssimo! – Explicou Plutão muito entusiasmado. – Além disso ‘plutóide’ é uma classe muito mais fixe que planeta. E planetas há muitos.
– Ainda bem que estás contente! – Disse o menino mais aliviado. – Estava preocupado.
Plutão piscou o olho e continuou com a sua voz serena.
– Não precisas de te preocupar. Se pensares bem, nada mudou. Eu sou exactamente igual. Gosto deste cantinho do universo, mesmo frio e escuro. Penso que tenho tamanho, peso e massa em quantidades ideais. De vez em quando fico todo coberto de gelo e nessas alturas tenho muita pinta. Adoro os meus amigos. De longe a longe o Neptuno vem visitar-me para falarmos um bocadito sobre as magias do espaço.
– Eu também gosto muito de ti. – Confessou o menino. – Assim como és. – Acrescentou.
– Obrigado! – Respondeu Plutão um bocadinho corado. – Agora diz-me cá: o que raio é uma televisão?
O menino sorriu, sentiu-se muito importante por estar a ensinar coisas a um astro antigo e sábio, da idade do próprio tempo. Explicou tudo muito bem, com gestos e tudo, e respondeu a uma montanha de perguntas interessantes.
O menino esteve muito tempo à conversa com Plutão e os seus amigos. Depois despediu-se, prometeu fazer nova visita em breve e regressou ao planeta Terra.
O pai ainda estava a acabar de lanchar e o menino aproveitou para comer mais um pedaço de maçã e um bocadito de queijo, enquanto os dois acabavam de ouvir as notícias na televisão. Quando acabaram o pai perguntou:
– O que achas disto, filhote? Bestial não é? Uma nova classe de planetas!
– Sim, papá. Gosto especialmente da palavra ‘plutóide’… É muito engraçada. – Respondeu o menino. – Mas o Plutão de ontem é igual ao de hoje não é? No fundo não mudou nada, pois não?
– Pois não, filho! Tens razão. – Disse o pai. – Não era maravilhoso se pudéssemos viajar no espaço e visitar os planetas? – Perguntou ao mesmo tempo que pegava no filho ao colo para o pôr no chão.
– Sim, papá. Era maravilhoso! – Disse o menino enquanto respondia ao abraço do pai. – Era mesmo muito mais especialíssimo!

– fim –

raquel patriarca

três.março.doismilenove

terça-feira, 6 de julho de 2010

monumentos e instituições de uma cidade

"o balão do pedro"
s. joão - porto

"homenagem a manuel antónio pina"
feira do livro - porto

gigões são anantes muito grandes.

anantes são gigões muito pequenos.
os gigões diferem dos anantes:
uns são um bocado mais,
outros um bocado menos.


era uma vez um gigão tão grande, tão grande,
que não cabia.
- em quê?
- o gigão era tão grande
que nem se sabia
em que é que ele não cabia!

mas havia um anante
ainda maior que o gigão,
e esse então
nem se sabia se cabia ou não!
poema: manuel antónio pina
milnovecentosesetentaequatro
fotografias: raquel patriarca
cinco e vinteequatro.junho.doismiledez

começam a faltar-me pessoas de cabelos brancos

.
matilde rosa araújo
milnovecentosevinteeum - doismiledez

josé saramago
milnovecentosevinteedois - doismiledez

as fotografias não são minhas,
só a homenagem.

raquel
seis.julho.doismiledez

sexta-feira, 2 de julho de 2010

o desânimo é um chico-esperto da pior espécie

a parte má de se andar – uns dias atrás dos outros – a fintar o desânimo e a fazer de conta que não nos afecta, é que naqueles poucos dias em que – ocupados às turras com qualquer coisa – o filho da mãe nos apanha despreparadinhos de todo, enquanto se nos encadeiam os olhos e a alma na revelação inegável da estupidez humana em todo o seu esplendor, enterra-se-nos o corpo e a vontade pela terra adentro, numa profundidade efectiva e mensurável em cenários de tal maneira insuspeitos que, absorvidos no esforço de auto preservação, mal damos conta que o desânimo, sorrindo com a boca cheia e os dedos lustrosos de gula, nos vai comendo as papas na cabeça.

