junho de 2008
terça-feira, 30 de setembro de 2008
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
ethos
- yes… well… she lacks ethos - he answered.
“fine, I’m all about ethos. and by ethos I mean - without having to look it up - heart, essence, core, character, feeling and soul”. it all whirled through my head, and I looked at him as he kipped his eyes on her beautiful ethos free face.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
beiral
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
o gafanhoto do sorriso maroto
era uma vez... um lindo gafanhoto,
bochechas verde-cinza
e um sorriso maroto.
este lindo bicharoco
(de nome Joaquim),
vive por baixo de um ramo
de cheiroso alecrim.
o que faz do Joaquim
um bicho especial
é ser sempre tão alegre,
simpático e jovial.
um dia, alguém lhe perguntou:
“oh Joaquim, porque és tão feliz?”
e ele a sorrir respondeu:
“porque o sol brilha nos teus olhos no momento em que sorris!”
texto b. pecorabuona, março de 2008
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
o mar

espero a chegada do mar.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
a história do avô que nasceu na selva amazónica
De mansinho, quase sem fazer barulho nenhum, o avô chegou e pousou-lhe a mão no ombro.
– Estás bem, querido? Queres alguma coisa? – perguntou.
– Estou bem avô. – Respondeu o menino que falava muito bem. – Estou só caidito…
O avô enterneceu-se. Pegou no menino ao colo, deu-lhe um abraço apertado e um beijinho na bochechinha corada e quente dos restitos da febre.
– Anda cá. Vou contar-te uma história. Uma história fantástica!
O avô sentou-se no cadeirão, pertinho da lareira e o menino aconchegou-se bem no seu colo, com as pontinhas dos pés fez deslizar as pantufas dos calcanhares e enterrou os pés entre a perna do avô e a almofada. Depois abriu muito os olhitos e ficou à espera.
– Vou contar-te a história da minha infância. Tu não sabes, mas eu nasci no meio de uma floresta.
– Numa floresta, avô? – perguntou a criança subitamente iluminada de curiosidade.
– Isso mesmo, filho. Numa floresta. – respondeu o avô, muito solene. – E não foi numa floresta qualquer; foi na floresta amazónica.
– A sério avô? – diz o menino fascinado.
– A sério! Nasci na floresta amazónica muito, muito longe daqui, mesmo aos pés de uma árvore, acho que era um eucalipto ou então uma goiaba brava. Já foi há muito tempo.
– Oh avô, – pergunta o menino – Na Amazónia há eucaliptos?
– Claro que sim! – responde prontamente o avô. – A floresta amazónica é o último sítio do mundo onde existem todas as espécies de árvores.
– Ahhhh! – exclama acriança – Deve ser muito grande!
– Pois é! – continua o avô – Grande e bonito! E foi aí mesmo que eu nasci ali. Junto à raiz de uma árvore, mesmo ao lado de um ninho de cobras venenosas.
– Venenosas, avô? – pergunta o menino, tremendo com um arrepio e apertando o braço do avô entre as suas mãozitas pequeninas – E não tiveste medo?
– Não, não tive medo porque houve uma tribo de índios da Amazónia que tratou de mim, e me criou até eu ser grande.
– Oh avô, – interrompe a criança, – o que é uma tribo?
– Boa pergunta! – sorri o avô. – Uma tribo é um grupo de pessoas que vivem mais ou menos juntas, e que trabalham e partilham as coisas que têm e se encarregam do bem-estar umas das outras. – tenta explicar.
– Como uma família? – pergunta o menino.
– Exactamente! – responde o avô.
– E tu quando eras pequenino viveste com essa família chamada Tribo? Na Amazónia?
– Isso mesmo. Durante muitos anos, vivi com os índios da floresta. Aprendi a caçar e a cozinhar a carne, e a lutar com animais selvagens quando era preciso proteger o nosso espaço.
– E alguma vez lutaste com um animal selvagem avô? – quis saber a criança, rendida de fascínio e antecipação.
– Oh sim! Muitas vezes! – contou o avô, fechando os olhos como quem está a lembrar. – Uma vez lutei com um leão, mas não o magoei muito, só o suficiente para ele se ir embora. Porque os índios da floresta amazónica ensinaram-me que devemos ser amigos de todos os animais.
– Mesmo dos maus? – pergunta o neto.
– Claro, filhinho. – diz o avô – Aqueles animais a que chamas de maus, só são maus às vezes, quando têm fome ou se sentem ameaçados, percebes?
– Sim, avô.
– Houve outra vez que uma enormíssima cobra vinha por entre os arbustos junto à terra, decidida a comer um passarito que costumava vir cantar de manhã, perto da minha cabana.
– E depois?
– Depois fiquei zangado porque gostava muito do passarito e não queria que nenhum animal lhe fizesse mal. Tive de lá ir a correr, agarrei na cobra com as duas mãos e zás, dei-lhe uma dentada!
– A sério, avô? – pergunta o menino.
– Mesmo a sério! – assegura o avô – uma enorme dentada na pele escamosa das costas.
– E não te fez impressão?
– Fez um bocadinho, é verdade. As cobras são muito frias e viscosas. Há outros animais mais simpáticos e agradáveis de tocar… como o meu amigo elefante bebé.
– Tu tinhas um amigo elefante bebé?
– Tinha pois. Ficamos amigos no dia em que eu o salvei de uma matilha de hipopótamos.
– Uma matilha de hipopótamos – pergunta o menino assombrado.
– Isso mesmo! – explica o avô – Vinham todos por ali abaixo a correr e iam passar por cima do pobre elefante bebé.
– E tu salvaste-o? – diz a criança num misto de admiração e orgulho. – Tu sozinho!