raquel patriarca
um.julho.doismiledez

terça-feira, 29 de junho de 2010

cento e dez

"o príncipe e eu"
secretária - casa - asteróide bê seiscentos e doze
raquel patriarca
vinteenove.junho.doismiledez
.
[no centésimo décimo aniversário de Antoine de Saint-Exupéry, 1900-1944]
.

terça-feira, 1 de junho de 2010

dia mundial da criança ou fotocionário IV


criança: s. f. – deriva de cria e de criação. menino ou menina no período da infância. pessoa estouvada, sem juízo e sem preocupações. pessoa pequenina que não devia ser possível que sofresse. entidade física de perfeição absoluta. alma de genuína bondade, inabalável resistência e imbatível alegria. criatura feliz a quem o mundo ainda não arrancou os sonhos e as ilusões de beleza e justiça; que acredita na possibilidade da mudança e na promessa do futuro. aquele que dorme.
raquel patriarca
um.junho.doismiledez

quinta-feira, 20 de maio de 2010

música

'silêncio surdo de ecos vazios'
linhares - celorico da beira - serra da estrela

há uma música bonita
que me inunda a
memória
de gestos serenos
e dias de sol

uma melopeia de coisas simples

o encanto de uma
história
contada de cor

‘era uma vez
há muitos muitos anos
numa terra distante...’

o murmúrio de uma oração
e o toque das contas
do terço
o abrir -
- vagaroso
de uma manga
à procura de um lenço

o som da água
a correr no ribeiro
empurrado pelo vento
e o bailar da roupa
que se mergulha e esfrega
ao ritmo
sincopado
de uma cantiga sem tempo

o burburinho
dos dias de feira
o tamborilar das compras
na cesta
o toque dos sinos tão perto
o encadeado dos cumprimentos
‘como está?
vamos indo obrigada
até amanhã
se deus quiser'

o flautear de uma
gargalhada
no fim da brincadeira

o compasso do
caminhar
em direcção a casa

o estalar do
pão de trigo
à hora da merenda

o suspiro cansado e
fundo
ao pousar
as mãos nodosas
no colo
alisando
resignadamente
as rugas da pele
as pontas do avental

o sussurro doce de uma
canção
de embalar
o soluço de
um afago e de um
beijo
antes de deitar

…

há um silêncio surdo
que me ensopa a
alma
de ecos vazios
e ausências doridas

‘era uma vez
há muitos muitos anos
numa terra distante...’

aos avós

raquel patriarca
dezanove.maio.doismiledez

segunda-feira, 17 de maio de 2010

estrelas, planetas, plutóides e outras esferas do espaço - história redonda e achatada nos pólos... capítulo três

Finalmente, lá estava ele! Plutão olhou para o menino e sorriu muito satisfeito como se estivesse à espera da sua visita. Era uma esfera mais pequena. Ao lado das outras quase parecia um berlinde. Mas não um berlindinho pequenino. Vá lá… um abafador. Tinha um ar sábio e sereno, como as pessoas velhas que o menino conhecia. Como os avós.
– Olá! – Disse o menino meio a medo.
– Olá! – Respondeu o berlinde de nome Plutão, com a sua voz funda e cheia de força.
– Eu sou um menino e venho daquela esfera azul e bonita além ao fundo, quase a chegar ao Sol. Chama-se Terra. – Explicou o menino enquanto apontava. – Hoje ouvi falar muito em ti. Depois comecei a pensar, a pensar… e aqui estou eu!
– Fizeste bem em vir-nos visitar. – Respondeu Plutão – Estes são os meus amigos Caron, Nix e Hidra – disse Plutão enquanto apontava para três outros berlindes que giravam alegremente à sua volta.
O menino sorriu e acenou-lhes com a cabeça.
– Havia uns senhores na televisão e disseram que tu agora já não és um planeta. – Começou o menino a contar – Na verdade não sei bem o que é um planeta…
– Isso é óptimo, porque eu não faço ideia do que seja uma televisão! – Respondeu Plutão bem-disposto. Cruzou os olhos na brincadeira e pôs todos a rir. – Os senhores de que falas – continuou – chamam-se astrónomos e são cientistas. Eu gosto muito deles porque quando eram pequeninos vinham cá visitar-me muitas vezes, e agora que são grandes continuam a ter a cabeça e o coração nas estrelas.
– A sério? – Perguntou o menino maravilhado.
– Sim, claro! Passavam aqui muito tempo connosco. Como é que tu achas que eles aprendem tantas coisas interessantes sobre o espaço, as estrelas, os planetas…?
– Estou a ver. – Disse o menino. – Mas o que é um planeta, afinal?
– Planeta é o que os nossos amigos cientistas chamam a todas estas esferas grandes de rocha que giram no espaço à roda de uma estrela gigante. – Explicou Plutão apontando o Sol lá ao fundo e todos os astros à sua volta.
– Ah! – Exclamou o menino. – E são só as estrelas gigantes que têm planetas? – Perguntou.
– Oh sim! Para ter planetas uma estrela tem de ser muito grande e ter muita força.
– Como os meninos? Que têm de comer tudo para serem grandes e fortes? – Perguntou o menino.
– Exactamente! – Disse Plutão enquanto os seus três amiguinhos diziam que sim com um ar muito entendido. – Só que a força das estrelas chama-se gravidade, e faz com que os planetas se aproximem e fiquem a girar à sua volta. Diz-se que ficam em órbita. A gravitar.