– Eu mesmo! – responde o avô todo inchado. – Desde esse dia fomos os melhores amigos. Ele levava-me a passear sentado no seu pescoço, sacudia-me as moscas com as grandes orelhas e eu fazia-lhe festinhas no pêlo macio. Andávamos juntos para todo o lado.
– Deve ser bom ter um amigo elefante! – exclama o menino.
– É sim senhor – concorda o avô. – É muito bom. Não há nada no mundo tão bom como os amigos!
– Tinhas mais amigos, avô? – pergunta o neto, muito interessado.
– Oh sim! Tinha muitos amigos. Mas há sempre alguns especiais. Aqueles que estão sempre a nosso lado, que nos conhecem os segredos e nos aceitam assim, tal e qual como nós somos. Desses amigos que são quase irmãos eu tinha dois. Um era o elefante, que tu já conheces, o outro era um cão-crodilo.
– Um cão-crodilo? – pergunta a criança incrédula.
– Sim, um cão-crodilo. É uma espécie muito rara. É como um crocodilo mas especialmente fiel e dedicado aos amigos. E queres saber o que era mais engraçado? – Perguntou o avô.
– Quero! – respondeu prontamente o neto.
– Ele abanava a cauda para dizer “Olá” de cada vez que nos encontrávamos!
O menino atirou a cabeça para trás deu uma daquelas gargalhadas límpidas e luminosas que só as crianças sabem dar. Abraçou o avô pelo pescoço, e disse-lhe quase ao ouvido:
– Avô, tu contas as melhores histórias do mundo!
O avô também sorriu e devolveu o abraço.
– Vá, agora vamos ao lanche que a mamã deve estar quase a chegar para te levar para casa.
E lá foram os dois, recordar detalhes da história e acrescentar outros novos, entre dentadas de pão de lenha e goles de leite com chocolate.
Mais tarde, como combinado, a mãe chegou. Deliciada viu o filho, sorridente e de olhos brilhantes, correr para si de braços abertos.
– Mãe! – diz a criança – Hoje aprendi uma coisa muito importante! Queres que te conte?
– Claro, amor! – responde a mãe – Quero que me contes tudo!
– Sabes, todas as pessoas têm amigos. E alguns desses amigos são muito especiais. – Explica o menino, abanando a cabeça para melhor se fazer entender. – Conversam muito e quando estão tristes dão as mãos e quando estão contentes brincam juntos. – Continua a criança fazendo gestos com as mãozitas e abrindo muito os olhos. – Percebes?
– Sim, amor. Claro que percebo. – Responde a mãe. – E tu também hás-de ter amigos assim especiais, meu querido.
– Eu já tenho, mãe! – Diz o menino, virando a cabecita e sorrindo para o avô, que lhe pisca o olho em resposta.
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
lembras-te?
deste-me a mão, lembras-te?
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
photo grafia VI
junho de 2008
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
chuva
pensei em ti.
será que o céu também chora?
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
carta a uma amiga
se soubesse o que te dizer, dir-te-ia que sou nut, a deusa, e que do meu corpo farei um escudo impenetrável entre ti e o caos, que sou belorofonte, o herói, e que banirei todos os teus monstros e quimeras, que sou parcival, o cavaleiro, e que expulsarei do teu mundo todo o mal, o sofrimento e a escuridão… mas na verdade sou fraca, pequena e incapaz seja do que for.
se soubesse o que te dizer, dir-te-ia as palavras serenas que precisas de ouvir, acalmaria a ansiedade, afastaria a angústia, inventaria a esperança. choraria em silêncio as tuas lágrimas, acordaria gelada com os teus pesadelos, sufocaria na opressão do teu peito, suportaria a tua solidão… mas não sei o que te dizer... não sei o que fazer.
dir-te-ei que o meu carinho e amizade por ti são absolutos e incondicionais. dir-te-ei que te adoro e que estou aqui.
agosto de 2008
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
terça-feira, 19 de agosto de 2008
portugal nos jogos olímpicos de pequim
E somos coitadinhos porque não sabemos estar à altura das situações, nem ter a contenção e dignidade que cada momento merece. Somos coitadinhos porque somos pobres de espírito e nos lançamos ao pescoço uns dos outros ao menor sinal de deslize, desatamos atribuir culpas ao primeiro sintoma de fracasso, e nos achamos capazes de criticar e fazer juízos de valor sobre o que não conhecemos nem compreendemos.
Os últimos dias, e sobretudo as últimas 24 horas, têm sido profícuos em trocas de mimos entre “portugueses descontentes”, os atletas da Missão Portuguesa e o próprio Comité Olímpico de Portugal, tudo patrocinado, está bom de ver, pela nossa sempre oportuna Comunicação Social.