raquel patriarca
três.março.doismilenove

quarta-feira, 5 de maio de 2010

semana cultural no colégio dos carvalhos

no passado dia vinte e oito de abril  fui ao colégio internato dos carvalhos dar uma palestra sobre história do livro. a sessão teve lugar na biblioteca e integrou as actividades da semana cultural do colégio. eu adorei lá estar e vim cheia de presentes, sorrisos e simpatia. quero agradecer a todos os que me vieram ouvir e conversar comigo e, com especial carinho, à marta, ao diogo, ao daniel e à carla araújo. todos foram excepcionais e fizeram com que eu me sentisse excepcional também.
agora fazem parte de mim e quero dedicar-lhes este pequeno 'pedaço de blog'. bem-hajam e até breve. 






'era uma vez o livro'
semana cultural - colégio internato dos carvalhos - vinteeoito.abril.doismiledez

 fotografias: carla araújo
texto: raquel patriarca
cinco.maio.doismiledez

quinta-feira, 22 de abril de 2010

yo tambien soy Garzón

"há um telhado onde o vento vem chorar"
poema de juan kruz igerabide - uma página do meu caderno


afilado es el tejado de mi casa;
llora el viento
llora cuando pasa.
______________Juan Kruz Igerabide


este poema, escrito originalmente em basco e aqui traduzido para castelhano, fala de um telhado como a única parte de uma casa que se avista de muito longe. fala do olhar de uma criança que perdeu a casa no dia em a falange lhe levou os pais. fala de um homem adulto preso na memória de um telhado pousado na linha do horizonte, onde o vento vem intencionalmente chorar. e fala de vidas e de verdades que nem o vento pode esquecer.

raquel patrairca
vinteedois.abril.doismiledez

segunda-feira, 19 de abril de 2010

estrelas, planetas, plutóides e outras esferas do espaço - história redonda e achatada nos pólos... capítulo dois