Os “portugueses descontentes” mostram-se sobretudo indignados pela noção generalizada de má prestação dos seus atletas, agravada pelos comentários pouco felizes que são proferidos no fim das provas. E, afinal de contas, isto sai tudo do nosso bolso. Em primeiro lugar: não, não sai. Uma parte significativa do orçamento sai dos bolsos dos patrocinadores oficiais, e dos oficiosos; que são sempre (e sempre serão) os paizinhos dos atletas, eles próprios e restante família. Para quem não sabe, um atleta olímpico demora uma vida a criar e não os 4 ou 5 anos de calendário que cabem nos projectos dos comités olímpicos de cada país e que antecedem os grandes eventos. E para que não haja dúvidas de quem pagou o quê, todos esses planos de actividades, orçamentos e relatórios são públicos, e podem ser consultados no site oficial do C.O.P. Pelo contrário, o esforço, motivação e sacrifícios são totalmente da responsabilidade dos atletas e respectivas famílias, que aí os “portugueses” que contribuem são muito poucos. Os restantes entram agora em acção a exigir resultados de excelência de alguém cuja existência desconheciam até ontem ter competido numa modalidade que não sabem muito bem o que é…
Porque desporto que é desporto em Portugal é o futebol e tudo o que ele acarreta de arguidos e processos em tribunal, madeixas de cabelo e tatuagens nas costas, frases feitas e fogo-de-artifício, parangonas de jornal e debates televisivos de baixo nível. Não temos uma cultura desportiva de modalidades olímpicas, e quanto mais depressa o assumirmos, tanto melhor para todos. Não somos sequer um povo sensível aos fundamentos do olimpismo. Não faremos nunca sombra a equipas de atletas oriundos de países que dedicam não só esforços financeiros e políticos, mas também todos os recursos necessários para que, no estádio olímpico e perante os olhos do mundo, possam elevar os seus atletas – e, por arrasto, todo o seu povo – ao nível de heróis da antiguidade. Os nossos heróis, aqueles que temos por vício achar que foi o país que pariu e de cujas vitórias também chove algum mérito para os restantes “portugueses”, são heróis única e exclusivamente por mérito próprio. São absolutamente excepcionais. Não são nem nunca foram a norma no nosso país.
É típico do português – ou talvez da natureza humana – ser-se muito exigente com os outros enquanto se vai guardando uma tolerância evangélica para si próprio. E os senhores jornalistas façam um favor à nação: deixem de entrevistar os atletas nas horas que se seguem às provas. Só quem nunca competiu é que pode pensar que resta uma pinga de sangue a irrigar o cérebro daqueles rapazes e raparigas depois do esforço físico, mental e emocional por que passam. É verdade que o Marco Fortes – jovem de 25 anos, estudante do ensino secundário, atleta do Sporting Clube de Portugal e participante na prova de lançamento do peso – foi profundamente infeliz ao tentar ser engraçadinho nas suas declarações à comunicação social. Foi um momento mau. E lá estava o bom repórter a registar para a posteridade e retransmitir até à náusea o segundo mau momento do atleta naquele dia. Abençoados de nós que erramos escabrosamente na vida sem duas dúzias de repórteres e vinte milhões de olhos em cima.
Muitos dos elementos da equipa olímpica foram deselegantes nas suas declarações. Inclusivamente o Presidente do Comité Olímpico de Portugal que, querendo controlar os comentários dos atletas, devia ter providenciado atempadamente para toda a delegação, a preparação necessária para tourear a comunicação social – sessão de formação a que deve também comparecer – ou, em última análise, mandá-los calar quando achasse que se estavam a ‘esticar’. O que ele não devia fazer era vir, ele próprio, para a comunicação social, acusá-los de dar desculpas esfarrapadas, falta de brio e profissionalismo. Como raio é que se acusa de falta de profissionalismo atletas que estão a representar um país que não lhes dá as condições para pôr a cantar um cego, quanto mais para se profissionalizarem?
A vergonha é que um atleta com a estatura do Gustavo Lima diga que não pode mais sujeitar-se à vida que leva como atleta e sinta que não valeu a pena. É uma vergonha, mas não é para ele. Pergunto quantos dos “portugueses descontentes” teriam chegado onde ele chegou. Devemos ficar tristes que ele se sinta assim, sobretudo porque não nos é possível compreender ou pôr em causa o que ele sente. O esforço foi seu, o desgosto é seu, e o orgulho pela excelente classificação que teve é também, obrigatoriamente, só seu.
Outra excelente prestação desportiva foi a da Vanessa Fernandes. Foi uma alegria para todos, não há dúvidas. Tivesse ela sido diferente dos demais, tivesse ela passado ao largo da ‘polémica’ e dito uma perfeita banalidade vazia de conteúdo do tipo “por um minuto/centímetro/ponto se ganha e se perde” ou “o desporto é assim mesmo”, teria saído destas olimpíadas como uma verdadeira campeã.
Num dos documentos oficiais do C.O.P. disponíveis on-line podemos ler que “No Desporto há muitas incógnitas e variáveis sendo curta a distância da glória ao fracasso”. O que não diz é que a dignidade não deve nem pode ser uma incógnita ou uma variável, mas antes a única constante, na vitória como na derrota. É preciso ter consciência que a esmagadora maioria dos atletas presentes em qualquer competição dos Jogos Olímpicos vai regressar a casa sem medalhas no bolso. É preciso ter consciência que para a esmagadora maioria de nós nenhum destes estrondosos fracassos irá algum dia acontecer, porque não temos qualidade para tal. É preciso ter consciência de que eles falharam, mas nós falhámos mais.
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
a história da girafa da cor do céu

– Mãe… – diz o filho baixinho.
– Sim, amor? – responde a mãe.
– O pôr-do-sol é bonito não é? – pergunta o filho.
– É sim, amor. É muito bonito. – diz a mãe. – Sabes, quando eu era pequenina, assim da tua idade, a avó contou-me uma história sobre um pôr-do-sol.
– Uma história do pôr-do-sol? – diz o menino, curioso.
– Sim, uma história sobre um pôr-do-sol. Um pôr-do-sol num sítio muito longe daqui, onde a terra é castanha e o céu é laranja e vermelho. A avó contou que é tão bonito, tão bonito, que quem o vê nunca mais esquece aquelas cores, aqueles sons e aqueles cheiros.
– E que mais te contou avó? – pergunta a criança.
– Contou que um dia ela estava sentada na savana…
– Mamã… – interrompe o menino, – O que é uma savana?
– A savana é uma terra muito grande, sem montes nem montanhas, que se estende por todos os lados para onde podemos olhar. A terra é amarelada e só tem alguns arbustos e umas poucas árvores para fazer sombra e pintalgar de verde a paisagem.
– Está bem. – diz o filho satisfeito com a explicação.
– Então… – continua a mãe. – Estava a avó sentada na savana e à medida que chegava o fim da tarde, como agora, viu o sol a pôr-se. A terra foi ficando mais escura, mais escura, até parecer quase negra. O céu também escurecia e ficava da cor do fogo; primeiro amarelo, depois laranja e por fim cada vez mais vermelho. O sol como uma grande bola redonda muito brilhante e quase branca, foi descendo, descendo até desaparecer numa toca muito longe escondida no horizonte.
– Mamã… – interrompe o menino novamente, – O que é o horizonte?
– O horizonte é aquela linha que vemos lá ao fundo, onde a terra e o céu se tocam, – explica a mãe enquanto aponta, – Vês além?
– Vejo mamã. – responde a criança. – Deve ser um pôr-do-sol mesmo muito bonito!
– E é mesmo, filhinho. Muito, muito bonito.
– E depois, o que é que aconteceu mais? –
– Depois, quando o sol já estava meio escondido na terra, lá ao fundinho, – continuou a mãe – a avó viu a passar uma girafa…
– Uma girafa? – pergunta a criança.
– Uma girafa! – responde a mãe.
– Sabes qual é a melhor coisa das girafas, mamã? – pergunta o filho.
– Diz lá amor.
– É que as girafas conseguem limpar os ouvidos com a língua!
– Isso é muito interessante, filho!
– E o que é que aconteceu depois?
– Depois a girafa parou a conversar com a avó, porque a avó sabe falar a língua de todos os animais, – continua a mãe.
– De verdade?
– De verdade!
– Mesmo assim… falar, falar… como nós estamos a falar? – certificou-se a criança enquanto apontava para a mãe e para si próprio, ao mesmo tempo que dizia que sim com a cabeça com os olhinhos muito arregalados.
– Tal e qual! – assegurou a mãe.
– E como se chamava a girafa amiga da avó? – quis saber o menino.
– A girafa chamava-se Gaia. Era muito alta e bonita. Tinha um pescoço muito comprido, mais comprido do que qualquer outro animal, e um pelo alaranjado da cor do céu ao pôr-do-sol, com manchas castanhas da cor da terra.
– Devia ser muito bonita. – diz o filhinho.
– E era mesmo. – Responde a mãe. – A girafa chamada Gaia contou à avó que desde que era uma girafinha pequena, mal começou a esticar o pescocito para ver mais longe, queria ver para além do horizonte e descobrir para onde ia o sol quando deixava o céu e se escondia na terra. Contou que quando cresceu decidiu ir atrás desse sítio chamado horizonte, e que um dia, se despediu da família e dos amigos, e partiu numa grande viagem ao encontro do pôr-do-sol.
– E então? Encontrou-o? – diz ansiosa a criança.
– Foi exactamente o que a avó lhe perguntou. – explicou a mãe.
– E ela?
– A girafa contou que tinha viajado muitos, muitos dias. Que tinha visto muitas vezes o sol a pôr-se. E contou que quando caminhava sob as árvores da floresta, nunca perdia o sol de vista por entre os ramos altos e cheios de folhas verdes. Então viu o sol a atravessar as árvores em raios de luz que faziam brilhar mil e um tons de verde. Depois o pôr-do-sol vinha de mansinho, e a floresta escurecia debaixo de um cobertor de folhas, enquanto o céu passava de azul para um arroxeado quase mágico e um sol mais fraquinho se ia escondendo numa cama de folhagem, lá longe no horizonte.
– Que lindo, mamã! – exclama o menino.
– Pois é, amor. – diz a mãe. – A girafa chamada Gaia contou ainda que viajou por um grande deserto. Aí não havia árvores. Para onde olhava só via montanhas de areia branca e mal podia olhar para o sol, porque era muito claro e forte e magoava-lhe o corpo e os olhos. No deserto, quando o sol se punha o céu reflectia as cores do deserto em nuvens de algodão amarelo-torrado, e desaparecia aos poucos atrás de uma duna de areia longínqua.
– Amarelo-torrado da cor das torradas com manteiga? – pergunta o filho.
– Exactamente. – diz a mãe. – A girafa contou à avó que ao atravessar a savana pôde, de vez em quando, abrigar-se à sombra de uma ou outra árvore. O sol não era tão forte como no deserto e corria uma brisa fresca que a girafa chamada Gaia não sabia de onde vinha, mas que sabia muito bem. E aí era tal e qual como a avó contou: deixavam de se perceber as cores das árvores e da terra, ficavam só os contornos a negro que se recortavam num céu mais vermelho onde o sol se escondia lá muito longe, junto da linha do horizonte.
– E foi aí que a girafa encontrou a avó? – perguntou o menino.
– Não, amor, ainda não foi aí. – explicou a mãe. – Isso foi depois.
– Então?
– A girafa continuou a sua viagem até que um dia, a terra acabou e a girafa de nome Gaia chegou às margens do mar.
– Chegou à praia?
– Sim filho chegou à praia.
– E depois?
– A girafa ficou maravilhada com a imensidão do oceano e com o som que faziam as ondas a enrolar conchinhas na areia e ficou a ver o sol a pôr-se no mar. E então, entre o azul do céu e o azul do mar desceu um sol vermelho como o fogo que parecia mergulhar nas águas e incendiá-las também com a sua cor.
– Oh mãe… – diz a criança.
– Diz filhote. – responde a mãe.
– As girafas sabem nadar? – pergunta o menino.