Olhou em redor e ficou maravilhado! O Sol, magnífico e luminoso, espreguiçava salpicos de fogo em todas as direcções. O menino sentiu-se quentinho por dentro e deixou-se ali ficar. À volta do Sol saltitava e saracoteava um pequeno astro a quem chamam Mercúrio, que é nome de remédio para pôr em joelhos esfolados. O menino percebeu logo a razão daquele nome: a pequena esfera saltava tanto e tão depressa que de certeza, de vez em quando, caía e se magoava.
Um bocadinho mais atrás, muito serena e elegante, flutuava a esfera de nome Vénus. Era muito bonita. Tinha uns olhos doces e profundos com pestanas longas e umas bochechas pequeninas e coradas. Sorriu timidamente ao menino e ele sentiu um esquisito calor na cara… devia ser do Sol. Disse-lhe adeus com a mãozita, virou as costas ao Sol e seguiu caminho.
O menino viajava pelo espaço como se estivesse a dançar suspenso no vazio. Ora andava muito descontraído como se passeasse no parque, ora se deitava de barriga para cima e batia os braços e os pés como se estivesse a nadar na praia. E às vezes, só para brincar, fazia de conta que pedalava na sua bicicleta.
Passado algum tempo encontrou uma esfera enorme, entre o vermelho e a cor do fogo, que tinha um ar muito simpático mas um bocadinho nervoso, e estava sempre a piscar os olhos e a fazer as caras mais cómicas que o menino já tinha visto.
– Olá! – Disse o menino – És tu aquele a quem chamam Plutão?
– Olá! – Respondeu a esfera – Eu chamo-me Marte. O Plutão é o último de todos, lá ao fundo onde está frio e escuro. Eu levava-te lá mas não me posso desviar do meu caminho... Já assim se diz por aí que sou um excêntrico! Achas que consegues ir sozinho? – Claro que sim! – Disse o menino. – Muito brigado. – Acrescentou enquanto dizia adeus a Marte que lhe sorria sempre a piscar os olhos.
O menino continuou a sua viagem e encontrou mais esferas. Júpiter era tão grande, mas tão grande que o menino nem conseguiu ver-lhe toda a cara. Viu só um olho risonho e uma bochecha gorducha. Estava muito entretido a cantar para si próprio enquanto orbitava e o menino não o quis interromper. A esfera chamada Saturno ria à gargalhada tão alto que fazia tremer as suas nove luas e tremeluzir as estrelas que estavam por ali perto. O menino percebeu depois que ela tinha uma multidão de pedras, pedrinhas e pedregulhos a girar à sua volta que lhe faziam muitas cócegas.
Um bocadinho mais à frente viviam mais duas esferas, Neptuno e Urano, um pouco mais pequenas, redondas e perfeitas, como dois lindos olhos azuis, que espreitavam do meio do escuro e, com carinho, lhe indicavam o caminho para Plutão.

raquel patriarca
três.março.doismilenove

domingo, 18 de abril de 2010

quinta-feira, 8 de abril de 2010

terra sem palavras e palavras sem terra


ontem fui ao teatro e gostei muito muito. o cenário estava muito bonito, os "jogos de luz" criaram efeitos magníficos e a banda sonora foi muito bem conseguida. a performance foi excelente... o texto era profundo, cheio de reflexões e conflitos importantes… internas e não só.
partilhamos, ali sentados, a angústia de uma... pintora que não consegue pintar, ou consegue mas não quer pintar aquilo que lhe enche a alma, depois de ter passado algum tempo numa cidade devastada pela guerra e de ter testemunhado os horrores e as incongruências surreais características desses cenários.
e ela – a artista – rodeada de amargura e destruição, procura uma saída deste estado de alma. deste estado de consciência do mundo. invadida de vermelho e castanho e preto, procura o branco para pintar. procura a luz e a felicidade, mas não consegue negar a dor que viu e que sente e está, por isso, de mãos e pincéis atados.
vim de lá um com um pedaço dessa angústia – e de medo – de um dia poder become stuck, que todos podemos, se quisermos, see the surface and feel what is underneath e sermos para sempre transformados por aquilo que vemos. é tudo uma questão de perspectiva…

raquel patriarca
.oito.abril.doismiledez
terra sem palavras
dea loher
uma produção assédio
com interpretação de rosa quiroga
em cena no estúdio zero
de 27 de março a 11 de abril
de terça a sábado às 21.30h e domingo às 16.00h
.
.

sábado, 3 de abril de 2010

fragmentoisas VII


"março é meu"
colagem pseudo-inspirada e duvidosamente artística gestada e parida numa qualquer noite de março enquanto esperava pela primavera como quem acredita no pai-natal...
.
raquel patriarca
três.abril.doismiledez

sexta-feira, 2 de abril de 2010

estrelas, planetas, plutóides e outras esferas do espaço - história redonda e achatada nos pólos... capítulo um