– Não amor. A girafa Gaia não pôde continuar a sua viagem. Teve de voltar para trás, e foi na sua viagem de regresso que encontrou e parou a conversar com a avó. – explicou a mãe.
– Ah. E ela não ficou triste?
– A avó também perguntou o mesmo e sabes o que ela respondeu? – perguntou a mãe.
– Não. – diz o filho. – O que foi?
– Ela respondeu que a viagem tinha sido maravilhosa e que tinha visto coisas muito bonitas que nunca podia imaginar que existiam. Sabia agora que nunca podia chegar ao horizonte e ao sol porque eles viajavam com ela sempre, sempre mais além. A girafa contou à avó que se sentia muito feliz pelas histórias que tinha para contar aos seus amigos. A avó disse-lhe que também estava muito feliz por se terem conhecido, e foi assim que se despediram. A girafa continuou o seu caminho e a avó ficou a ver o pôr-do-sol.
– Que bonita história mãe! – diz o menino.
– Pois é filho. – concorda a mãe.
– Eu também gostava de ir até ao horizonte… Achas que posso?
– Claro meu amor! Um destes dias falaremos sobre isso…
agosto de 2008
terça-feira, 5 de agosto de 2008
sexta-feira, 11 de julho de 2008
a abelha zarelha
zum-um zum-um zum-um...
voando um voo veloz,
vum-um vum-um vum-um...
ei-la que num instante
olhou para o sol brilhante
bateu nas folhas d’ uma árvore gigante!
num segundo se recompõem,
zum-um zum-um zum-um...
lá foi ela outra vez,
vum-um vum-um vum-um...
e assim passa a vida inteira,
do jasmim para a cidreira,
e pumba!
sexta-feira, 4 de julho de 2008
photo grafia I
sexta-feira, 13 de junho de 2008
não é preciso ser maluco... mas ajuda
um dos dramas mais graves relacionados com a renovação de documentos é, está bom de ver, a fotografia. certamente que não sou a única pessoa no mundo que se sente extremamente incómoda quando tem de se deixar fotografar, e que perde qualquer réstia de amor próprio quando olha para uma fotografia sua. quantos de nós pensamos, enquanto pela janela do carro entregamos com as mãos trémulas os documentos ao Sr. Agente, …ai ai. agora é que é. ele vai olhar para aquela fotografia e vai já pensar que eu sou psicopata, sem respeito pela autoridade e com tendências homicidas…?
como tirar fotografias é a pior parte, alguém decidiu tornar todo o processo ainda mais doloroso. estão neste momento em vigor um conjunto de normas para as fotografias de documentos cuja pertinência é fácil de compreender… “a cores, fundo liso, tipo passe, sem óculos escuros, obtidas há menos de um ano e com boas condições de identificação (por boas condições de identificação tem sido entendido o rosto e cabelo descobertos)”. até aqui porreira da vida. mas alguém decidiu, e não acuso ninguém em especial, que havia de se complicar a coisa. e lá estava eu a olhar para a senhora do balcão do arquivo de identificação, enquanto ela debitava uma interminável lista de regras inacreditavelmente detalhadas. ao fim de uns segundos eu simplesmente desliguei, deixei de prestar atenção, e a voz da senhora passou a soar como a da professora do Charlie Brown. mas de repente, do meio daquele som nasalado e ininteligível, saiu uma frase que me fez acordar: …a fotografia deve ser tirada sob fundo claro, com o rosto de frente de maneira a apanhar as duas orelhas…
atirei a cabeça para trás e desatei a rir desbragadamente! pois que podia fazer, eu que fui conhecida durante toda a juventude como “a bolacha”, senão rir à gargalhada! ó minha senhora – saíu-me logo – a mim para me apanharem as duas orelhas, só com uma máquina fotográfica montada num satélite! e ri-me mais um bocado. depois lá consegui controlar a risota e limpar as lágrimas. a senhora estava à minha frente, impávida, com uma sobrancelha ligeiramente mais erguida que a outra, como quem está a olhar para um extra-terrestre. e lá está, um dos grandes males da nossa sociedade é a absoluta ausência de sentido de humor entre certas e determinadas classes profissionais.
moral da história… acho que não tem. eu meti a viola ao saco, fiz o que a senhora me mandou e fui para casa esperar pelo bilhete de identidade novo com uma fotografia hedionda segundo o que ditam as regras. ela ficou inalterada, a carimbar papéis como se não houvesse amanhã e a pensar se será o stress que põe as pessoas todas maluquinhas e a dizer parvoíces sem nexo nenhum.
mas eu, pelo menos, consolei-me a rir…
sexta-feira, 16 de maio de 2008
i hate to read | i love to read
m. artmaker
quinta-feira, 15 de maio de 2008
segunda-feira, 5 de maio de 2008
carta a uma mãe
que te amo.
que és para mim a prova da existência de algo superior, de infinitamente belo e bom e genuíno e puro.
que vivo a minha vida guiada pelo que os teus olhos e o teu coração vêem em mim.
que, ainda que um dia – jovem e ignorante – tenha pensado que eu decidiria melhor, tudo o que desejo hoje é poder decidir com a mesma sabedoria, e aceitar as consequências com a mesma dignidade.
que me sentirei realizada – como mãe, como mulher e como pessoa – se um dia merecer do meu filho o respeito e a admiração que tenho por ti.
que o meu bem estar e a minha paz de espírito dependem da tua graça e do teu perdão.
que procuro, todos os dias, ser alguém, de quem te possas orgulhar de ser mãe.
que nada é real até que tu o saibas, e nada é bom ou mau até que tu o digas.
que não te mereço. que és a melhor parte do mundo, a melhor parte de mim.