Era uma vez um menino. Um menino em tudo igual aos outros meninos da sua idade. Era diferente apenas numa coisa, só sua e muito especial. Este menino estava sempre atento a tudo, adorava fazer perguntas e pensava, pensava muito; nas coisas sérias e nas brincadeiras, nos acontecimentos importantes e nos pormenores pequeninos, em tudo e em nada.
Um dia, ouviu um senhor muito bem engravatado na televisão a dizer que Plutão, o nono planeta, tinha deixado de o ser. A partir de agora fazia parte da classe dos Plutóides. E aquilo devia ser um assunto sério porque vieram muitos senhores falar sobre a mesma coisa e todos usavam óculos. Até o pai tinha ficado muito calado e quieto a ouvir a notícia, enquanto o menino esperava que ele lhe descascasse o resto da maçã.
Não era todos os dias que se falava tanto de planetas e estrelas à hora do lanche, e o menino tentava perceber o que se dizia na notícia, mas não era nada fácil porque os senhores na televisão têm muita dificuldade em falar como gente normal.
Assim que acabou de comer a maçã, o menino saltou de cima do seu banquito e caiu, caiu, caiu... Passou as nuvens e ficou com imensos pedacitos de algodão de chuva nos cabelos. Depois tudo foi ficando escuro à sua volta, como se entrasse devagarinho numa noite cheia de estrelas muito brilhantes.


raquel patriarca
três.março.doismilenove

nota: hoje comemora-se o dia mundial do livro infantil e faz anos que nasceu o senhor Hans Christian Andersen (1805-1875) que, por coincidência, escreveu muitos livros para crianças!
.

domingo, 21 de março de 2010

um poema épico para um herói


era uma vez
um menino chamado afonso
que foi o mais bravo guerreiro
de todos os contos e histórias de encantar,
um herói tão especial
que lhe escreveram poemas épicos
daqueles que se cantam nas noites de luar;
inspirou as verdadeiras lendas
e ergueram-lhe estátuas de bronze
onde as donzelas e princesas
vinham deixar flores e outras prendas.
.
o seu nome ganhou um significado novo:
afonso passou a querer dizer
‘aquele que está pronto para combater’
e todos, fidalgos cavaleiros ou homens do povo,
que o viram ou conheceram a sua história
testemunharam a sua coragem
e guardaram-na, como a um tesouro,
nos cantinhos luminosos da alma
e nos corredores empoeirados da memória.
.
ainda hoje, acreditem em mim,
afonso é um nome sonante
de homem sábio, forte e importante
(tivemos muitos reis a quem chamaram assim).
tudo porque um menino com olhos de mel
combateu dragões, gigantes e moinhos
e até inimigos que nunca viu,
armado apenas com esperanças e carinhos
e montado no cavalo colorido de um carrossel.
.
– – – –
.
era uma vez
um menino chamado afonso
que tinha olhos profundos e doces,
com a vida para viver
e gargalhadas para dobrar.
queria ir à escola
e jogar à bola
e brincar.
.
era uma vez um menino
que em vez de ser só um menino
escolheu, muito cedo,
ser um exemplo a seguir:
porque ser um herói,
é ter medo
e sorrir.
.
dedicado ao afonso, no dia mundial da poesia. com carinho e um respeito infinito.
..
raquel patriarca
vinteeum.março.doismiledez
________________________________________________________
. 
o afonso é um menino de seis anos. 
está a lutar pela vida contra e uma leucemia rara e muito agressiva.
precisa da nossa ajuda.

eu já estou registada como dadora de medula óssea.
vem juntar-te a este 'exército'.

o alistamento faz-se num dos centros de recruta e basta prestar voto de fidelidade e fazer um juramento de sangue, o que implica assinar um papel e fazer uma - muito pequena - recolha de sangue para análise.

e depois é possível que salvemos a vida a uma criança...

para mais lendas e poemas sobre o afonso, clicar aqui.

sexta-feira, 19 de março de 2010

pai ou fotocionário III ou escrever no dia do pai


pai: s. m. – do latim patre, também chamado de progenitor , genitor ou gerador. é a figura masculina de uma família que tenha um ou mais filhos e assume o primeiro grau de uma linha ascendente de parentesco. pessoa dita adulta altamente relevante na vida das crias, cujas principais funções assumem âmbitos diversos e tarefas de incalculável importância como montar legos, receber abraços à chegada a casa, afugentar pesadelos à noite, ensinar a subir às árvores e a andar de bicicleta, ajudar a esconder segredos da mãe, fazer cócegas e lutar com almofadas, sorrir todas as manhãs, castigar as asneiras e perdoar asneiras. cabe-lhe ainda, por imperativo genético, a guarda da confiança absoluta, o ministério da validação suprema e o exercício do orgulho baboso em todos os momentos do percurso existencial dos filhos e filhas. aquele que, no fim do seu percurso, possa atingir o patamar onde os filhos – voluntariamente – entreguem à sua guarda a confiança absoluta, aceitem e procurem a sua validação como a de uma instância suprema e exercitem eles próprios o orgulho baboso pela pessoa do seu pai, será elevado à categoria de um deus.

dedicado ao raúl antes de mais, ao miguel logo depois, ao joaquim a seguir...
e também à odete, à juli e à ritinha

raquel patriarca
dezanove.março.doismiledez

perguntas incisivas sobre a origem da vida

– ó mãe – disse ele, a voz cheia de angústia e a boca cheia de sangue – porque é que temos que mudar de dentes? eu não me sinto preparado para isto…
limpei-lhe as lágrimas dos olhos e o sangue dos lábios. – não chores, querido. tudo isto é normal. – a voz doce e a conversa tranquila chegavam-me de longe, numa espécie de ligação sem fios ao poder mágico que têm as mães de fazer passar dores e tristezas. – estás a crescer e vão nascer dentitos novos…
.
.– eu já sei essas coisas todas e não é disso que eu estou a falar. – o olhar dele mudou de um desamparo suplicante para uma determinação exigente. a condescendência e a presunção morreram-me nos lábios enquanto me senti a corar. por momentos acreditei que me fosse mandar à fava mas ele continuou.
– quem é que nos deu a vida e quem é que fez o mundo? – interrompeu-se-me a magia num instante. pareceu que me ficava o discurso a arranhar a garganta e a saber ao que saberia a estática, se a estática fosse um sabor em vez de ser um som ou uma corrente eléctrica sem definição ou substância. – as árvores e o mar e as coisas, – as palavras saiam-lhe em atropelos indignados – porque é que quem fez tantas coisas nos fez de maneira a termos de mudar de dentes? – rebolou-lhe outra lágrima gorda que eu segui até lhe pingar do queixo. – isto dói, mamã!
.

na palma da mão aberta estava um incisivo do tamanho de uma pedrinha de sal. assim estendido como um inacreditável destroço de vida, a prova acabada da falta de sentido e coerência nas coisas do mundo, a consciência clara da miserável pequenez que marca a condição humana.
abracei-o muito e não fui capaz de lhe dizer mais nada. pensei só que, se calhar, não me sinto preparada para isto…
raquel patriarca
dezanove.março.doismiledez

quarta-feira, 17 de março de 2010

trinta e seis


eu hoje faço anos.
eu gosto de fazer anos.

tenho beijos, bolo de chocolate e carinho
em quantidades absurdas
(esdrúxulas mesmo)
e não há nada melhor

não me importa nada que esteja a envelhecer
até porque me parece pouco sensato –
senão for mesmo uma idiotice –
recear que venha o passar dos anos
provocar na minha pessoa
os ‘danos irreparáveis’ da velhice,
quando eu já nasci
com as sobrancelhas tortas, os joanetes e o mau feitio que hoje tenho
ah pois.
só as unhas roídas é que vieram depois
(mais ou menos na mesma altura em que vieram os dentes…)


é natural que o tempo me vá passando por cima
mas –
– em contrapartida
eu também passo por cima dele;
a correr, aos saltos e a fazer o pino
de mangas arregaçadas,
as mãos à cinta
e o nariz empinado ao destino.


é isto:
mais um ano
as mesmas rugas de ontem
(todas de riso)
e a mesma falta de juízo.
raquel patriarca
dezassete.março.doismiledez