que a tua presença me regenera e a tua ausência me dói.
que te amo desmesuradamente.
que espero que conheças e saibas o que sinto por ti... porque eu quero explicar-te mas não consigo.
quarta-feira, 2 de abril de 2008
memória visual V
quinta-feira, 20 de março de 2008
olá primavera
os churrascos no quintal, a cerveja fresca e o bom humor.
o ar já cheira a passeios, a gargalhadas e brincadeiras,
com janelas abertas para entrarem as árvores e as floreiras.
os dias são claros, lindos e têm mais horas...
para gastar a comer morangos, cerejas e amoras.
os amigos vêm mais, e vêm sem avisar
carregados de doces e coisas para conversar.
a música soa melhor e os livros são bons de ler,
aquece-se-nos o coração com vontade de viver.
tudo na terra é beleza, alegria e carinho,
e para quem tem sorte, pode até trazer... um sobrinho!
segunda-feira, 10 de março de 2008
as maninhas libelinhas
voavam com muito gosto,
duas lindas libelinhas
pelo meio das folhinhas.
íam a rir e a brincar,
entre amoras a penicar.
mas que grande espalhafato!
mesmo à beira do regato,
de repente – sem contar,
uma deixou de respirar!
a outra aflita, coitada,
zás!
deu-lhe uma grande sapatada,
e lá cuspiu a libelinha,
de amora, uma grainha
que acertou na sua amiga,
mesmo em cheio na barriga!
já o susto era passado,
as duas de braço dado.
lá retomam a sua rota,
sempre, sempre na risota!
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
curious expeditions
traduções na bricadeira I
o original:
"the big rock candy mountain"
one evening as the sun went down
and the jungle fires were burning,
down the track came a hobo hiking,
and he said, "boys, I'm not turning
I'm headed for a land that's far away
besides the crystal fountains
so come with me, we'll go and see
the big rock candy mountains
in the big rock candy mountains,
there's a land that's fair and bright,
where the handouts grow on bushes
and you sleep out every night.
where the boxcars all are empty 
and the sun shines every day
and the birds and the bees
and the cigarette trees
the lemonade springs
where the bluebird sings
in the big rock candy mountains.
in the big rock candy mountains
all the cops have wooden legs
and the bulldogs all have rubber teeth
and the hens lay soft-boiled eggs
the farmers' trees are full of fruit
and the barns are full of hay
oh I'm bound to go
where there ain't no snow
where the rain don't fall
the winds don't blow
in the big rock candy mountains.
in the big rock candy mountains
you never change your socks
and the little streams of alcohol
come trickling down the rocks
the brakemen have to tip their hats
and the railway bulls are blind
there's a lake of stew
and of whiskey too
you can paddle all around it
in a big canoe
in the big rock candy mountains
in the big rock candy mountains,
the jails are made of tin.
and you can walk right out again,
as soon as you are in.
there ain't no short-handled shovels,
no axes, saws nor picks,
I'm bound to stay
where you sleep all day,
where they hung the jerk
that invented work
in the big rock candy mountains.
I'll see you all this coming fall
in the big rock candy mountains
a tradução:
"as montanhas de rebuçado"
uma tarde, enquanto o sol se punha
e a floresta verde ardia,
p’lo caminho veio um vagabund’andando
e disse “migo, eu não vou ficando,
eu cá vou-m’embora, p’ra’uma terra longe,
passando o mar p´ro outro lado,
venham comigo ver, vamos conhecer
as montanhas de rebuçado.
nas montanhas de rebuçado,
há uma terra linda de morrer,
nasce esmola nos jardins,
dormir na rua é um prazer.
os espaços são abertos, 
todos os dias são de verão,
o som das aves é gentil,
nas árvores d’sg ventil,
e as fontes de limonada,
para levar a namorada,
nas montanhas de rebuçado.
nas montanhas de rebuçado
a polícia não tem pés,
os cães são desdentados,
e as galinhas põem ovos estrelados.
as árvores dão muita fruta,
e os campos cereal,
cá o Xixas vai
p’a onde a chuva não cai,
e o vento não sopra,
e donde sol não sai,
nas montanhas de rebuçado.
nas montanhas de rebuçado.
não há peúgas p’a lavar,
corre um ribeirinho de bagaço,
por onde s’anda a passear.
ninguém lá tem mau feitio,
não á feitores nem patrões,
há um lago de guisado,
e fontes de mel coado,
onde se pode navegar,
com um barco para remar,
nas montanhas de rebuçado.
nas montanhas de rebuçado.
a prisão tem grades de latão,
para se poder voltar a sair,
mal se passa o portão.
não há sacholas nem picaretas,
alfaias ou ferramentas,
e a vida segue e calha,
por dá cá aquela palha,
e mataram o paspalho,
que inventou o trabalho,
nas montanhas de rebuçado.
é lá que vos espero,
nas montanhas de rebuçado.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
castelos e princesas
almourol - rio tejo - portugal
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
the power of the dark side
eu descobri o meu recentemente. é uma criatura horrenda que eu devia fazer desaparecer num canto escuro da casa mas, como ainda sou um bocado inconsciente dos seus malefícios e arrogante da minha capacidade de o controlar, vou apresentá-lo juntamente com uma teoria de trazer por casa que desenvolvi desde que... bem, desde que fomos devidamente apresentados.
devo, em primeiro lugar, esclarecer que não existe um eu e um ele... sou só eu mas em cambiantes de luz diferentes... muito diferentes mesmo!
em segundo lugar, e vou já arrancar com a dita teoria, acredito que todos temos um lado negro mais ou menos normal, andadeiro, quase descartável, que aparece quando nos chega a mostarda ao nariz ou nos pisam os calos. um nós mal-disposto e agreste que surge em alturas diversas... no meio do trânsito, a ver futebol, na repartição de finanças ou a fazer compras de natal no shopping... é diferente para cada um.
mas há um outro nós, o nosso verdadeiro e terrível Lord Darth Vader, que é único e irrepetível e que representa o dom, ou A Força, de cada um mas aplicada ao mal!
passo a explicar. eu gosto de escrever. toda a vida quis escrever. o meu sonho é ser escritora. é o que me faz feliz. é o cantinho do mundo em que respiro melhor e encontro paz e solto a alma. é, se quisermos, a actividade que faz fluir A Força dentro de mim.
e é exactamente aí que o meu Lado (Mais) Negro vem atacar... onde há mais energia, mais capacidade... mais Força.
o que me acontece é que, sem eu perceber muito bem como, acende-se um rastilho de maldade que depois não consigo controlar. leio um texto com o qual não concordo, ouço uma opinião de que não gosto ou vejo algo que me desagrada... e click! dispara uma reacção em cadeia que é na maioría das vezes evitável e quase sempre descomunalmente exagerada.
começo normalmente – tenho andado a observar-me... – a arranjar-me na cadeira, a dobrar e esticar os dedos, a ajustar o computador na minha frente e debaixo das mãos. depois começo a escrever... e o barulhinho delicado das teclas transforma-se nos compassos aterradores da marcha que, no Star Wars, acompanha sempre a entrada em cena do Lord Vader, do Imperador, da Death Star, do Exército de Clones e por aí fora. É uma pena eu não conseguir reproduzir aqui o som... sabem qual é: POM-POM-POM-POM-PO-POM-POM-PO-POM, adiante!
depois... bem, depois é um nunca mais acabar de reparos irónicos, trocadilhos maldosos, críticas mesquinhas... sarcasmo, cinismo, veneno puro... do pior que se pode por aí encontrar. é horrível!
de início ainda pensei que fosse uma incursão literária pelos tradicionais géneros de escárnio e maldizer, mas as mais das vezes não é. é arrogância, é julgamento gratuíto, é egoísmo e é maldade.
e o pior de tudo é que um destes dias posso acabar por ofender alguém. mesmo a sério. e não queria nada. portanto, vou fazer o seguinte compromisso: sempre que me der um destes achaques, e não conseguir de maneira nenhuma fazer delete, vou assinar...
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
me
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
memória visual III
criptó-pseudónimos temáticos
portanto, a quem diz que o bibliotecário lê, mas não escreve... é mentira, digo-lhe eu!
e foi assim que dei comigo a abrir pastas e ficheiros no disco rígido, com títulos imaginativos como doc1 e doc2, e a revolver gavetas e caixinhas à procura de todas as idiotices que um dia, por uma ou outra razão, me lembrei de escrever.
pouco depois já estava a editar o conteúdo do meu velho scriptorium no meu recém-nascido blog. nesta fase surgiu um questão duvidosamente pertinente, que vou partilhar: havendo no reportório textos tão antigos e outros tão recentes, de géneros literários diversos, e de temas tão distantes, não me pareceu bem que tivessem todos a mesma autoria. tinha apenas o blank blue booker, criador do blog e autor de artigos de suma importância, como este, aliás.
tive uma ideia, que na altura me pareceu brilhante, e agora... bem, agora nem por isso, mas ainda assim, cá vai: inventei um conjunto de pseudónimos literários, que me soaram bem e minimamente convincentes, com conteúdos e significados subliminares um pouco subtis, mas perfeitamente acessíveis a qualquer pessoa que tenha lido o código da vinci.
e assim nasceu r. bardchild, que é a autora das coisas mais antigas, quando eu era uma criança e queria ser poeta quando crescesse... e um bardo é um tipo de poeta.
e assim nasceu a b. pecorabuona, cujo nome desdobrado e traduzido de italiano para português significa ovelha mansa que é, na verdade, um dos significados do meu nome real, que é de origem hebraica, e que vai assinar a poesia produzida depois dos 18 anos.
e assim nasceu r. bewusstsein, que significa consciência em alemão e que vai assinar os textos de opinião... ou para aí virados.
e assim nasceu a parelha de gémeos m. artmaker e w. eartaker, responsáveis pela selecção de imagens e pela escolha de letras de músicas, respectivamente.
todas as citações são evidente e devidamente assinadas pelos seus autores ou pelos seus pseudónimos.
passado uns tempos, e perante uma manifesta falta de reacção de certa pessoa que permanecerá anónima, vim a descobrir que afinal, a falta de reacção se devia ao facto de não ter a mais pálida ideia de que era eu, e não estes obscuros senhores, a autora das publicações! foi uma surpresa para ambos... sobretudo para mim que vi os meus esquemas tão bem elaborados passarem de enigma interessante a tolice da pior espécie... decidi desfazer os enganos e pronto... a partir de agora vou assinar como bem me apetecer e me der na real gana.
tu, sabes quem és, estou a falar contigo. não voltes a duvidar de mim.
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
a barata patarata
numa linda terra,
entre a cama do rio
e as costas da serra,
numa casa pequenina
atrás de um rodapé
vivia uma barata
que era um pouco xoné!
era tão tola, tão tola…
que nem dá p’ra acreditar!
tinha as patinhas no chão
mas a cabeça no ar.
cada dia ela inventava
asneiras: tolices sem fim
ontem foi apanhar sol,
e perdeu-se no jardim!
o que eu queria que o meu filho soubesse...

que há-de superar tudo e a si mesmo,
e que há-de ser feliz e forte e grande,
que deve acreditar e teimar e lutar e perder e ganhar,
que no seu coração não há limites.
que a vida o vai magoar muito,
e que o mundo não é o que parece,
que vai perder sonhos, pessoas, amores...
e que às vezes vai ser infeliz e fraco e pequenino.
mas não faz mal, porque eu...
eu amo-o incondicionalmente.
sábado, 19 de janeiro de 2008
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
a minha casa II
tanto para mim,
tão pouco para os outros.
é tão grande quanto a minha imaginação,
tão pequena quanto a minha tristeza,
tão longa como a minha vida,
tão estreita como a minha idade.
a minha casa tem segredos, mistérios, alegrias e surpresas.
ela pode levar-me até onde forem os meus sonhos.
é uma casa disforme, presa no fundo do mar.
uma vivenda abstracta que voa com o vento.
uma pequena cabana no meio de uma planície.
um quartinho apertado no centro de uma nuvem.
a minha casa I
sempre? não.
só quando falo sozinha, como agora.
onde é?
nem eu sei.
é em mim, na minha imaginação.
como é?
é linda e muito grande!
não tem portas nem janelas, nem tecto nem chão.
nem paredes, nem cantos.
como entro?
a escrever, a pensar, a dormir.
basta fechar os olhos,
e entro na minha casa,
tão linda e tão grande,
que nem eu a conheço bem.
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
thysanura, o bichinho da cultura
(eu vou já explicar do que se trata)
é um bicho de nome thysanura,
e a sua maior paixão é a leitura.
é muito sábio. como um professor!
aprender tudo é o seu amor.
querem saber como ficou ele assim?
vive numa biblioteca, claro que sim!
janeiro de 2008
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
a caverna
Depois... Bem depois o homem evoluiu, evoluiu, evoluiu, até se tornar num “ser civilizado”. Foi controlando a natureza para melhorar a sua vida, foi construindo umas coisas e destruindo outras, tomou decisões históricas certas e erradas, fez coisas bem e mal... Mas seja qual for a herança que nos deixou esse homem, essa é a nossa herança, e é com ela e a partir dela que temos de traçar o nosso caminho daqui para o futuro.
O problema em mãos é que todos nós já devíamos estar fora da caverna, não fisicamente, do que eu falo é das nossas consciências. O facto de sermos conscientes do que nos rodeia acarreta certas responsabilidades. A responsabilidade de estarmos alerta, de defendermos aquilo em que acreditamos, de protegermos a natureza, de não tolerarmos as atrocidades feitas aos direitos humanos, de procurarmos sempre saber a verdade das coisas e não o que nos tentam vender em horário nobre. Temos a responsabilidade de nos continuarmos a deslumbrar com as maravilhas do mundo.
Não é fácil encarar estas responsabilidades. É preciso ter fé na alma humana, acreditar nas capacidades do homem, na ciência, na natureza, na beleza e na magia de todos os dias. Tudo isto se torna cada vez mais difícil quando a toda a hora vemos e ouvimos o monte de desgraças que vão por esse mundo fora. Por outro lado continuamos a ser “encadeados” – não pelo sol – mas pelos discursos ininteligíveis dos governantes, pelo mau humor de quem encontramos no caminho, pelas montanhas de lixo humano e intelectual que nos entra pela casa a dentro quando ligamos a televisão.
Mas será que a culpa é só deles ? Quantos de nós aderem ao mau humor, ao imobilismo, quantos viram a cara, quantos mudam de canal ou, pior ainda, engolem o que nos é dado?... Nós vamos aos poucos cedendo, aderindo à idiotice geral – que é simultaneamente efeito e veículo da dita globalização. Vamos deixando de ajustar os olhos e as consciências à realidade. Basta-nos que as coisas “pareçam” estar minimamente bem. Basta-nos a ilusão de que somos livres e que vivemos de forma civilizada. Mas até que ponto nos estão a iludir, e a partir de que momento nos estamos a iludir a nós próprios? Se somos livres e civilizados, o que nos impede de mudarmos o que achamos que está mal? Será o sentimento que temos de que não vale a pena? De que já nada vale a pena?
Estamos a regressar à caverna, minha gente! E nem sequer é uma caverna escolhida por nós, porque não é uma escolha plenamente consciente, é um caminho traçado pela convicção de que não há alternativas. Eu não tenho muitas certezas na vida, mas tenho uma: há sempre uma alternativa.
Eu até posso um dia viver numa caverna, mas não agora, e nunca nesta. Ainda tenho fé na alma humana, acredito nas capacidades do homem, na ciência, na natureza, na beleza e na magia de todos os dias. Ainda tenho fé na alma humana e ainda penso que um pequeno gesto pode criar grandes mudanças. Ainda sinto que vale a pena.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
a biblioteca
1994
manifesto ao manifesto
na verdade, grande parte do manifesto da ifla/unesco acerca das bibliotecas públicas se pode aplicar às bibliotecas escolares e universitárias, sobretudo se tivermos em conta que este manifesto é um afirmar de missões, um comprometimento para com a educação e a cultura.
a biblioteca é muito mais do que o serviço, e muito mais que o espaço. a ideia de “templo de conhecimento” é sempre a primeira que me surge, evocando uma imagem, em tempos descrita por um bibliotecário, que afirmava que numa biblioteca devemos procurar ter todo o tipo de saber, e, se não pudermos ter todas as respostas, poderemos pelo menos ter os “mapas” dos caminhos para essas respostas. e se um dia alguém entrar e perguntar onde está Deus, é com toda a serenidade que devemos responder: Deus está no piso 1, nas estantes centrais da parede norte…
b. b. booker
manifesto

1994












